Pilotos da TAP marcam assembleia geral e equacionam avançar para greve

Companhia dá novas regalias aos trabalhadores para minimizar problemas na operação, mas sindicatos dizem que não chega.

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Presidente da TAP prometeu normalizar operação em Agosto Miguel Manso

Nas várias assembleias gerais que os pilotos têm marcado nos últimos meses, esta medida de protesto também tem sido equacionada, mas nunca foi concretizada. Agora, no entanto, a situação laboral que se vive na companhia parece ser muito mais propícia a uma paralisação.

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Nas várias assembleias gerais que os pilotos têm marcado nos últimos meses, esta medida de protesto também tem sido equacionada, mas nunca foi concretizada. Agora, no entanto, a situação laboral que se vive na companhia parece ser muito mais propícia a uma paralisação.

À semelhança das restantes categorias profissionais da TAP, os pilotos estão preocupados com os problemas de operação que a transportadora aérea tem registado, com maior premência desde o início do Verão. Mas, neste grupo de trabalhadores, o choque com a administração de Fernando Pinto tem vindo a piorar de dia para dia.

O presidente do SPAC, Jaime Prieto, confirmou ao PÚBLICO que há uma assembleia geral marcada para sexta-feira e que “a greve é uma possibilidade”. O responsável explicou que “existe um mal-estar profundo que pode levar os trabalhadores a tomar este tipo de medidas”. Para o SPAC, seriam necessárias “uma inversão total e uma responsabilização da gestão da empresa” para que o conflito fosse ultrapassado. Jaime Prieto acusou também o accionista Estado de “assobiar para o lado”.

Ainda nesta quinta-feira, o presidente da TAP emitiu uma circular interna em que propõe “medidas excepcionais” para compensar os trabalhadores pelo “esforço” que têm feito para “minimizar as consequências [dos problemas na operação] para os nossos passageiros, atenuando o impacto negativo sofrido”.

Neste documento, a que o PÚBLICO teve acesso, refere-se que as medidas têm carácter “transitório”, vigorando entre 1 de Junho e 31 de Dezembro de 2014, o que significa que haverá efeitos retroactivos. De entre os incentivos está um aumento da compensação paga aos pilotos pelo trabalho em dias de folga e de férias, prevendo-se uma majoração de 100%.

O SPAC diz, no entanto, que estas medidas são “um remendo para males maiores”. Jaime Prieto referiu que os trabalhadores exigem “ser tratados com respeito e condignidade numa empresa que é de capitais públicos”. No fundo, os pilotos lamentam o facto de a operação ter chegado a este ponto, com sucessivos atrasos e cancelamentos, que a companhia tem justificado com o atraso na entrega de novos aviões e na formação de quadros.

Em apenas quatro dias (de quarta-feira ao próximo sábado), a transportadora aérea suprimiu quase 50 voos. Numa mensagem de vídeo deixada no You Tube, o presidente da companhia prometeu normalização a operação em Agosto.

Tripulantes querem distribuição equitativa do trabalho
Mas a circular assinada por Fernando Pinto estende-se também aos tripulantes, aos quais a companhia pretende pagar horas extra quando trabalham para além do horário previsto de serviço diário. No entanto, também o Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC) considera que este incentivo fica aquém “do que seria necessário” para compensar os trabalhadores.

O presidente da estrutura, Rui Luís, explicou que os tripulantes tinham exigido “uma distribuição correcta dos voos para todos”, o que resultaria numa repartição mais equitativa das ajudas de custo e das horas de descanso e numa "melhor gestão familiar".

O sindicalista disse ainda que a plataforma que representa os trabalhadores da TAP pediu uma audiência ao ministro da Economia há 15 dias, “mas não obteve resposta”. O mesmo sucedeu há três meses, referiu.

Na circular emitida pela TAP, são ainda enumeradas medidas para o pessoal de terra, que passam essencialmente pela majoração da remuneração paga por trabalho suplementar e em dias de descanso. É também proposta uma compensação financeira pelo descanso não gozado até 31 de Dezembro de 2015.

No documento, Fernando Pinto assume que, “por efeito acumulado de um conjunto de factores imprevisíveis e fora do controlo da gestão, a operação da TAP vem sofrendo uma irregularidade fora dos padrões da companhia, o que tem obrigado a uma utilização mais intensiva dos trabalhadores, em especial os que estão mais envolvidos com a operação diária”.

Contactada pelo PÚBLICO, a TAP não quis fazer comentários sobre a circular, nem sobre a possibilidade de uma greve dos pilotos.

Ministro da Economia critica companhia
Nesta quinta-feira, o ministro da Economia, Pires de Lima, afirmou que os sucessivos cancelamentos de voos na TAP colocam em causa a "imagem de Portugal" e que devem ser "motivo de reflexão" para a administração da companhia. "Estes cancelamentos e estes atrasos não são seguramente uma coisa boa e devem ser um motivo de reflexão para a administração da TAP e para todos nós", afirmou à Lusa, à margem de uma visita oficial à capital angolana.

Questionado pelos jornalistas, António Pires de Lima assegurou que o ministério tem "acompanhado de perto" a "evolução operacional da TAP", admitindo que com a sucessão de atrasos e cancelamento de voos é "a imagem de Portugal, também, que está em causa". 

"Nós temos a obrigação, enquanto Ministério da Economia, de pedir à administração da TAP que recupere operacionalmente a normalidade das operações num tempo curto. E essas expectativas foram criadas pela própria administração, para as próximas semanas e durante o mês de agosto", sublinhou Pires de Lima.

"A seu tempo, com calma, com tranquilidade, com serenidade, durante os meses de Setembro e Outubro, acho que é preciso aprofundar as razões desta crise de crescimento que se verificou na TAP e que perturba o serviço e a vida das pessoas. Nós temos de compreender isso, para que estas situações não se voltem a repetir no futuro", disse.

Apesar das dificuldades operacionais sentidas pela companhia, o governante reafirma que a TAP "continua a ser uma empresa tão segura como sempre foi no passado", mas assume que a situação actual, com várias suspensões de voos e atrasos, "prejudica a vida das pessoas".

"É com os clientes da TAP, com a imagem de uma companhia de que o Estado é o único accionista, neste momento, e que leva o nome de Portugal a todo o lado, com que eu estou preocupado, legitimamente preocupado, como ministro da Economia", apontou.
Para o ministro, que tutela a empresa controlada totalmente pelo Estado, "é muito importante que a TAP tenha uma imagem não só de segurança, que sempre manteve e mantém", mas também "de credibilidade operacional".
"No sentido em que os voos que promete se fazem e partem a tempo e horas", rematou Pires de Lima.