Painéis de azulejos de Querubim Lapa em Lisboa acusam degradação

Pintor e ceramista lamenta "falta de respeito" pelas obras que tem na capital, algumas em risco devido à ausência de conservação do espaço.

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Um dos casos que mais preocupa o ceramista é o do painel “O Terraço”, que a Câmara lhe encomendou há 20 anos para decorar um muro na Avenida da Índia, defronte para a estação ferroviária de Alcântara-Mar. Em 2004, as paredes que rodeavam o muro foram demolidas a pretexto de um projecto imobiliário que nunca arrancou. Ainda se pensou transferir o painel para outro local, mas os azulejos estão colados à parede com cimento. O painel continua lá mas hoje mal se vê, quase abafado pela publicidade.

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Um dos casos que mais preocupa o ceramista é o do painel “O Terraço”, que a Câmara lhe encomendou há 20 anos para decorar um muro na Avenida da Índia, defronte para a estação ferroviária de Alcântara-Mar. Em 2004, as paredes que rodeavam o muro foram demolidas a pretexto de um projecto imobiliário que nunca arrancou. Ainda se pensou transferir o painel para outro local, mas os azulejos estão colados à parede com cimento. O painel continua lá mas hoje mal se vê, quase abafado pela publicidade.

Um parecer assinado em 2004 por uma técnica de Conservação e Restauro do Ministério da Cultura, ao qual o PÚBLICO teve acesso, considerava necessário “proceder à escoragem do tardoz da parede” e “ponderar na protecção do revestimento com a colocação de palas superiores de maior dimensão e uma melhor iluminação”.

Questionada pelo PÚBLICO, a autarquia não esclarece se algo foi feito entretanto. Diz apenas, através do seu gabinete de comunicação, que o muro “não necessita de qualquer tipo de intervenção preventiva dado que a sua estrutura se encontra estável”.

Querubim Lapa acusa a Câmara de “falta de respeito pela obra de arte”, ao autorizar a colocação de cartazes junto ao painel. “O painel mistura-se com toda aquela publicidade, e tem surgido cheio de graffiti. Eu próprio, quando ainda dava aulas, fui lá uma vez limpar a tinta com um grupo de alunos. E também falta iluminação que assinale o painel à noite”.

A obra foi oferecida por uma farmacêutica à Câmara, então dirigida por João Soares, que depois contactou o ceramista. “O painel foi premiado pela própria Câmara [com o Prémio Jorge Colaço], deviam ter o máximo de cuidado”, critica Querubim Lapa.

Perante a impossibilidade de transferir a obra para outro local, a Câmara propôs ao artista que fizesse uma cópia d’ “O Terraço” para reproduzir na parede de um edifício municipal nas Olaias. “Apresentei uma proposta e o respectivo custo, mas estou há dez anos à espera”, afirma. “Disseram-me que a proposta se perdeu na mudança de instalações do gabinete de Cultura. Há quatro meses a secretária do presidente António Costa disse-me que finalmente iam tratar do caso”, relata o ceramista. A uma nova proposta seguiu-se um novo impasse: o projecto no valor de cerca de 40 mil euros está em stand by, alegadamente por falta de verbas.

“Daqui por dez anos vêm outra vez ter comigo mas provavelmente nessa altura já cá não estou”, ironiza Querubim Lapa, que aos 88 anos é o artista com mais obras no espaço público do país e continua a trabalhar. A maioria está na capital: é o caso os azulejos que forram o interior da estação de Metro da Bela Vista ou do painel "Sol Mexicano", que decora a Pastelaria Mexicana, recentemente classificada como monumento de interesse público.

À lista juntam-se diversos painéis que decoram fachadas de algumas escolas da capital. Mas na Escola Básica Mestre Querubim Lapa, em Campolide, e na Secundária D. Luísa de Gusmão, já há azulejos no chão.

“Eu avisei que com a infiltração de água da chuva aquilo ia cair, e caiu”, afirma Querubim Lapa, indignado com a incapacidade da autarquia para evitar o desfecho na escola primária de Campolide – que adoptou o nome do pintor modernista precisamente por causa do painel, feito em 2003. Os avisos partiram também da directora da escola, Maria Jorge Figueiredo: “Há mais de um ano comuniquei à Câmara que a parede rachou, vieram uns peritos avaliar, mas nada foi feito”. Quando chegou ao estabelecimento na manhã de 10 de Fevereiro, depois do forte temporal que afectou quase todo o país, Maria Jorge Figueiredo encontrou no chão metade dos azulejos que revestem um alçado do bloco B.

“Todos os azulejos caídos, alguns danificados, foram posteriormente recolhidos pela Câmara de Lisboa", esclarece a autarquia. O estabelecimento está há vários anos em lista de espera para receber obras. Segundo o município, estas devem avançar em 2015, durante o período de férias escolares. Está prevista a "reparação da empena de suporte do painel e a colocação duma réplica do painel original, a executar pelo autor”, acrescenta.

“Disseram-nos que o que ficou não está em risco de cair”, explica ao PÚBLICO o presidente da Junta de Freguesia de Campolide, André Couto. “O património cultural está a pagar a factura do adiamento das intervenções nas escolas, que já deviam ter começado há bastante tempo”, lamenta.

Já na Escola Secundária D. Luísa de Gusmão, na Penha de França, a situação é semelhante mas a responsabilidade é do Ministério da Educação (ME). No painel de 30 metros que cobre a fachada também já faltam azulejos. “Começaram a cair com a infiltração de águas, há três meses”, diz Querubim Lapa, que mandou o seu azulejador (especialista em assentar azulejos) avaliar o estado da obra. Este concluiu que o painel pode cair a qualquer momento e utilizou fita-cola para tentar segurar os azulejos. “A directora da escola diz que já participou o caso ao ME, mas não há resposta”, lamenta o ceramista.

O PÚBLICO tentou contactar a direcção do estabelecimento, sem sucesso. A Câmara de Lisboa, que criou em 2012 um Programa de Investigação e Salvaguarda do Azulejo de Lisboa (PISAL) para defender o património em risco na cidade, diz que não ter conhecimento deste caso.