Maiores análises genéticas de sempre da esquizofrenia confirmam extrema complexidade da doença

É pouco provável que dois doentes escolhidos ao acaso apresentem o mesmo perfil de risco genético, afirmam cientistas.

Foto
No filme Uma Mente Brilhante, Russel Crowe encarna o genial matemático John Nash, que sofreu de esquizofrenia durante décadas Universal Pictures

A esquizofrenia afecta 1% da população mundial e é caracterizada por alucinações visuais e auditivas, delírios e paranóia, entre outros. Os doentes costumam ser tratados com medicamentos antipsicóticos cuja eficácia pouco tem evoluído nos últimos 20 anos.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

A esquizofrenia afecta 1% da população mundial e é caracterizada por alucinações visuais e auditivas, delírios e paranóia, entre outros. Os doentes costumam ser tratados com medicamentos antipsicóticos cuja eficácia pouco tem evoluído nos últimos 20 anos.

Com base em estudos de famílias com uma história da doença, sabe-se há bastante tempo que ela tem uma forte componente hereditária. Porém, até aqui, as tentativas de identificar genes específicos causadores da doença comuns a todos os doentes não têm tido sucesso. Os dois novos trabalhos fornecem uma explicação para este aparente paradoxo.

Num dos estudos, Shaun Purcell, do Instituto Broad (do MIT e de Harvard, nos EUA), e colegas de várias instituições norte-americanas e europeias, compararam as sequências genéticas, colhidas pelo Instituto Karolinska na Suécia, de 2536 pessoas com esquizofrenia e de 2543 pessoas que não tinham a doença. Os autores descobriram então “mutações ultra-raras em dezenas de genes”, explica um comunicado do Hospital Mount Sinai, de Nova Iorque, que participou no estudo.

No outro estudo (do qual Purcell é igualmente co-autor), Menachem Fromer, do Mount Sinai e do Instituto Broad, e outra equipa internacional procuraram mutações, desta vez não hereditárias mas espontâneas, em amostras de ADN colhidas junto de 623 doentes esquizofrénicos búlgaros e dos seus respectivos progenitores. E concluem que estas mutações novas (que são contudo menos numerosas do que as hereditárias), para além de ter um papel no desenvolvimento da doença, perturbam principalmente certos circuitos cerebrais implicados na regulação da força das ligações entre neurónios –  desempenhando portanto um papel importante no desenvolvimento cerebral, na aprendizagem, na memória e nas capacidades cognitivas.

De facto, a “tremenda complexidade genética” (nas palavras de outro co-autor) agora revelada por estes estudos fez com que nenhum dos genes identificados pudesse ser implicado sem ambiguidade na doença, escrevem na Nature os autores do estudo na Suécia. “Isso sugere que há muitos genes de risco para a esquizofrenia e que é pouco provável que dois doentes escolhidos ao acaso partilhem o mesmo perfil de risco genético”, frisa Purcell num comunicado do Instituto Broad.

Todavia, o conjunto dos resultados sugere – e isso constitui um substancial avanço, segundo os autores – que as mutações agora identificadas afectam um tipo específico de redes de genes, com funções ao nível da comunicação neuronal. “Este nível de convergência entre vários estudos é inédito na genética da esquizofrenia e indica-nos, pela primeira vez, que estamos perante um dos processos cerebrais de base que são perturbados por esta doença”, diz Mike Owen, da Universidade de Cardiff (Reino Unido) e co-autor do estudo junto da população búlgara, num comunicado da sua universidade.

Esse estudo também detectou que parte dos genes agora implicados na esquizofrenia já foi também associada a outras doenças mentais tais como o autismo e a síndrome do X frágil, que provoca atraso mental. “O facto de termos conseguido identificar um certo nível de sobreposição entre as causas subjacentes à esquizofrenia e as do autismo e da deficiência intelectual indica que estas doenças poderão ter alguns mecanismos em comum e reforça a ideia de que é preciso integrar as pesquisas de múltiplas doenças”, salienta Mick O’Donovan, outro co-autor da mesma universidade britânica.

Os cientistas acreditam que a genética irá contribuir para o desenvolvimento de tratamentos mais seguros e eficazes da esquizofrenia. "O derradeiro objectivo deste tipo de estudos é oferecer aos doentes tratamentos mais personalizados do que os actuais”, diz Purcell.