Quase duas mil pessoas prometem apoiar Myriam Zaluar no dia do julgamento

Activista foi acusada pelo crime de desobediência qualificada depois de ter participado numa tentativa de inscrição colectiva de desempregados num centro de emprego. É "um verdadeiro absurdo", considera a jornalista

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Myriam é jornalista freelancer

Quando o julgamento de Myriam Zaluar começar, esta quinta-feira, dia 10, pelas 11 horas, cerca de duas mil pessoas devem concentrar-se à porta do Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa para manifestar solidariedade com a activista, acusada pelo crime de desobediência qualificada.

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Quando o julgamento de Myriam Zaluar começar, esta quinta-feira, dia 10, pelas 11 horas, cerca de duas mil pessoas devem concentrar-se à porta do Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa para manifestar solidariedade com a activista, acusada pelo crime de desobediência qualificada.

A jornalista "freelancer" considera o caso "um verdadeiro absurdo": "Eu não percebo nada de leis, mas em termos de senso comum acho que isto é escandaloso", disse ao P3 a já poucas horas do julgamento.

Se outro cenário que não a absolvição se erguer ("Quero acreditar que não vai dar em nada, mas obviamente que quando chegamos a este ponto imaginamos tudo", admite), Myriam está disposta a ir "até às últimas consequências". "Na pior das hipóteses acho que podem passar-me uma multa, mas oor uma questão de princípio sobretudo - e também porque não tenho dinheiro - não aceitaria."

Myriam Zaluar foi identificada pela Polícia de Segurança Pública (PSP) no dia 6 de Março quando tentava, juntamente com mais três pessoas, fazer uma inscrição colectiva de desempregados no Centro de Emprego do Conde Redondo, em Lisboa, "um acto simbólico que pretendia chamar a atenção para a mentira dos números sobre desemprego em Portugal". 

Cerca de um mês depois desta acção, no dia 25 de Maio, a activista foi notificada pelo Ministério Público pela prática do crime de desobediência qualificada. Junto com a intimação seguia a informação de que se pagasse 125 euros para uma instituição particular de solidariedade social beneficiaria de suspensão provisória do processo ou, em alternativa, poderia prestar 25 horas de serviço comunitário durante quatro meses.

Myriam negou o crime – e recusou a proposta alternativa –e vai agora ser julgada.

Uma “expressão intimidatória do governo de Passos Coelho, cujo objectivo é evitar que os cidadãos venham para a rua exigir um lugar nesta sociedade”, acusa o Movimento Sem Emprego num comunicado onde apela a todos os cidadãos para que demonstrem a sua solidariedade com a arguida.

Para já, num evento criado no Facebook pelo grupo Que se Lixe a Troika! Queremos as nossas vidas, mais de 1800 pessoas já confirmaram a presença em frente ao tribunal, uma demonstração que causa na jornalista um misto de sentimentos. "Preferia mil vezes que falassem de mim por outros motivos, por um texto que escrevi... mas por outro lado sinto-me muito lisonjeada e amparada pelas pessoas", disse. 

  

Meses antes do dia do protesto no Centro de Emprego, a activista, uma das fundadoras do movimento Precários Inflexíveis, havia escrito uma carta aberta a Pedro Passos Coelho, onde tece duras críticas ao primeiro-ministro e lhe pede para emigrar e levar consigo os ministros com os quais forma governo. 

Poderá ser este um caso de perseguição? "A verdade é que chamei a atenção sobre mim própria algumas vezes e isso não deve ter feito de mim uma pessoa muito simpática para quem manda. Mas prefiro pensar que não seja isso", responde. E deixa um desabafo em tom de alento: "Pode ser que as pessoas acordem para a necessidade de agir, passam-se coisas muito estranhas neste país". 

O crime de desobediência qualificada é punido com pena de prisão até dois anos ou pena de multa até 240 dias.