Holy Santa Maria Fuck!

Ou muito nos enganamos, ou "A Espada e a Rosa" vai dividir as opiniões, ainda mais do que é habitual no cinema português. Estamos mesmo a ver uns quantos puristas a cobrir de opróbrio o primeiro filme de João Nicolau, pela sua aparência de "filme de amigos" com uma sensibilidade demasiado "restrita" para ser abrangente, e outros tantos a reverem-se na "boa onda" de um filme que não se parece com mais nada que o cinema português tenha feito nos últimos anos. Com mais nada, isto é, à excepção de "A Cara que Mereces", de Miguel Gomes - o que ainda mais dividirá as opiniões.

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Ou muito nos enganamos, ou "A Espada e a Rosa" vai dividir as opiniões, ainda mais do que é habitual no cinema português. Estamos mesmo a ver uns quantos puristas a cobrir de opróbrio o primeiro filme de João Nicolau, pela sua aparência de "filme de amigos" com uma sensibilidade demasiado "restrita" para ser abrangente, e outros tantos a reverem-se na "boa onda" de um filme que não se parece com mais nada que o cinema português tenha feito nos últimos anos. Com mais nada, isto é, à excepção de "A Cara que Mereces", de Miguel Gomes - o que ainda mais dividirá as opiniões.


A Espada é o símbolo de uma substância primordial capaz de tudo e mais alguma coisa. A Rosa é um pirata reformado, misantropo e com mau feitio, que se desmultiplica entre Michael Biberstein, Luís Miguel Cintra e José Mário Branco. O Manel vive de biscates, evita O Fiscal, tem um gato chamado Maradona e abandona tudo para ir para alto mar com os Piratas do Plutex, que navegam numa caravela chamada Vera Cruz. Há canções, aventuras, piadas privadas, empregadas brasileiras, francesas petulantes, traições, cinema mudo, engenhocas e alemães com helicópteros. "Holy Santa Maria fuck!", dizem eles e dizemos nós.

"A Espada e a Rosa" é isto tudo sem ser nada disto, metáfora de uma utopia, de uma religião, de uma revolução, pelos olhos de um manel qualquer que vai atrás dos sonhos. Sonho, amor, arte, ciência, literatura, música, tecnologia, café e rum. É filme de "turma", de amigos a brincarem ao cinema e aos piratas e à ficção científica, mas sem que essa brincadeira seja privada ou exclusiva. Seja bem-vindo quem vier por bem; "A Espada e a Rosa" é um convite a quem quiser fazê-lo a vir brincar ao cinema, e aos piratas, com João Nicolau. E é difícil resistir à bonomia e à alegria que o filme comunica, mesmo que por trás dessa bonomia haja algo de melancólico e triste: é um filme de Verão sobre o fim do Verão, sobre o momento em que temos de deixar de perseguir os sonhos para encarar a realidade.

O ADN de "A Espada e a Rosa" está inextricavelmente ligado ao de "A Cara que Mereces": mesma equipa de produção, mesma estrutura de filme de turma inspirado por histórias clássicas (ali a "Branca de Neve", aqui o filme de piratas), mesma inserção de humor absurdo e interlúdios musicais (a cargo de Mariana Ricardo, ex-Pinhead Society e actual München, que colaborou em ambos os filmes). E, sobretudo, uma ambiência quase lírica, meio romântica, uma vontade deliberada de baralhar as regras convencionais da narrativa.

Mas onde Gomes é um cineasta do plano longo, Nicolau é um homem da câmara formalista, em movimento trabalhado; onde em Gomes há sempre uma noção de aleatório, de acaso aproveitado, tudo aqui é pensado, trabalhado, deliberado ao milímetro - e o acaso tudo menos acidental. Talvez por isso, "A Espada e a Rosa" estruturado em três actos que mergulham progressivamente num onirismo cada vez mais surreal até se atingir um ponto de não-retorno, respira mais espontaneidade (paradoxalmente) e mais liberdade, é mais lúdico e acessível.

E, mesmo longe de ser um filme perfeito ou um grande filme (excepto nas suas duas horas e vinte) é uma das mais extraordinárias estreias que temos visto no cinema português recente.