O estranho caso do filósofo sem obra

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Em 1937, Álvaro Ribeiro sugeria, numa carta enviada a José Marinho, que Lúcio Pinheiro dos Santos "deveria talvez ocupar hoje o lugar de primeiro filósofo português". Um juízo significativo, se tivermos em conta que Ribeiro e Marinho, discípulos de Leonardo Coimbra na Faculdade de Letras do Porto, começavam já então a ser vistos como as duas principais figuras do chamado movimento da filosofia portuguesa, cuja actividade se intensificaria a partir dos anos 40 em torno das tertúlias que ambos iriam animar em Lisboa.

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Em 1937, Álvaro Ribeiro sugeria, numa carta enviada a José Marinho, que Lúcio Pinheiro dos Santos "deveria talvez ocupar hoje o lugar de primeiro filósofo português". Um juízo significativo, se tivermos em conta que Ribeiro e Marinho, discípulos de Leonardo Coimbra na Faculdade de Letras do Porto, começavam já então a ser vistos como as duas principais figuras do chamado movimento da filosofia portuguesa, cuja actividade se intensificaria a partir dos anos 40 em torno das tertúlias que ambos iriam animar em Lisboa.

A convicção de Álvaro Ribeiro foi expressa um ano após ter sido publicado, em França, o livro "Dialectique de la Durée", de Gaston Bachelard, cujo sexto e último capítulo constitui uma extensa introdução à "Ritmanálise", de Lúcio Pinheiro dos Santos, da qual o filósofo francês assumidamente se serve para criticar, como já fizera em "L'Intuition de L'Instant" (1932), a noção substancialista e continuista do tempo em Henri Bergson.

Do que Bachelard escreveu, depreende-se que o que Pinheiro dos Santos propunha era, na verdade, um novo sistema de conhecimento, que se baseava na centralidade do ritmo e da vibração, e que o autor considerava virtualmente aplicável a todos os saberes, da física à biologia ou da psicologia à pedagogia.

Se Pinheiro dos Santos tivesse sido um filósofo grego antigo, provavelmente teria postulado que o ritmo é a medida de todas as coisas. E a verdade é que há pelo menos uma circunstância que aproxima o pensador português de vários desses seus longínquos antecessores pré-socráticos: o que hoje conhecemos da sua obra resume-me, com poucas excepções, a comentários de terceiros.

Que livros manuscritos há 2500 anos não tenham chegado até nós, compreende-se. Que volumes impressos em pleno século XX, por muito confidencial que possa ter sido a respectiva tiragem, tenham simplesmente desaparecido, não sendo possível encontrá-los em qualquer biblioteca pública - nem, tanto quanto se sabe, em colecções particulares -, já é francamente estranho.

Sabemos que Bachelard compulsou uma edição em vários tomos de "Ritmanálise", cujo título considerou "belo, luminoso e sugestivo". Segundo a informação bibliográfica fornecida em "Dialectique da la Durée", a obra teria sido publicada no Rio de Janeiro, em 1931, com a chancela da Sociedade de Psicologia e Filosofia. O facto é que, depois de Bachelard, não há notícia de que alguém tenha tido nas mãos um exemplar desta obra.

O filósofo francês elogia ainda um outro estudo de Pinheiro dos Santos, no qual este questiona as teses de Freud sobre Leonardo Da Vinci. Também este texto desapareceu misteriosamente.

Reconstituir um fantasma

Em "O Filósofo Fantasma", que a editora Zéfiro lança esta tarde no Porto, Pedro Baptista faz o balanço do pouco que sabemos de Pinheiro dos Santos, divulga documentos inéditos e dispersos, traduz as páginas que Bachelard dedicou ao pensador português e, sobretudo, investiga o seu percurso cívico, marcado por uma activa, persistente, e pouco conhecida, oposição ao salazarismo.

Romancista, ensaísta, ex-deputado do PS e dirigente do recém-criado movimento Pró-Partido do Norte, Baptista doutorou-se em Filosofia com uma tese sobre Newton de Macedo, tema que o levaria inevitavelmente a confrontar-se com o enigmático Pinheiro dos Santos, dada a proximidade entre este dois homens, aos quais Leonardo Coimbra confiaria a reforma do ensino universitário de Filosofia em Portugal.

Um sinal do esquecimento a que tem sido votado Pinheiro dos Santos é o facto de não figurar, sequer, na já bastante exaustiva versão em língua portuguesa da Wikipédia. E quem recorrer ao Google para saber alguma coisa sobre ele, pouco encontrará. No entanto, se procurar por "rhythmanalysis", em inglês, ou por "rythmanalyse", em francês, terá milhares de páginas para ler, a maior parte delas relacionadas com o sociólogo e filósofo marxista Henri Lefebvre, cuja influente obra póstuma "Eléments de Rythmanalyse", publicada em 1992, é assumidamente inspirada pelas páginas que Bachelard dedicou à tese de Pinheiro dos Santos.

A Ritmanálise está hoje na moda em diversos domínios do saber, muito ao contrário do seu criador,  que Pedro Baptista se propõe reconstruir "através dos fósseis da radiação do seu espectro" - uma provável alusão aos interesses do próprio Pinheiro dos Santos, cuja "intuição inteiramente nova", já notava Bachelard, se fundou "sobre os princípios da física ondulatória".

Lúcio Pinheiro dos Santos, conta-nos Baptista, nasceu a 19 de Abril de 1889, em Braga, filho de um oficial do exército que, ao que parece, não nutria especial simpatia pela causa republicana à qual o filho iria aderir ainda adolescente. Era, sim, um apreciador de música, o que poderá ter influenciado a vocação da irmã de Lúcio, Conceição, que frequentou o Conservatório de Lisboa, esteve como bolseira na Bélgica e, regressada a Portugal, "exerceu actividade como pianista". Conceição veio a casar-se com o célebre médico Francisco Pulido Valente, já então amigo do seu irmão, com quem participara na greve académica de 1907, que abalara o governo de João Franco.

O casal teve cinco filhos, entre os quais se  contam o engenheiro Fernando Pulido Valente, o arquitecto José Pulido Valente, conhecido pela persistente luta legal que vem travando para que um centro comercial do Porto, construído irregularmente, seja demolido, e Maria Helena Pulido Valente, mãe do historiador Vasco Pulido Valente.

Pinheiro dos Santos manteria sempre uma forte ligação a este seu cunhado. Nas vésperas da sua morte, gravemente doente no Brasil, é a ele que escreve a pedir aconselhamento médico e a ponderar um regresso a Portugal, que acabaria por já não se concretizar.

O encontro com Bachelard

Mas regressemos ao jovem estudante que vive, em Lisboa, os últimos anos da monarquia. Uma fotografia de 1908, que o livro de Baptista reproduz, mostra Pinheiro dos Santos entre Camilo Pessanha e Luís Amaro, o homem que fez chegar a Fernando Pessoa os poemas do futuro autor de "Clepsidra".

Enquanto estudava matemática e física na Escola Politécnica de Lisboa, Pinheiro dos Santos contribuía para a propaganda republicana, e terá mesmo estado directamente envolvido no 5 de Outubro de 1910. Já sob o novo regime, recebe, em 1912, uma bolsa para prosseguir os seus estudos de matemática em Mons, na Bélgica, e na Sorbonne, em Paris. Mas todas as sextas-feiras está entre os alunos que assistem, no Collège de France, às aulas de Bergson, frequentadas, entre outros, pelos poetas T. S. Eliot e Antonio Machado, e também por Bachelard, que decerto conheceu Pinheiro dos Santos nesta altura.

Com o início da I Guerra, regressa a Lisboa e é nomeado professor numa secção do Liceu Central Passos Manuel, que em breve se tornaria um liceu autónomo: o Gil Vicente. Leonardo Coimbra é o bibliotecário da escola, a cujo corpo docente se junta, em 1917, Newton de Macedo. Pinheiro dos Santos dirá mais tarde que Leonardo "foi o primeiro a compreender, por volta de 1916, a significação filosófica dos primeiros trabalhos de Ritmanálise". 

Terá sido neste mesmo ano de 1916 que se apaixonou por uma mulher nove anos mais velha, Maria Correia da Costa, então casada com o portuense António Serpa Pinto e mãe de duas filhas. Lúcio e Maria terão fugido para o Brasil, à boa maneira dos romances oitocentistas, em Dezembro de 1917. Mas o casal - que nunca o terá sido a título formal - regressa a Portugal em 1919, quando Leonardo Coimbra chega, pela primeira vez, a ministro da Instrução e nomeia Pinheiro dos Santos e Newton de Macedo para a Faculdade de Letras de Coimbra, atribuindo-lhes a missão de reformar os estudos filosóficos. Como nenhum deles tinha currículo académico na área, as nomeações foram violentamente contestadas. Leonardo acaba por colocar os dois amigos na Faculdade de Letras do Porto, que acabara de criar, mas Pinheiro dos Santos, agastado com a transferência, que via como uma condenável solução de compromisso, nunca terá chegado a exercer o cargo.

Nesses anos, dedicar-se-á activamente à política, tendo sido por duas vezes eleito deputado nas listas do Partido Republicano Português. Em 1923, vai em comissão de serviço para Goa, tendo sendo detido, em Agosto de 1926, por se ter oposto a uma sublevação militar. Baptista admite que a dita sublevação possa ter sido "o 28 de Maio a instalar-se nos confins do Império com dois meses de atraso".

O suposto eclipse

Em Dezembro de 1916, regressa a Portugal e assume a cadeira de Psicologia na Faculdade de Letras do Porto, mas logo a 27 de Janeiro do ano seguinte ausenta-se do serviço, pretextando doença. Dado estar-se nas vésperas da revolta de 3 de Fevereiro, a primeira grande tentativa de derrube da recém-implantada ditadura, Baptista não exclui que Pinheiro dos Santos tenha "metido baixa para fazer a revolução". O certo, conclui, é que, derrotada a intentona, o pensador voltou a partir para o Brasil, e, desta vez, para nunca mais regressar.

Até à sua morte, em 1950, irá ser professor do ensino livre. Um dos méritos do livro de Pedro Baptista foi ter investigado este período, que aparentemente correspondia a um completo eclipse do pensador enquanto figura pública. A verdade é que não foi bem assim.

Os documentos que Baptista descobriu no Brasil (e que transcreveu na íntegra, como apêndices ao seu livro), mostram que Pinheiro dos Santos prosseguiu os seus estudos de Ritmanálise, escreveu e divulgou textos relevantes, foi entrevistado pelos jornais, conviveu com os grandes intelectuais e artistas brasileiros da época, e manteve-se durante anos como figura central da oposição ao salazarismo nos círculos da emigração portuguesa. O próprio Franco Nogueira lhe confere este estatuto na sua biografia de Salazar, acusando-o de se "multiplicar em panfletos anti-salazaristas" e de "dirigir apelos as partidos socialistas e círculos intelectuais da Grã-Bretanha, Estados Unidos, União Soviética, América Latina, França, Nações Unidas".

Salvo no final da vida, quando estava a morrer de um enfisema e admitiu regressar a Portugal com a mulher, Pinheiro dos Santos só terá ponderado deixar o Brasil no início da II Guerra. Em 1939, numa carta à irmã, escreve: "com estes 50 [anos] que já cá cantam (e cantam ainda), ofereci-me ao Ministro da Instrução de França, por intermédio do filósofo francês Gaston Bachelard (...); e se a guerra durar muito, é provável que ainda vá até uma universidade francesa".

Hipótese plausível ou piedosa ilusão, não se sabe. Em todo o caso, como lembra Baptista, o projecto dificilmente se poderia ter concretizado, já que, em Julho de 1940, os alemães entravam em Paris.