Sherwood Anderson trocou as tintas de parede pela tinta permanente

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Quando num fim de tarde de Novembro de 1912, o presidente da Anderson Manufacturing Co., o respeitado e exemplar cidadão Sherwood Anderson (1876-1941), desandou sorrateiramente do escritório da sua própria fábrica de tintas em Elyria, Ohio, sem dar cavaco a ninguém - foi encontrado quatro dias depois nos arrabaldes de Cleveland, tropeçando de exaustão e afásico - parecia estar a ensaiar a dramatização de um (in)esperado gesto de revolta de uma das suas futuras personagens, almas insatisfeitas e desassossegadas que parecem viver sempre no limite do conformismo e da sanidade mental. Os meses que se seguiram mostraram que aquele executivo de sucesso não estava a representar. (Como diria o jovem George Willard, uma das personagens que enche as histórias de "Winesburg, Ohio" nos queixumes da sua voz mansa: "Só quero ir-me embora, ver gente e pensar.") Sherwood Anderson depressa se mudou para Chicago - onde já fora, anos antes, um publicitário de sucesso -, deixando para trás o próspero negócio das tintas, arranjou um modesto emprego de revisor numa empresa de consultoria, e passou a visitar a mulher e os três filhos pequenos ao final das semanas. Mas agora, no quarto que alugara numa pensão, poderia finalmente fazer aquilo que sempre quis: escrever ficção; a mãe despertara nele o desejo de "ver o que se esconde sob a superfície das vidas".

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Quando num fim de tarde de Novembro de 1912, o presidente da Anderson Manufacturing Co., o respeitado e exemplar cidadão Sherwood Anderson (1876-1941), desandou sorrateiramente do escritório da sua própria fábrica de tintas em Elyria, Ohio, sem dar cavaco a ninguém - foi encontrado quatro dias depois nos arrabaldes de Cleveland, tropeçando de exaustão e afásico - parecia estar a ensaiar a dramatização de um (in)esperado gesto de revolta de uma das suas futuras personagens, almas insatisfeitas e desassossegadas que parecem viver sempre no limite do conformismo e da sanidade mental. Os meses que se seguiram mostraram que aquele executivo de sucesso não estava a representar. (Como diria o jovem George Willard, uma das personagens que enche as histórias de "Winesburg, Ohio" nos queixumes da sua voz mansa: "Só quero ir-me embora, ver gente e pensar.") Sherwood Anderson depressa se mudou para Chicago - onde já fora, anos antes, um publicitário de sucesso -, deixando para trás o próspero negócio das tintas, arranjou um modesto emprego de revisor numa empresa de consultoria, e passou a visitar a mulher e os três filhos pequenos ao final das semanas. Mas agora, no quarto que alugara numa pensão, poderia finalmente fazer aquilo que sempre quis: escrever ficção; a mãe despertara nele o desejo de "ver o que se esconde sob a superfície das vidas".

Sherwood Anderson nascera numa família pobre e numerosa num lugar perdido no imenso Ohio. Cedo abandonou a escola para se dedicar a vários trabalhos que lhe permitissem ajudar a família (o número de empregos que manteve parece justificar a alcunha que lhe foi então dada, "Jobby"). Durante dois anos faz trabalhos pesados em Chicago e em 1900 alista-se no exército. Decorre a Guerra Hispano-Americana e ele é enviado para Cuba, onde, contudo, não chega a participar em nenhuma acção bélica. Regressa ao continente e trabalha como publicitário em Chicago. Casa-se com uma herdeira abastada e inicia actividade na indústria das tintas, conseguindo criar a sua própria companhia e construir duas fábricas. Tem três filhos e inicia alguns estudos universitários que não chega nunca a terminar.

Winesburg, Ohio

Depois do seu lendário abandono da indústria tintureira, começa a frequentar os meios literários de Chicago. Passados anos a viver na grande cidade, divorcia-se e torna-se a casar, desta vez com a ex-mulher de um dos escritores que mais o influencia, Edgar Lee Masters. Em 1916, publica o seu primeiro romance, "Windy McPhersons Son", e no ano seguinte outro, "Marching Men". Mas é em 1919, com a colectânea de histórias "Winesburg, Ohio" (não é um romance canónico, apesar da linha narrativa seguir a vida do jovem George Willard), que o seu nome atinge o reconhecimento de críticos e leitores. Ao longo das 21 histórias, Sherwood Anderson traça um retrato vivo de um pequeno lugar ficcional do Ohio profundo, Winesburg (inspirado no lugar em que ele cresceu, Clyde, Ohio). São histórias de uma América que vive ainda à luz do candeeiro a petróleo, de uma América rural de carretas puxadas por cavalos, do Midwest das enormes propriedades agrícolas dos sucessores e herdeiros dos primeiros colonos, histórias de mulheres e de homens que "trabalhavam duramente o dia inteiro nos campos, comiam até fartar uma comida pesada e gordurosa, e à noite dormiam como animais cansados em camas de palha. Nas suas vidas pouco havia que não fosse grosseiro e brutal e o aspecto deles era também grosseiro e brutal."

Sherwood Anderson é sobretudo um cronista das vidas humildes, mas que ele eleva (à semelhança das personagens de Gertrude Stein, como nota Updike) a uma singular dignidade. Ele é o cronista talentoso de uma sociedade fechada, ansiosa e calada, que se exprime em silêncios, fantasmática e onírica, feita de murmúrios por trás das janelas, de paixões frustradas soluçadas em balbucios, de "impulsos petrificados", de aldeias de um protestantismo conformista e rotineiro que parece atrair continuamente o perigo da loucura. Ele é testemunha de gente muito dada a acessos de fúria, de gritos que são abafados por uma tristeza mansa, de uma solidão que se derrama por aquele mundo primevo de maneira uniforme e que parece brotar do chão de pó das casas, de uma solidão em que o diálogo mais não é do que uma sofrida adição de monólogos (nisto muito à maneira dos velhos autores nórdicos). Ele é o relator de personagens que parecem estar sempre à beira de uma inexprimível revelação pessoal, e que quando calha fazerem-no é apenas numa espécie de urro animal: "Não eram de palavra fácil e por isso a maior parte do tempo mantinham-se calados. Depois de comprarem carne, farinha, açúcar e sal iam até um dos bares de Winesburg e bebiam cerveja. Sob a influência da bebida os fortes apetites da sua natureza, reprimidos pelo heróico labor de desbravar novas terras, desatavam-se. Apoderava-se deles uma espécie de ardor cru, poético e como que animal. A caminho de casa punham-se de pé nos assentos da carreta e berravam às estrelas."

Mas o que melhor caracteriza a prosa singular de Sherwood Anderson - sobretudo as histórias de "Winesburg, Ohio" - é a propositada libertação de algum artifício estilístico em busca de uma nova naturalidade da escrita, muito perto da ingenuidade do tradicional contador de histórias: o seu estilo é seco, simples, "tacteante, despretensioso e esforçado" (como refere John Updike no brilhante posfácio à edição portuguesa), com uma desafectação da própria pontuação (sobretudo das vírgulas - como bem nota na introdução o autor da cuidada tradução, José Lima), o que serve para reforçar a eficácia do que tem que ser dito, como neste exemplo: "Durante um ano trabalhou todos os dias do nascer do sol até à noite e depois de dar à luz uma criança morreu."

Em "Winesburg, Ohio", Anderson consegue edificar uma espécie de território mítico, de lugar de "quando o mundo era novo", de cenário que por vezes se confunde com os cenários bíblicos: "O espírito de Jesse volvia-se para os homens do Antigo Testamento que também haviam possuído terras e rebanhos. Lembrou-se de como Deus descera dos céus e falara com esses homens e desejava que Deus o visse e lhe falasse também." É por isso que uma das personagens, o jovem David Bentley, foge de Winesburg para sempre, aterrorizado pela ideia de o avô, Jesse Bentley, querer imitar a oferenda do sacrifício de Isaac feita por Abraão.

Sherwood Anderson escreveu mais de duas dezenas de livros, mas nenhum atingiu a importância que "Winesburg, Ohio" mantém intacta quase um século depois de ter sido publicado.

Hemingway e Faulkner

Quando em 1921, em Chicago, o então jovem pretendente a escritor Ernest Hemingway se casa pela primeira vez, Sherwood Anderson é um dos convidados para a boda. Mais tarde, quando Hemingway vai atrás do seu sonho literário para Paris, ele escreve-lhe uma carta de recomendação que lhe dá entrada nos círculos literários de Montparnasse frequentados pela americana Gertrude Stein, então verdadeira estrela literária. Anos depois, a amizade entre Hemingway e Anderson acabará por desaparecer devido a alguns textos "mal-agradecidos" do autor de "O Adeus às Armas", apesar de ter publicado o primeiro livro por esforços de Anderson.

Depois de mais um divórcio e um casamento, em 1924 Sherwood Anderson está a viver em Nova Orleães. É lá que numa tarde de muita chuva recebe em casa um jovem poeta, William Faulkner, que por essa altura também fazia ilustrações para uma revista. (Aqui as fontes divergem, há os que defendem a ideia de que Faulkner chegou a viver em casa de Anderson durante algum tempo, e os que dizem que não). O que se sabe é a história que Sherwood Anderson deixou escrita nas suas "Memoirs" (1942): que nessa primeira tarde em que Faulkner o visitou, ele pensou que o "poeta" fosse deformado fisicamente, pois estava coberto por um longo casaco onde estranhamente pareciam sobressair alguns ossos; soube depois, quando Faulkner se despediu e lhe pediu se ali podia deixar as coisas que tinha trazido da terra, que aquelas "deformações" eram apenas uma dúzia de garrafas de aguardente que enchiam os bolsos e o entre forro do sobretudo. Sherwood Anderson disse a Faulkner que deveria deixar a poesia e dedicar-se à prosa, e escrever sobre a sua região, que se o fizesse ele o ajudaria a publicar o primeiro livro. É assim que o Mississipi entra na literatura de um dos maiores autores do século XX.

(Mais recentemente, no romance "Indignação" (2009), Philip Roth, em jeito de deferência, situa grande parte da sua história exactamente no lugar de Winesburg, Ohio; referindo-se ao hotel como a "New Willard House".)

Sherwood Anderson morreu em 1941, a bordo de um navio de cruzeiro com rumo à América do Sul, depois de ter engolido um palito de três polegadas com uma azeitona de um dos seus muitos "Martini".