João Coração
Vagabundo de pantufas

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João Coração é uma personagem: da barba ao casaco, passando pela lentidão com que fala, parece um irmão desavindo de D. Duarte que renegou o sangue azul e foi pela estrada fora a ver se o substituía por outro, de tom mais encarnado. Ele gosta da cor, em particular se for vermelho tinto, de vinho: "Adoro vinho", dizia ao Ípsilon quando nos sentámos à conversa, no Chiado, Lisboa. Andava em filmagens para o vídeo de "Dobra", tema do álbum "Nº 1. Sessão de Cezimbra". "Não há grande conceito", diz com bonomia, "excepto uma ideia de cor". Podem imaginar de que cor ele está a falar.

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João Coração é uma personagem: da barba ao casaco, passando pela lentidão com que fala, parece um irmão desavindo de D. Duarte que renegou o sangue azul e foi pela estrada fora a ver se o substituía por outro, de tom mais encarnado. Ele gosta da cor, em particular se for vermelho tinto, de vinho: "Adoro vinho", dizia ao Ípsilon quando nos sentámos à conversa, no Chiado, Lisboa. Andava em filmagens para o vídeo de "Dobra", tema do álbum "Nº 1. Sessão de Cezimbra". "Não há grande conceito", diz com bonomia, "excepto uma ideia de cor". Podem imaginar de que cor ele está a falar.

O vinho faz parte da vida de Coração. Faz rótulos, sites, expositores, "stands" e tem o sonho de "desenhar uma adega". A música tem esse tom de quem gosta de um pouco de álcool a mais - também evoca ambientes de fumo mas ele nunca fumou. "Nunca dei uma passa. Nem num cigarro nem num charro. Não gosto do cheiro do charro". Este é um romântico estranho, que era suposto ter sido arquitecto e desistiu para estudar cinema. Um andarilho fora do comum que foi do Restelo para Aveiro para o Porto e de volta para Lisboa, mas nunca de mochila às costas. Um romântico andarilho burguês. Um vagabundo existencial de pantufas com preguiça de fazer a barba.

Tão preguiçoso que até há um ano nunca tinha composto uma canção do princípio ao fim. Depois houve uma epifania. "Um dia estava sentado e veio-me uma canção". Foi tão simples quanto isto. "Estava com a viola a tocar por cima de uma canção que estava a ouvir e veio-me uma canção. Nunca mais parei: escrevi 50 ou 60 em três meses".

Até aí "tinha instrumentos, fazia músicas, brincava aos falsetes, mas nunca tinha feito uma canção". Antes tinha, por uma vez, conseguido "acabar uma ideia musical", mas até essa parece desenquadrada: tinha criado "bandas-sonoras imaginárias para filmes que não existiam", ideia que não é original, só que fê-las no projecto de final de curso da Escola de Cinema - ou seja, onde é suposto fazer-se algo relativo ao cinema e não à música. O cinema, entretanto, também ficou de parte porque João não quer "ser técnico ou ter de, por força, fazer filmes adaptados ao circuito comercial" só para fazer cinema. "Não quero viver do cinema - quero que o que faça no cinema ou na música seja uma expressão minha". Entretanto escreveu uma longa que está determinado a realizar.

De volta ao disco que apareceu por epifania: "O tempo que aquelas canções demoraram a ser feitas é o tempo que as canções têm." Ao contrário do que se pudesse esperar, não há uma palavra que tenha sido trabalhada até à exaustão: João diz ter respeitado "a forma bruta como elas me vieram a primeira vez. Andava com o mini-disc e quando a canção vinha punha o mini-disc a gravar".

Quando convenceu Tiago Guillul e comparsas a fazer o disco com ele, fez-lhes uma "proposta indecente: eles não conheciam nenhuma música - a ideia era eles não terem nada pensado, nem nada para pensar".

Levou-os para casa da mulher em Sesimbra, encheu a casa de instrumentos: "Tinha jogos de sinos, um Rhodes, piano eléctrico, braguesas. Eu pegava na viola e cada um pegava no instrumento que queria e fazia o que queria". Se o disco, "Nº 1. Sessão de Cezimbra", está pejado das mais inusitadas combinações de instrumentos é porque João é um coleccionador: "Por vezes vejo um instrumento que gosto e sou capaz de rebentar o dinheiro a comprá-lo. E depois fico sem dinheiro nenhum". O que só lhe fica bem.

Quando a banda "começava a compreender a música", João "punha a gravar - e depois fazíamos no máximo três versões. Nunca ficou nada 'acabado'". O resultado é um disco em que canção sim canção sim o tema é a mulher. "Às vezes uso a mulher para falar de outras coisas", corrige, de forma molenga mas firme. Complementa: "Este disco é muito romântico". Para que fique claro: "Mais no sentido negro, do que no sentido de um homem e de uma mulher".

Fiquem a saber que o disco está pronto há muito. "Estava para sair em Março - mas estava demasiado calor".