"A Falha": Portugal ao fundo

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O filme foi feito, diz João Mário Grilo, "sem referências" DR

Numa pedreira, algures no Alentejo, uma reunião de antigos colegas do liceu dá para o torto. O reencontro, tenso, serve mais para aferir tudo o que os separa do que aquilo que ainda os aproxima - o passado já se tornou um mito, e se calhar é só por essa razão que ainda é acarinhado. As personagens ficam presas na pedreira, depois do desabamento de uma enorme rocha. Esse é um tempo de caos, suspensão de regras e reinvenção da ordem, de apagamentos ou exacerbamentos de personalidade.

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Numa pedreira, algures no Alentejo, uma reunião de antigos colegas do liceu dá para o torto. O reencontro, tenso, serve mais para aferir tudo o que os separa do que aquilo que ainda os aproxima - o passado já se tornou um mito, e se calhar é só por essa razão que ainda é acarinhado. As personagens ficam presas na pedreira, depois do desabamento de uma enorme rocha. Esse é um tempo de caos, suspensão de regras e reinvenção da ordem, de apagamentos ou exacerbamentos de personalidade.

Num filme feito, diz João Mário Grilo, "sem referências", a evocação dos filmes de náufragos de Buñuel (de "Anjo Exterminador", "Robinson Crusoe" e vários outros) é a única a que ele aquiesce (e ainda falará, durante a conversa, de "Simão do Deserto", do mesmo realizadoor). O filme segue as personagens, gente que o tempo tornou muito diferente umas das outras (tendo-se vincado, sobretudo, as marcas de classe), em duas direcções: os acontecimentos que conduziram à "falha", por um lado, e por outro o regresso dela, através dos depoimentos televisivos dos vários intervenientes gravados para um programa sobre o sucedido - explicações, justificações, interpretações, mas sobretudo, por entre o que se diz e o que se esconde, um reajuste, para que seja possível continuar a viver depois do contacto com "a falha".

prisões.

"A Falha" é um filme feito numa espécie de ajuste de contas geracional, sobre aqueles que andavam à roda dos 15/20 anos na altura do 25 de Abril de 1974. O realizador, que pertence a essa faixa etária, diz-se "muito crítico" da sua geração.

"Portugal não é hoje o país que essa época anunciava que podia vir a ser. Era uma sensação extraordinária, um país que estava imobilizado há anos começar de repente a mover-se a 200 à hora". Estar lá, nesse movimento, era como "deslizar".

Depois veio o embate. Politicamente, Grilo situa-o no 25 de Novembro. Socialmente, a data simboliza, para o cineasta, "o triunfo dos pais", o início da reconversão dos filhos (a sua geração) ao "bom comportamento". A "falha", no fundo, foi aquilo em que esse tempo de "deslizamento" se tornou - quase em sentido psicanalítico. E "A Falha", o filme, evoca menos um tempo histórico do que o que acontece quando ele é reavivado, quando se remexe nesse "buraco". Aí, o filme leva a metáfora à letra, e funde o "buraco" com a pedreira, com o tempo, e com a memória/amnésia dele.

Um filme feito para um público-alvo etariamente específico? João Mário Grilo admite que o filme coloque "alguns problemas de relação" ao espectador, mas não necessariamente só por esse motivo. E o que responde a quem ainda não é dessa geração tem um tom de ameaça: "Quem não é desta geração vai ser. É uma questão de tempo e o filme está à espera deles". É capaz de ser verdade, toda a gente tem as suas "falhas" privadas, em última análise "A Falha" é sobre o confronto, sobre o tactear de alguma coisa que de repente aparece em estado sólido, e sobre o incómodo desse toque.

É João Mário Grilo quem lembra que nunca deixou de filmar "cárceres", ambientes e estruturas prisionais. Há um lado determinista e determinado em "A Falha", que reproduz uma estrutura desse tipo (muito para além das cenas de efectivo enclausuramento na pedreira). Nas linhas sobrepostas do filme, tudo tende e tudo parte, em simultâneo, dos acontecimentos na pedreira, é uma espécie de "dobra" que contém e conduz as personagens, todas elas, insiste o realizador, "indelevelmente marcadas pelo que sucedeu", todas transportando a "falha" dentro de si.

instalação.

O cineasta acede a falar numa "falha" de outro tipo. Aquela que "A Falha" introduz, ou corporiza, no seu próprio cinema. Fala de um filme nascido do cansaço: "são nove filmes, mas sobretudo são vinte anos". Cansaço que tem razões teóricas e práticas, que se cristalizam numa espécie de desabafo quando o realizador assume que o que lhe apetecia ter com feito com "A Falha" não era "um filme, mas antes uma instalação".

Mostra uma fotografia da casa serrada ao meio do artista norte-americano Gordon Matta-Clark, referindo que pelo menos em parte, "a ideia do filme veio deste objecto". Evoca a sua crescente admiração pelo trabalho da belga Chantal Akerman, pela sua circulação entre o cinema e as artes plásticas e conceptuais. De algum modo, esse desejo tem alguns ecos no filme - questões estruturais à parte, e pondo de lado a própria "instalação" montada na pedreira, talvez esteja na maneira como são tratados os depoimentos em vídeo das personagens (espécie de "peças soltas" dentro do filme, que, diz o cineasta, durante a montagem "andaram a flutuar por diversas partes do filme), mas sobretudo pela maneira como através deles se cria um mecanismo de observação, um ponto de vista para dentro do filme que cria a sua própria perspectiva. Não é nada inocente a auto-figuração de João Mário Grilo (é o homem que segura a "perche" na gravação do depoimento da personagem de Alexandra Lencastre), que evoca directamente o plano de "O Processo do Rei" em que o realizador se deixava ver como escrivão - "duas figurações muito especiais", admite Grilo.

Mas "A Falha" não é uma instalação, e até carrega o peso de ser a adaptação de um romance. "Disse ao Luís Carmelo [o autor do livro] que me interessava menos adaptar do que combater o livro, confrontar-me com ele, nesse sentido sou um mau adaptador". O mesmo para o argumento: "filma-se sempre contra o argumento, é sempre um embate". Observação que o leva a afirmar que "se chegou ao final do século XX com uma concepção da ficção mais pobre e redutora do que a que existia no princípio do século".

"Até percebo porque é que os tipos dos 'Cahiers' [du Cinema] acham tanta graça ao 'Big Brother': aquilo em si mesmo não é telenovela nenhuma, a telenovela é feita depois pelas televisões e pela imprensa".

Talvez entender "A Falha" como um laboratório ficcional seja uma maneira de superar, e eventualmente de subalternizar, o que ainda parece ser, digamos, um excesso de cinema, algum lastro deixado pelas convenções do "fazer cinema". Grilo admite: "Se calhar até estou de acordo com essa ideia, se calhar ainda há coisas a mais no filme. Mas fui até onde fui capaz neste momento". Aponta a via solitária de Pedro Costa, que é o que é porque está "completamente sozinho, com alguém ao lado aquilo já não funciona".

"A Falha", conclui, "é um que filme que pede respostas como nenhum outro que eu tenha feito". Eventualmente, sugerimos nós, a resposta mais importante talvez seja a que João Mário Grilo der, com outros filmes que entrem pela "falha" aberta por este. O futuro o dirá, mas é possível que "A Falha" valha menos pelo que é mas por aquilo que permite.