Ao som de Lisboa

É e não é um livro. Domingos Cruz, autor do texto e editor, prefere chamar-lhe “projecto”; Francisca Ramalho, a ilustradora, “objecto”. Ao Som de Lisboa junta palavras (em português e inglês), ilustrações e música (de Armando Teixeira; voz de Liliana Carvalho).

A história: Pedro está em Lisboa, com os headphones postos e por isso “ausente” dos sons da cidade. Vem uma sereia e rouba-lhe os headphones. O rapaz parte então à descoberta do que nunca tinha escutado. Vai ouvir uma voz doce que canta, um contrabaixo, uma guitarra, um xilofone. Ele e os leitores, que em cada página encontram um botão para premir e assim também ficarem a conhecer os sons da capital. Pelo caminho, Pedro conhece Rita, apaixona-se, mas perde-a de vista.

Não ficamos a saber se o rapaz recupera os headphones, mas fica-nos o desejo de que não, para que continue a desfrutar dos sons inesperados que a cidade revela “entre a luz e o mar”. Ficamos a saber, isso sim, que vai continuar à procura da Rita.

Os autores leram Ao Som de Lisboa em voz alta e nas duas línguas (português e inglês) no estúdio do PÚBLICO. Este é mais um vídeo integrado no projecto Livros para Escutar do blogue Letra pequena.


De livraria ambulante a editora
Domingos Cruz é um advogado que sempre teve paixão por literatura. “Eu queria ter uma livraria”, diz ao PÚBLICO. “Mas percebi que uma livraria é absolutamente inviável do ponto de vista económico em Lisboa.” Até que, um dia, na China, viu alguém a vender livros num carrinho de frutas. “Aí, caiu a ficha”, recorda.

Em 2012/2013, pensou em fazer uma livraria ambulante. “Encontrei uma carrinha de 1972, que foi adaptada, e o processo evoluiu.” Nascia a Tell a Story, a carrinha que vende livros em Lisboa de autores portugueses traduzidos noutras línguas. “A ideia de traduzir autores portugueses para línguas estrangeiras, que foi a ideia inicial, nasceu de quando vivi fora, pela grande frustração de não conseguir explicar os Maias aos meus amigos: chilenos, americanos, espanhóis...”, conta. Então pensou: “E se eu vendesse em Lisboa ‘livros ao contrário’, sobre Portugal e literatura portuguesa para os turistas?” Testou e resultou.

Depois integrou verticalmente o negócio, tornando-se também editor, com duas vertentes: editar autores menos conhecidos traduzidos para inglês ou autores muito conhecidos cujos direitos já tinham caído em uso público. Editou então dois livros de Fernando Pessoa, Lisbon Disquiet, “que é só sobre as passagens de Lisboa que estão no Livro do Desassossego”, e um de poemas que Pessoa escreveu directamente em inglês, com um poema original, e ainda um livro de Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja.

Faltava-lhe o segmento infanto-juvenil. “Sempre tive a ideia de um livro para crianças, porque tenho filhas e porque acho que a literatura para crianças é muito pouco sensorial.” Um dos vendedores da livraria ambulante sugeriu-lhe a ilustradora Francisca Ramalho.

 

Colaboração à distância
Via Skype, editor e ilustradora falam do projecto Ao Som de Lisboa. “Houve uma abordagem superconfiante”, diz Francisca Ramalho ao PÚBLICO, recordando o que Domingos lhe disse na altura: “Dou-te livre crédito para fazeres aquilo que podes fazer melhor do que eu.” E diz que o trabalho lhe surgiu com naturalidade: “Lisboa sempre foi para mim um cenário cheio de histórias e de vivências: da minha família, da minha alegria, da minha formação. Saiu-me muito naturalmente.”

A primeira maquete foi imediatamente aceite. “A história era muito engraçada e a correspondência com os desenhos funcionava. E, mais do que isso, os instrumentos, a terceira camada que foi sobreposta, funcionou na perfeição também. Foi um processo colaborativo que encaixou mesmo bem”, diz satisfeito Domingos Cruz.

“Tínhamos pouco tempo e isso não nos deu espaço para divagar. Se começasse a pensar numa estratégia infalível, talvez caísse numa coisa megalómana. Aqui, a receita foi usar aquilo que somos”, descreve a ilustradora.

Os três (autor do texto, ilustradora e músico) só se conheceram pessoalmente no dia em que testaram o livro. Foi tudo feito à distância. “O Armando no estúdio a enviar clips, a Francisca a enviar maquetes, eu a desenvolver a letra para encaixar nisto tudo”, recorda o editor, que só conhecia Armando Teixeira do projecto musical Balla. “Um dia, fomos os três ao meu escritório testar o livro e carregar no botão.” Funcionou.

E afinal o Pedro recupera ou não os phones? “Não. Os miúdos, com os gadgets todos que têm, entretêm-se tanto sozinhos que eu acho que é um desafio giro as pessoas saberem estar apenas, sem terem de estar a fazer alguma coisa, entregarem-se ao acaso. E Lisboa é uma cidade com tanta coisa a acontecer. É curiosa só por si. O desafio é esse: ele não encontra os headphones outra vez”, responde Francisca.

“Mas encontra a Rita, que não encontraria se tivesse os headphones”, lembra Domingos. “Ele encontra-se, no fundo”, conclui a ilustradora. Ao que o editor acrescenta: “E descobre Lisboa.”

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