O dia em que se escreveu história no Brinco de Ouro da Princesa

Ninguém acreditava, mas o Guarani obteve há 35 anos um feito memorável, que colocou o interior no mapa do futebol brasileiro.

Brinco de Ouro da Princesa é um nome espectacular para um estádio de futebol. A história conta que a denominação foi inspirada por um jornalista do Correio Popular, jornal de Campinas, onde se situa o recinto. A forma circular do estádio lembrou o jornalista João Caetano Monteiro Filho de um brinco. E como Campinas é conhecida por “Princesa d’Oeste”, foi um pequeno passo até achar o título: “Brinco de ouro para a ‘princesa’”. O nome Brinco de Ouro da Princesa ganhou raízes entre a população e ficou para a posteridade.

O Brinco de Ouro da Princesa é um estádio importante na história do futebol brasileiro. Foi lá que, há 35 anos, o Guarani escreveu um capítulo tão memorável quanto inesperado. Contra todos os prognósticos, uma equipa na qual ninguém acreditava sagrou-se campeã do Brasil. O Guarani continua a ser a única equipa de uma cidade interior – ou seja, que não é a capital estadual nem as cidades adjacentes a ela (áreas metropolitanas) – a conquistar o ceptro de campeão brasileiro. Hoje debate-se com sérias dificuldades financeiras e disputa a Série C (terceiro escalão do futebol brasileiro).

Liderado por um treinador desconhecido de 38 anos, de seu nome Carlos Alberto Silva (técnico cuja carreira passaria por Portugal, no FC Porto e Santa Clara, para além dos maiores clubes brasileiros e a selecção canarinha), o Guarani encantou o Brasil. Uma das estrelas mais brilhantes da equipa campeã em 1978 era um adolescente de 17 anos, chamado Antonio de Oliveira Filho que ficou na história como Careca. Vestiu a camisola da selecção brasileira nos Mundiais de 1986 e 1990 e jogaria ao lado de Diego Maradona no Nápoles.

Numa altura de convulsão no futebol brasileiro, o campeonato de 1978 não fugiu à regra da confusão: 74 equipas (divididas por seis grupos) disputaram a primeira fase do torneio. Com algumas regras bizarras, como aquela que dava três pontos às equipas que vencessem por três ou mais golos de diferença, mas apenas dois a quem ganhasse só por um ou dois golos de diferença.

A caminhada do Guarani até começou mal, com uma derrota em casa (1-3), frente ao poderoso Vasco da Gama. Mas as coisas foram correndo bem: a equipa de Carlos Alberto Silva ultrapassou a primeira fase, a segunda e a terceira. Nos quartos-de-final não deu hipóteses ao Sport de Recife (2-0 e 4-0). Seguiu-se um reencontro com o Vasco da Gama. Mas o Guarani já era uma equipa diferente: na primeira mão ganhou 2-0 em casa, e na visita ao Maracanã não se intimidou. Um “bis” de Zenon garantiu o triunfo por 2-1 e calou o Maracanã. O Guarani estava na final do campeonato.

O Palmeiras (em cujo currículo havia seis títulos de campeão) era o adversário da equipa de quem se dizia que “jogava por música”. Primeiro o Guarani jogou fora: 343 autocarros saíram de Campinas rumo a São Paulo, para apoiar Careca e companhia. E o adolescente foi decisivo – provocou o guarda-redes Leão, que lhe tentou dar uma cotovelada e acabou expulso. Zenon não desperdiçou o penálti.

Foi essa curta vantagem que o Guarani levou para o Brinco de Ouro da Princesa, onde se decidiu o campeonato. Os adeptos saudaram a subida da equipa ao relvado com bandeiras e foguetes. Careca, como se não fosse nada, brilhou: antes do intervalo fez o 1-0, e na segunda parte quase marcava um golo brilhante, de calcanhar. Não importa, o Guarani fez a festa.

Osmar Santos, histórico locutor desportivo brasileiro, disse palavras históricas: “Vai terminar o jogo! (...) [É uma resposta] à falta de liberdade, de liberdade no drible, de liberdade no toque, de liberdade no jeito à brasileira. O jogador brasileiro, como o povo, precisa da liberdade para jogar, para se expressar, para se comunicar. O Guarani dá demonstração da necessidade dessa liberdade”. Isto num Brasil em plena ditadura militar.

No dia seguinte, em Campinas, viveu-se uma espécie de dia feriado. Uma multidão juntou-se no centro da cidade para receber autógrafos. A ditadura militar só cairia em 1985.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias e campeonatos de futebol periféricos

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