Implantes e aparelhos: os cães e os gatos também precisam de ir ao dentista

A Clínica Veterinária da Boa Nova, em Leça da Palmeira, ocupa-se da saúde oral de cães e gatos. Bruno Tavares e Joana Lourenço, os médicos veterinários responsáveis, tratam 1600 casos de ortodontia animal por ano.

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Assim que entramos na sala de espera da Clínica Veterinária da Boa Nova, em Leça da Palmeira, ouvimos falar castelhano. Carla Barreiro e Daniel Rojas vieram da Galiza até ao Norte de Portugal para “uma última tentativa” de proporcionar bem-estar à cadela Petra​, com dez anos. A clínica de Bruno Tavares e Joana Lourenço, especialistas em patologias orais em cães e gatos, foi-lhes recomendada em Espanha, onde a única solução apresentada pelos médicos veterinários era extrair os dentes de Petra. Este casal não é caso único: é comum a presença de estrangeiros na clínica, onde 20% dos animais chegam de Espanha e França, diz o médico veterinário de 36 anos.

Por ano são cerca de 1600 os casos de ortodontia tratados nesta clínica. Filho de estomatologistas, Bruno Tavares conta ao P3 que cresceu em hospitais “de medicina humana”, razão pela qual, depois de se formar em Medicina Veterinária, “não foi difícil” transpor os tratamentos ortodônticos humanos para os animais. “Os materiais são facilmente utilizáveis nos animais, os procedimentos são similares e os preços não estão muito distantes da ortodontia humana”, sublinha.

Por considerar que a saúde dos animais deve receber a mesma atenção do que a das pessoas, Bruno Tavares criou a disciplina de Medicina Estomatológico-Dentária na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, em Lisboa, em Janeiro de 2021. Cinco anos antes, em 2016, abriu a clínica de Leça da Palmeira com Joana Lourenço, que conheceu durante o estágio no Hospital Veterinário Montenegro, no Porto.

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Bruno e Joana abriram a clínica da Boa Nova em 2016, com o intuito de trabalhar a área da estomatologia veterinária. Nelson Garrido

No espaço de Leça da Palmeira há uma sala com um ortopantomógrafo, “o primeiro do país na área da Medicina Veterinária”, que permite fazer um raio-X aos animais de modo a obter-se uma “imagem de todos os dentes e estruturas de suporte, incluindo maxila, mandíbula e seios nasais”. Quem o explica é Joana Lourenço, 34 anos, responsável pelo acompanhamento e tratamento das patologias orais oncológicas. A médica veterinária revela que o surgimento de casos de tumores orais “é tão frequente nos animais quanto nas pessoas”. Como o primeiro passo para o tratamento do tumor é a cirurgia, “obter uma imagem clara do problema através do raio-X é uma mais-valia para se saber de antemão o que é necessário fazer”.

Numa outra sala, o estudo de casa de cada paciente é feito pelo par de médicos veterinários, que tem à disposição todo o historial do animal na clínica. O uso da inteligência artificial no tratamento dos dados dos pacientes é o tema da tese de doutoramento de Joana: a plataforma ajuda à criação de predições automáticas para investigação científica. “A maior parte das clínicas tem isto [organizado] por processos realizados à mão ou por fichas em campo de texto, do qual não é possível retirar informação”, explica Joana.

O terceiro espaço, onde decorre a maioria do trabalho destes médicos, é a sala de cirurgia. Para além dos grandes monitores que a enchem, salta à vista uma cadeira que poderia estar num consultório de dentista — porém, esta é adaptada para receber os animais. “Nos dias de hoje já começa a haver laboratórios na área da veterinária a adaptar os equipamentos para animais”, diz Bruno. Como “os dentes dos animais são geralmente maiores do que os das pessoas, os equipamentos projectados para a medicina humana são os mesmos que se usa nos animais”.

Saúde oral dos animais é “desvalorizada”

Destartarizações, aplicação de implantes ou aparelhos são procedimentos feitos diariamente na clínica, onde também há consultas gerais de Medicina Veterinária. “Antes de muitos tratamentos serem feitos em pessoas, o cão já serviu como modelo experimental para os dentistas, com toda a ética que lhe é devida”, explica Bruno, enquanto procura pôr um aparelho canino para mostrar como exemplo. “Os aparelhos ortodônticos são similares aos aparelhos comummente utilizados nas crianças para expandir o palato.” O tempo de tratamento é a maior diferença entre animais e humanos: num animal é bastante reduzido, visto que “eles aguentam muito mais tensão por terem menos sensibilidade à dor”.

Enquanto Bruno prossegue a explicação, os materiais vão sendo dispostos na mesa de cirurgia para receber Kiko Manuel, um cão jovem, de porte pequeno, que se prepara para uma prova de mordida e dos moldes. Kiko precisa de um aparelho ortodôntico devido a uma alteração da posição natural dos dentes, que faz com que se morda a si mesmo e se magoe, um problema de nascença que só foi possível detectar a partir dos três meses, conta a tutora Odete Freitas, de Vila Nova de Gaia. Falava do assunto à médica veterinária que seguia o cão, mas “desvalorizou-o sempre”.

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Chegaram a dizer-lhe que só nos Estados Unidos e na América do Sul tratariam daquele problema. A descrença no tratamento do problema do animal fez com que Odete voltasse à clínica para que retirassem alguns dentes a Kiko, na tentativa de acabar com o sofrimento do cão. Até que leu uma notícia sobre a clínica da Boa Nova numa rede social. “No mesmo dia liguei para aqui”, recorda Odete. Depois de ser anestesiado, poucos minutos são necessários para que Kiko faça a prova dos moldes, um processo semelhante ao que é feito nas pessoas. Odete tem esperança de que, daqui a quatro meses, a vida do cão tenha mais qualidade.

A próxima a deitar-se na mesa é Petra, a cadela galega. O processo é igual ao de Kiko, só que este não será o primeiro aparelho ortodôntico da cadela, que já é acompanhada pela clínica da Boa Nova há cerca de meio ano. Carla Barreiro e Daniel Rojas, que vêem a ortodontia aplicada à veterinária como algo “revolucionário”, aguardam-na na sala de espera. Quando Petra volta para os braços dos tutores, ainda atordoada pelo efeito da anestesia, é recebida com muitos mimos. Numa hora e meia estarão de volta a casa.

“Nove em cada dez cães têm problemas dentários”

Os custos dos procedimentos dentários “não estão muito distantes da ortodontia humana”, afirma Bruno: uma consulta pode começar nos 30 euros; já um “procedimento básico como uma destartarização ou uma desvitalização pode rondar os 250 e os 350”. No caso da ortodontia, “os valores sobem para os 1200 euros por arcada, que está dentro dos valores cobrados às pessoas”, embora implique sempre um pouco mais “precisamente devido ao procedimento anestésico”.

A maioria das faculdades de Medicina Veterinária já está a querer abranger esta área pela importância que tem na prática clínica. Para já, os profissionais que hoje também fazem Ortodontia Veterinária estão essencialmente alocados a universidades. Bruno também dá aulas aos estudantes de 5.º ano de Medicina Veterinária na Universidade Lusófona, onde ensina Estomatologia e Cirurgia Maxilofacial.

Uma vez que “nove em cada dez cães têm problemas dentários”, sublinha Bruno — número que baixa, se estivermos a falar de gatos —, “as pessoas começam a ter maior cuidado com a boca dos animais, olhando muito para o conforto do animal e evitando ao máximo que ele tenha dor, mesmo numa idade mais avançada”. Mas “os tumores nos animais estão a evoluir muito depressa”, e os orais têm uma agravante. Como a boca é uma área vital do animal, o problema facilmente se pode agravar devido ao facto de este não conseguir comer.

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Este tipo de problemas aparecem “em animais cada vez mais jovens”, nos quais se denota uma incidência muito grande, “similar à incidência humana”, frisa Joana. “Cerca de 20% a 30% dos casos de problemas orais possuem um potencial oncológico. (…) Parece pouco, mas não é. Praticamente todos os dias recebemos animais com tumores orais.”

Texto editado por Ana Maria Henriques