ABBA: viagem à nostalgia

Nasci na década de 90, muito após a febre dos ABBA, mas sou fiel discípulo da banda. Na verdade, os sintetizadores e as letras melancólicas acompanharam o meu percurso de vida.

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BAILLIE WALSH

Há uma magia na transformação do complexo em elementar – e é precisamente isso que o novo álbum dos ABBA, Voyage, nos oferece. Trata-se de uma viagem pelo som dos êxitos do passado combinada com a incerteza de se poder escrever uma ode à liberdade. 

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Há uma magia na transformação do complexo em elementar – e é precisamente isso que o novo álbum dos ABBA, Voyage, nos oferece. Trata-se de uma viagem pelo som dos êxitos do passado combinada com a incerteza de se poder escrever uma ode à liberdade. 

Actualmente, parece reinar a ideia de que uma composição musical de qualidade deve ser elitista, ou seja, apenas entendível pelos críticos de elevada craveira ou por ouvintes capazes de descodificar intrincadas referências. Pelo contrário, ela pode – e deve – relatar experiências mundanas. Afinal, a poesia é um ângulo de observação do quotidiano.

Quem mais, se não os ABBA, tem a credibilidade musical para compor uma melodia dançante sobre a custódia de uma criança (Keep an Eye on Dan)? Quem mais, se não os ABBA, consegue escrever sobre o divórcio com a vulnerabilidade emocional que o fez aquando da separação dos dois casais, nos finais dos anos 70 (The Winner Takes it All) e o repete agora, numa postura mais madura (I Can Be That Woman)? Tudo desagua em Don’t Shut Me Down, absoluto destaque, em que penetramos no olhar reflexivo da banda e somos convidados a regressar ao inalterável apartamento de outrora. 

Esta originalidade temática, embora aparentemente elementar, alia-se a uma dicção clara e a um vocabulário cuidadoso, que auxiliam o disco na sua missão nostálgica. Volveram 40 anos desde o último álbum, mas os ABBA, ao assumirem a sua herança musical, inculcada nas vísceras do pop, projectam-se para o futuro, onde há uma certeza: as suas canções serão glorificadas. Estas e as outras que habitam no nosso cérebro. 

Nasci na década de 90, muito após a febre dos ABBA, mas sou fiel discípulo da banda. Na verdade, os sintetizadores e as letras melancólicas acompanharam o meu percurso de vida. A minha relação com as músicas, num permanente processo de construção de sentido, evoca as amizades que já terminaram, os sentimentos aquando da morte do meu pai, os momentos de Natal, os traumas da adolescência, os meus cães e gato. Prosa do quotidiano, que não é leviana e que cabe nos acordes de uma canção. 

Por isso, digo com veemência: ABBA, thank you for the music.