Doutorandos pedem oportunidades de emprego e preocupam-se com novas formas de trabalho

Num evento sobre o futuro do emprego e a sua relação com a transição ecológica na UE, doutorandos alertaram: “Não há espaço para todos na academia”.

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Nelson Garrido

O equilíbrio entre empregos sustentáveis e a automatização, e a falta de oportunidades para doutorados na academia e no sector privado são preocupações apresentadas esta terça-feira pelos estudantes da Universidade de Coimbra perante responsáveis europeus e nacionais.

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O equilíbrio entre empregos sustentáveis e a automatização, e a falta de oportunidades para doutorados na academia e no sector privado são preocupações apresentadas esta terça-feira pelos estudantes da Universidade de Coimbra perante responsáveis europeus e nacionais.

“Há 15, 20 anos, quase todos os doutorados eram professores ou estavam na academia, já com contratos. Hoje, temos 2.000 novos doutorados todos os anos, mas onde estão os novos empregos? Não há espaço para todos na academia”, argumentou Luís Coimbra, representante dos alunos de doutoramento da Universidade de Coimbra.

Num evento sobre o futuro do emprego e a sua relação com a transição ecológica na União Europeia (UE) que decorreu na UC, no âmbito da Conferência sobre o Futuro da Europa, Luís Coimbra adiantou ainda que, entre os doutorados actuais, apenas 6% trabalha no sector privado.

Nesse sentido, apelou aos responsáveis políticos presentes — o vice-presidente da Comissão Europeia Maros Sefcovic e a secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Ana Paula Zacarias — para que sejam postas em prática “medidas para incentivar as empresas a falarem com os doutorados e estudantes”.

Matias Correia, também aluno de doutoramento na UC, questionou como a UE irá lidar “com a automatização em excesso” ao mesmo tempo que mantém o “equilíbrio entre emprego verde, sustentável”. A doutoranda Sara Diana, por seu lado, levantou questões sobre as despesas dos teletrabalhadores e a necessidade de tornar o direito a desligar “a nova realidade”, visto que a “cultura de não haver horas” no teletrabalho leva a “riscos acrescidos de burnout e depressão”.

Em resposta, o vice-presidente da Comissão Europeia, Maros Sefcovic, responsável pela pasta das Relações Institucionais e Prospetiva, defendeu a necessidade de harmonizar os doutoramentos com “a pesquisa prática ao nível das empresas”, referindo, a título de exemplo, a Alemanha, onde “as empresas patrocinam os doutoramentos” dos seus trabalhadores.

Esta é uma prática que “deve ser generalizada” na UE, argumentou o responsável, apontando também para a necessidade de adoptar uma cultura de coaching [instrução] nas empresas europeias. Sefcovic sublinhou ainda a necessidade de “garantir que todas as empresas e actividades sejam devidamente taxadas”, recusando aceitar a ideia de que “grandes empresas paguem zero impostos” enquanto “lucram” com o trabalho de pessoas qualificadas.

Sobre o direito a desligar — uma lei que deverá estabelecer uma separação clara entre a vida pessoal e profissional dos trabalhadores , o comissário europeu assinalou que, “de uma forma ou de outra, o escritório de casa fará parte da rotina de trabalho” de cada um e, nesse sentido, frisou a necessidade de “ter o equipamento adequado” em situação de teletrabalho.

A secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Ana Paula Zacarias, destacou na sua intervenção uma questão distinta, a necessidade de trabalhar as soft skills, apontando como exemplo o anúncio de uma vaga de emprego para uma plataforma “online” que “pedia um engenheiro com mestrado em gestão e doutoramento em filosofia”.,

As ciências sociais e as ciências exactas não podem ser vistas separadamente, sublinhou a governante, instando a UE e o Governo a “investirem” nas qualificações.