A criptoarte não faz bem ao planeta

O fenómeno de registar e vender arte através da blockchain está a tornar-se cada vez mais popular, mas não é bom para o planeta.

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O Nyan Cat é um exemplo de NFT. Foi vendido por 600 mil dólares DR

No início de Março, um grupo de homens de máscara filmou-se a queimar uma das muitas obras do artista britânico Banksy, em directo, de Brooklyn, em Nova Iorque depois de a comprar por 95 mil dólares (são mais de 79 mil euros). A cópia digital, que foi criada momentos antes e registada na blockchain, foi vendida por quatro vezes esse valor.

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No início de Março, um grupo de homens de máscara filmou-se a queimar uma das muitas obras do artista britânico Banksy, em directo, de Brooklyn, em Nova Iorque depois de a comprar por 95 mil dólares (são mais de 79 mil euros). A cópia digital, que foi criada momentos antes e registada na blockchain, foi vendida por quatro vezes esse valor.

O evento foi orquestrado por membros da Injective Protocol, que reúne investidores da tecnologia blockchain. O objectivo era criar “criptoarte”: um fenómeno que consiste no registo de obras na rede descentralizada blockchain para as marcar como únicas. Isto permite que sejam leiloadas como NFTs (essencialmente, elementos digitais únicos). O facto de a versão física já não existir aumenta o seu valor. É um novo modelo de propriedade que dificulta a pirataria ou a falsificação de obras. A desvantagem é a energia que o modelo consome.

Muitos dos mercados de compra e venda de NFTs funcionam através da blockchain da criptomoeda ethereum que regista todas as transacções feitas e que é mantida pelo esforço colectivo dos muitos milhares de computadores ligados à rede. E estes computadores gastam muita energia.

A venda e registo de um pequeno vídeo de 13 segundos na blockchain, por exemplo, pode ter a mesma pegada ecológica que uma viagem de carro de 420 quilómetros. O cálculo é feito por Memo Akten, um artista digital que criou um site que estima o gasto energético de várias NFT para alertar para as desvantagens da criptoarte que é registada na blockchain da etherum. Pelo menos, com a tecnologia actual.

Para já, porém, a “febre” dos NFT continua e a gravura queimada de Banksy está longe de ser um caso único. O youtuber norte-americano Logan Paul vendeu um conjunto de “melhores momentos” dos seus vídeos (disponíveis gratuitamente) por 882 mil dólares (739 mil euros) e, em Fevereiro, a vedeta da música electrónica Grimes conseguiu angariar mais de 5,8 milhões de dólares (cerca de 4,8 milhões de euros) para um conjunto de vídeos de imagens apocalípticas que criou com o irmão.

Já a primeira publicação do fundador do Twitter na plataforma está actualmente em leilão por mais de 2,5 milhões de euros na plataforma Valuables que se foca em vender publicações do Twitter — os tweets — como NFTs.

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A peça de Banksy que foi comprada, queimada e leiloada como um NFT Wiktor Szymanowicz / Barcroft Studios / Getty

Mesmo que as “obras” continuem disponíveis para qualquer pessoa com acesso à Internet, só o dono tem o nome na blockchain — registo que não pode ser alterado ou manipulado.

É um mercado em crescimento. De acordo com dados da NonFungible, uma empresa de análise de dados que se especializa em NFT, o valor destes tokens digitais passou de 40,9 milhões de dólares em 2018 para 338 milhões de dólares em 2020. Akten espera que a fama leve à criação e popularização de plataformas de registo que não dependem dos esforços de milhares de computadores ligados à rede.

Curiosamente, Morons, a peça de Banksy que foi comprada, queimada e leiloada como um NFT figura num leilão de arte onde está a ser licitada uma tela com esta frase: “Não acredito que estes idiotas compram isto.”