Living Newspaper: um teatro a quente, de papéis nas mãos

Há muitos anos à espera de ser desengavetado, o Living Newspaper tornou-se a grande aposta do londrino Royal Court em tempos de pandemia: teatro escrito, ensaiado e apresentado em poucos dias, colado à realidade, e dando trabalho a centenas de dramaturgos e artistas.

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Isha Shah

Por força dos vários confinamentos que se foram replicando por todo o mundo no último ano, as salas de teatro fecharam portas e aderiram a um jorro tão generoso quanto sufocante de espectáculos transmitidos online. As peças estreadas prolongaram carreiras fora dos palcos, muitas criações passadas foram recuperadas para manter uma programação sem grande margem de concretização, propostas com transmissão através de plataformas foram adaptadas ou pensadas de raiz para difusão via internet. E, a toda a hora, discutia-se se este pobre substituto ainda podia chamar-se teatro, se valia a pena enfiar num qualquer dispositivo de fruição individual aquilo que as salas oferecem enquanto partilha colectiva. No meio de todas estas possibilidades que se acotovelavam na disputa de atenção de milhões de pessoas fechadas em casa e de olhos sugados pelos ecrãs, para onde transferia boa parte da sua vida social e afectiva, surgiu um singular projecto do teatro londrino Royal Court. Em torno do Living Newspaper: A Counter Narrative reuniam-se 70 autores e 200 artistas, numa iniciativa de enorme escala e que se propunha, num curto espaço de tempo, encomendar textos inéditos que reagissem ao momento, passá-los para as mãos de encenadores e actores, e apresentá-los ao vivo e online. Teatro com uma radical dieta do tempo que costuma mediar a escrita e a sua apresentação pública.