A Generala: o bom caminho para a representatividade trans

A existência de séries como A Generala é importante para os membros da comunidade LGBTI+, pois histórias como a de Tito devem ser contadas.

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A Generala, a nova série de ficção portuguesa exibida pela Opto e criada por Patrícia Müller e Vera Sacramento, é baseada na história de vida de Tito Aníbal Paixão Gomes, homem trans que durante 18 anos, desde a década de 60 até aos anos 90, se fez passar por um general do exército português.

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A Generala, a nova série de ficção portuguesa exibida pela Opto e criada por Patrícia Müller e Vera Sacramento, é baseada na história de vida de Tito Aníbal Paixão Gomes, homem trans que durante 18 anos, desde a década de 60 até aos anos 90, se fez passar por um general do exército português.

Na série, Tito é Octávio Paiva Monteiro, nascido Maria Luísa Paiva Monteiro, um homem que sempre se debateu com a sua identidade desde a adolescência, decidindo um dia fugir do Funchal para Lisboa, fingindo a sua própria morte.

A vida de Octávio, a sua luta pessoal pela liberdade, pela sua autodeterminação e pela reivindicação dos direitos iguais, que inicialmente estariam reservados aos homens, são os eventos narrados na série. A Generala é o retrato de uma de muitas vidas trans que foram vítimas da sociedade patriarcal e do Estado português do século XX. Por tratar um tema que ainda é considerado um tabu na sociedade portuguesa, esta série ganha um papel importante no desenvolvimento da abordagem destes assuntos tão actuais.

A comunidade LGBTI+, em especial as pessoas trans, depara-se diariamente com diversos problemas. A transfobia e a homofobia constituem uma violência imensa para os membros da comunidade LGBTI+, vítimas do preconceito contra o qual lutam todos os dias. Episódios deste tipo de violência surgem retratados na série várias vezes, não só contra Octávio, mas também contra os que lhe são mais próximos, todas e todos membros da comunidade LGBTI+.

Segundo um inquérito feito pelo Observatório da Discriminação Contra Pessoas LGBTI+ da ILGA, ao qual responderam 166 pessoas, em Portugal, no ano de 2019, cerca de 13% dos casos de violência foram direccionados a pessoas trans e 3% a pessoas intersexo. Apesar de Portugal ser considerado um dos países mais seguros da Europa para a comunidade LGBTI+, a recorrência de violência contra os membros da comunidade vem provar que essa realidade não é assim tão linear.

A representatividade nunca foi tão importante no mundo do teatro e do cinema. É a primeira vez que em Portugal uma série dá destaque a uma pessoa trans e consegue uma recepção das audiências tão positiva. Embora de há uns anos para cá exista mais representatividade trans na televisão e no cinema, ainda é muito frequente que sejam pessoas cis a interpretar papéis de personagens trans.

A existência de séries como A Generala é importante para os membros da comunidade LGBTI+, pois histórias como a de Tito devem ser contadas. Para além disso, a importância da representatividade começa quando as pessoas trans começam a ver-se incluídas nos espaços até agora frequentemente ocupados apenas por pessoas cis e vêem um futuro mais aberto para participar em projetcos que inicialmente lhes colocariam vários obstáculos devido à sua identidade.