Ser feminista deveria poder ser um anacronismo (o “frio nas mamocas” prova que não o é)

Passou-se o século XX, esse século que dizem ter sido o das mulheres, vamos na segunda década do seculo XXI, e essa dignidade ainda não nos é, genérica e globalmente, reconhecida. É isso que é lamentável.

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"São sérios quando, defensores da moral e da decência, avaliam os trajes femininos e as intenções de quem os enverga" daniel rocha

Antes de quaisquer julgamentos apriorísticos, feitos a partir do título, peço-vos a paciência de lerem as razões que me movem nesta espécie de desabafo.

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Antes de quaisquer julgamentos apriorísticos, feitos a partir do título, peço-vos a paciência de lerem as razões que me movem nesta espécie de desabafo.

Naturalmente, não me move qualquer repúdio pelo feminismo, se entendido no seu sentido mais geral (e literal) de reclamação de paridade entre mulheres e homens, embora me confundam determinados feminismos – sim, porque o correcto é falar de feminismos, considerando quer a sua evolução, quer as diferentes correntes que aí se distinguem e demarcam. Mas o facto de me confundirem alguns feminismos, naquilo que se me afigura como um radicalismo contraproducente, não lhes retira, em momento algum, o merecimento do meu respeito.

Move-me, isso sim, a estranheza e a perplexidade: eu nasci em 1969, ou seja, levo meio século de vida. Meio século desse que dizem, exactamente, ter sido o das mulheres. E, apesar desse epíteto, persistem, hoje, tantas das razões que mobilizaram as primeiras feministas a saírem para o espaço público, esse espaço tradicionalmente masculino, desafiando o instituído no plano social, cultural, político ou legal, apenas, para reclamar maior dignidade para as mulheres.

Porque é disso que, em última análise, se fala, quando falamos de feminismo: de dignidade, ou melhor, do reconhecimento do direito à dignidade de todas as mulheres, a nível global.

A dignidade que permitiria que não existissem as eternas discrepâncias salariais entre mulheres e homens, ou que não colocasse os tradicionais entraves (invisíveis e, por isso, mais perigosos) à progressão profissional das mulheres, ou que não as convertesse na mão-de-obra mais facilmente precarizada e descartável.

A dignidade que permitiria que, em muitas regiões do mundo (e, tantas vezes, mesmo aqui ao lado), não representasse um azar, nascer mulher. Um azar e um perigo: de ser vendida, trocada e abusada, tratada como a mercadoria de segunda, que, afinal, o seu estatuto secundário lhe confere.

A dignidade que permitiria que, em contextos de conflitos bélicos, a violação das mulheres não se convertesse numa das principais formas de submissão do inimigo, instigada pelos próprios exércitos.

A dignidade que evitaria que as mulheres (sozinhas com os seus filhos) ocupem sempre os lugares cimeiros no que respeita ao risco de pobreza.

A dignidade que evitaria que tantas mulheres vivam em perigo de morte, na sua própria casa, e que tantas morram às mãos daquele que, em vez de as amar, se sente como seu proprietário. Ou que reconheceria que, mesmo entre quatro paredes, e mesmo entre um casal, existe violência sexual e existe violação.

A dignidade que permitiria, aos diferentes agentes e instâncias da justiça, reconhecer que as mulheres (e as sua vidas) valem tanto como os homens (e a sua liberdade). E não me refiro, como é óbvio, às “iniciativas legislativas” e aos “pacotes de medidas”, que essas valem nada, se não forem aplicadas de forma ágil e eficaz.

E além da justiça, valeria a pena que este reconhecimento fosse feito também pelas diferentes religiões e pelos media, nas suas persistentes mensagens de secundarização e objectificação do feminino.

A dignidade, enfim, que acabaria com o tradicional dualismo entre as mulheres “sérias” e as “outras”, quando os homens, presume-se, são todos “sérios”.

São sérios quando, defensores da moral e da decência, avaliam os trajes femininos e as intenções de quem os enverga.

E são sérios quando ouvem um sim, quando lhes foi dito um não redondo, e, por terem ouvido um sim, avançam, fazendo jus à sua “normal” virilidade e dando vazão às suas “naturais” necessidades.

São sérios, quando isolam a sua mulher a pretexto de ciúmes. São sérios quando as difamam, as esmurram ou as matam, mas são igualmente sérios quando, no exercício das suas funções, julgam de forma complacente os outros homens que, feridos na sua honra de machos, usam a violência extrema como punição das “suas” mulheres, limitando-se, com isso, a seguir aqueles que são preceitos culturais e religiosos ancestrais.

Passou-se o século XX, esse século que dizem ter sido o das mulheres, vamos na segunda década do século XXI, e essa dignidade ainda não nos é, genérica e globalmente, reconhecida. É isso que é lamentável.

E é isso que me leva a dizer que eu não deveria ter de ser feminista, porque ser feminista deveria ser já um anacronismo, uma desnecessidade e o respeito pelo feminino deveria ser, esse sim, simplesmente, “natural”.

Espero que a minha filha, quando se passar meio século da sua vida, não tenha já de pensar nestes assuntos. Espero...