O sexo, a maldade, a vingança, o amor e inveja deste Tennessee Williams

De sexta a domingo, a encenação de Carlos Avilez para Bruscamente no Verão Passado abre o Festival de Almada. Uma leitura de Tennessee Williams muito sexualizada e encantada pela estranheza do texto.

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Ricardo Rodrigues

O branco está por todo o lado na peça de Tennessee Williams. Quando Catharine descreve o dia fatídico da morte de Sebastian que ensombra em permanência Bruscamente no Verão Passado, fala-nos das “tardes abrasadoras e brancas de Cabeza de Lobo”, no México, “de um branco escaldante”. Sebastian, lembra Catharine, “estava branco como o dia” e vestia “um fato de seda branca impecável, com uma gravata de seda branca, um panamá branco e sapatos brancos — de pele de lagarto branco”. E limpava repetidamente “o suor do seu resto e pescoço com um lenço de seda branca”, ao mesmo tempo que engolia “comprimidos pequenos e brancos”. No auge do seu relato, parecia que “um enorme osso branco de um animal gigante tinha incendiado o céu”. Tudo branco, como se fôssemos ofuscados pela violência dos acontecimentos, como se cada palavra fosse fabricada durante uma insolação febril, como se o seu discurso estivesse contaminado pelo branco frio e cirúrgico do hospital psiquiátrico onde Catharine foi fechada depois da morte de Sebastian.