Neandertais ocuparam ilhas do Mediterrâneo dezenas de milhares de anos antes do que se pensava

Trabalho arqueológico também trouxe revelações sobre o Homo sapiens e as rotas que seguiu após a saída de África, onde a nossa espécie surgiu há 300 mil anos.

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Escavação em Stelida, na ilha de Naxos, Grécia Evaggelos Tzoumenekas

Cientistas descobriram provas de que a ilha de Naxos, na Grécia, já era habitada não só por neandertais mas também pelos primeiros representantes do Homo sapiens sapiens há 200 mil anos, dezenas de milhares de anos antes do que se pensava até agora.

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Cientistas descobriram provas de que a ilha de Naxos, na Grécia, já era habitada não só por neandertais mas também pelos primeiros representantes do Homo sapiens sapiens há 200 mil anos, dezenas de milhares de anos antes do que se pensava até agora.

Num estudo publicado esta quarta-feira na revista Science Advances, apresentam-se conclusões de vários anos de escavações que põem em causa o que se pensava sobre as movimentações humanas na região. Essa zona era considerada inacessível para neandertais, grupo de humanos que coexistiu com a nossa própria espécie, os humanos modernos (Homo sapiens sapiens). Os neandertais surgiram há cerca de 400 mil anos e viveram apenas na Europa e Médio Oriente, tendo desaparecido há cerca de 28 mil anos. Já a nossa espécie apareceu em África e de lá saiu para se disseminar pelo mundo, chegando a cruzar-se do ponto de vista reprodutivo com os neandertais (herdámos deles um bocadinho do genoma).

As novas descobertas levaram a que os investigadores reconsiderassem as rotas seguidas pelos primeiros humanos modernos na sua saída de África para a Europa e demonstram a sua capacidade de adaptação a novos desafios ambientais.

“Até recentemente, essa parte do mundo era vista como irrelevante para os estudos com seres humanos, mas estes resultados obrigam-nos a repensar a história das ilhas do Mediterrâneo”, diz Tristan Carter, professor associado de antropologia da Universidade McMaster (Canadá) e principal autor do estudo, citado em comunicado da sua instituição académica. A investigação contou com a participação de Dimitris Athanasoulis, chefe de arqueologia para a civilização cicládica do Ministério da Cultura da Grécia.

Embora se soubesse que os caçadores viviam na Europa continental há mais de um milhão de anos, acreditava-se que as ilhas do Mediterrâneo só tinham sido colonizadas há 9000 anos – portanto, humanos modernos –, por agricultores.

Os estudiosos acreditavam que o mar Egeu, que separa a Anatólia ocidental (na actual Turquia) da Grécia continental, era intransponível para os neandertais, sendo a ponte terrestre da Trácia, no Sudoeste da Europa, a única passagem.

As novas investigações sugerem agora que o mar Egeu era acessível muito antes do que se pensava. Em certos momentos da Idade do Gelo, o mar era mais baixo, expondo uma rota terrestre entre os continentes, permitindo que as populações pré-históricas passassem a pé até Stelida, na ilha de Naxos, uma rota de migração alternativa que liga África à Europa.

Os investigadores consideram que a área teria sido atraente devido à abundância de matérias-primas para a construção de ferramentas e de água doce. No entanto, “ao entrar nesta região, as novas populações teriam enfrentado um ambiente novo e desafiador, com diferentes animais, plantas e doenças, exigindo novas estratégias adaptativas”, diz Tristan Carter.

A equipa encontrou vestígios de actividade humana de 200 mil anos em Stelida, onde desenterrou várias ferramentas e armas de caça. Os dados científicos recolhidos no local contribuem para o debate acerca da importância das rotas costeiras e marinhas para a disseminação das espécies humanas. Embora os dados sugiram que o mar Egeu tenha sido atravessado a pé, os autores também não descuram a hipótese de que os neandertais possam ter construído embarcações. A investigação faz parte do Projecto Arqueológico de Stelida-Naxos, colaboração que envolve vários investigadores que trabalham no local desde 2013.