Nova consulta do luto ajuda doentes de cancro e familiares a lidar com morte

Funciona no Hospital dos Capuchos, em Lisboa. “Todos passam pelas mesmas fases” neste processo.

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PAULO PIMENTA

Dezasseis familiares de doentes oncológicos são seguidos na nova consulta de apoio do luto do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, onde uma equipa ajuda a lidar com a morte e a retomar rotinas.

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Dezasseis familiares de doentes oncológicos são seguidos na nova consulta de apoio do luto do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, onde uma equipa ajuda a lidar com a morte e a retomar rotinas.

A consulta funciona no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, e está integrada na actividade da Equipa Intra-Hospitalar de Suporte de Cuidados Paliativos (EIHSCP), que aqui pretende identificar de forma precoce o risco de um luto prolongado, ajudando a família a ultrapassar a situação e a retomar as suas rotinas.

“Há ainda muito o conceito de que os cuidados paliativos são para doentes moribundos, mas não é nada disso. A morte é um processo que pode ser longo”, explicou à agência Lusa a coordenadora da equipa, Alice Cardoso. 

A responsável explicou que esta nova consulta foi possível graças a um protocolo celebrado entre o CHULC e o Instituto São João de Deus, financiado pela Fundação La Caixa, que visa desenvolver um modelo de cuidados que beneficie os doentes acompanhados por esta equipa.

“Há todo o processo da doença, a que se segue a morte. Esse processo da doença deve ser acompanhado por uma equipa de cuidados paliativos e esta ligação que criamos com o doente é que nos vai permitir identificar, naquela família, se as pessoas estão a saber lidar adequadamente com a situação”, explicou Alice Cardoso.

Dar ferramentas para que a família saiba responder ao sofrimento e à iminência de perda e, depois, ajudar a lidar com a morte é o principal objectivo desta equipa multidisciplinar, que inclui médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos.

“Quando vemos um doente queremos sempre conhecer as pessoas com quem vive, com quem mais lida, o seu núcleo mais próximo”, disse Alice Cardoso, lembrando que, por vezes, o doente consegue lidar bem com a situação e a família não.

“Se há pessoas que conseguem fazer este processo sozinhas, com apoio de amigos e familiares e colegas de trabalho, outras não conseguem retomar as suas rotinas, nem relacionar-se com outras pessoas, inclusive com familiares”, afirmou.

Os casos mais complicados são encaminhados pela equipa para uma consulta específica que funciona no Hospital de Santa Maria.

“As situações mais complicadas de luto, que a psicóloga entenda que são de tal nível patológico que não esteja ao ser alcance tratar, são enviadas para uma equipa de Santa Maria para lutos complicados e casos extremos”, disse Alice Cardoso, recordando que “o processo de luto tem sempre as mesmas fases, mas as pessoas podem levar tempos diferentes a fazer o luto”.

“Todos passam pelas mesmas fases” 

Entre o luto pela perda de um familiar por doença oncológica ou a perda surpresa, num acidente, por exemplo, Alice Cardoso diz que “todos passam pelas mesmas fases” neste processo.

“A grande vantagem que há no facto de os doentes oncológicos [e família] serem acompanhados é que vai havendo preparação para o que vem aí. Numa situação em que não haja preparação, o embate vai ser maior, mas as fases do luto pelas quais se passa são as mesmas. A forma e a ordem em que estas fases são vividas é que pode ser diferente de pessoa para pessoa”, explicou.

Em princípio, “num espaço de até um ano a situações fica normalizada, mas poderá ser um pouco mais”, disse Alice Cardoso, explicando que o protocolo assinado não tem prazo de validade e, enquanto a avaliação deste trabalho for positiva, a consulta vai manter-se.

A responsável conta ainda que, após a morte do doente, o “desligar” das famílias da equipa médica acaba por ser natural e trazer “sentimentos muito distintos”. “Vai sendo normal, os telefonemas e as visitas vão espaçando. Eles próprios se vão apercebendo. São fases muito intensas e as famílias ficam naturalmente apegadas aos elementos da equipa”, afirmou.

A coordenadora da equipa lembra que, mais tarde, quando alguém da equipa encontra algum familiar, acaba por ser um “misto de emoções”. “Por um lado, percebe-se a alegria por nos verem, mas também a tristeza porque lembramos sempre algo de triste. Quando retomam a sua vida nós passamos a ser apenas uma memória”.