“Portugal entrou na rota dos furacões” e, na zona de Lisboa, Almada está na linha da frente

Municípios da Área Metropolitana de Lisboa preparam-se para sofrer com alterações climáticas. Troço entre Cova do Vapor e Fonte da Telha será o mais afectado.

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Rui Gaudencio

“Portugal entrou na rota dos furações.” A frase é do presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e ilustra a situação do país perante as alterações climáticas em curso e sintetiza o cenário para os próximos anos traçado pelo Plano Metropolitano de Adaptação às Alterações Climáticas da Área Metropolitana de Lisboa (PMAAC-AML), apresentado nesta quarta-feira em Setúbal, numa conferência internacional que juntou políticos e técnicos e em que se concluiu que Almada será o primeiro concelho a sofrer as consequências.

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“Portugal entrou na rota dos furações.” A frase é do presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e ilustra a situação do país perante as alterações climáticas em curso e sintetiza o cenário para os próximos anos traçado pelo Plano Metropolitano de Adaptação às Alterações Climáticas da Área Metropolitana de Lisboa (PMAAC-AML), apresentado nesta quarta-feira em Setúbal, numa conferência internacional que juntou políticos e técnicos e em que se concluiu que Almada será o primeiro concelho a sofrer as consequências.

“Não estamos a falar da pedagogia da catástrofe, mas da noção de consciencialização das pessoas”, disse o presidente da APA, Nuno Lacasta, ao PÚBLICO. “Temos hoje galgamentos com uma enorme intensidade e as tempestades estão a assolar Portugal continental, já não é só os Açores, que estão habituados aos furacões”, acrescentou o presidente da APA, recordando o último furação que recentemente “aterrou” na Figueira da Foz e que “causou mais de 50 milhões de euros de prejuízos”.

Segundo o plano metropolitano apresentado nesta quarta-feira, os 18 municípios da AML precisam de começar agora a definir medidas concretas de adaptação, porque os cenários climáticos de médio e longo prazo indicam que vão sofrer graves prejuízos com as alterações climáticas.

Entre 2041 e 2100 espera-se o “aumento gradual e muito significativo” da temperatura média do ar, ondas de calor “mais frequentes e intensas”, o “aumento expressivo” da frequência de dias de Verão e das noites tropicais e a redução da precipitação anual, que será concentrada em períodos temporais mais reduzidos, mas com maior intensidade de queda.

As consequências previstas na AML são os incêndios fora das áreas urbanas, inundações provocadas por cheias rápidas, a subida das águas do mar e os eventos extremos, como as tempestades e os ventos fortes. Estes efeitos deverão ter “impactes significativos” nos 18 concelhos, em áreas tão diversas como a agricultura e florestas; a biodiversidade; a indústria, o turismo, o comércio e os serviços; a energia e a segurança energética; os recursos hídricos; a saúde humana; a segurança de pessoas e bens; os transportes e comunicações; e as zonas costeiras e mar.

O presidente da APA aponta os galgamentos como a ameaça principal e que exige como “respostas imediatas” a necessidade de “consciencializar” as pessoas e “redesenhar” os espaços públicos.

“Não é de todo impensável redesenharmos os espaços públicos. Faz parte da gestão, da governança e até do bem-estar das populações”, defende Nuno Lacasta, que aponta o exemplo do esforço de ordenamento feito há algumas décadas com o programa Polis. “As praias portuguesas estão completamente diferentes do que estavam há 15 anos, em grande medida fruto do programa Polis que veio organizar e ordenar”, sublinha.

Almada “brutalmente” atingida

A zona da AML mais afectada pelas alterações climáticas será o concelho de Almada, mais propriamente o troço entre a Cova do Vapor e a Fonte da Telha que é “brutalmente crítico”, segundo o coordenador do PMAAC-AML, Sérgio Barroso.

“Tenho muita preocupação com a comunidade da Cova do Vapor. Também se coloca o problema do Bairro do Torrão, com populações vulneráveis que vivem em condições de grande precariedade, o que implica uma resposta a vários níveis”, disse Sérgio Barroso à agência Lusa à margem da conferência.

Para mitigar a ameaça, o responsável diz que é necessário reforçar o cordão dunar, com a colocação artificial de areia e os parques de campismo da costa têm de recuar.

“Na praia de São João da Caparica temos de consolidar o sistema dunar e, a sul da Costa de Caparica, até à Fonte da Telha, temos de manter aquele sistema dunar intacto. Temos de recuar os parques de campismo – que estão em situação de grande perigosidade e que já são afectados regularmente por fenómenos de Inverno de galgamento e inundação –, tal como já está previsto no Plano de Ordenamento da Orla Costeira Alcobaça-Cabo Espichel”, advertiu Sérgio Barroso.

Ao PÚBLICO o presidente da APA explica que “a defesa” em relação aos galgamentos, na Costa da Caparica e no resto do país, são os planos de ordenamento da orlas costeiras (POOC) e que estão concluídos metade dos seis previstos. “Três POOC estão já aprovados por este Governo, nomeadamente os de Caminha-Espinho, Ovar-Marinha Grande e Alcobaça-Cabo Espichel, e faltam concluir, até 2020, o plano da Península de Setúbal -Alentejo e os dois do Algarve, para completar a cobertura do território continental”, disse Nuno Lacasta.

Nestes planos, o objectivo é identificar, com novos sistemas de mapeamento e novas previsões sobre o recuo da linha de costa, por força da subida da água do mar e da erosão, e, “em função desta nova constatação técnica, tirar conclusões para o urbanismo e ordenamento do território”. 

Na sessão de abertura da conferência, o presidente da AML e da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, defendeu que as alterações climáticas “não são uma questão do futuro, mas do presente” e “não constituem um problema do planeta, mas dos seres humanos” que, disse, “não estão preparados para uma subida de temperatura média de dois ou três graus”.

Já a presidente da Câmara de Setúbal, Maria das Dores Meira, cidade em que nos últimos meses tem crescido a polémica sobre as dragagens que estão na calha para o Sado, fez questão de manifestar a sua confiança na APA, que aprovou o estudo de impacto ambiental para essas obras no rio.

“É imperioso que repita esta manifestação de confiança para reafirmar que o respeito pelo trabalho de organismos de cariz técnico e baseados no saber científico não pode, nem deve ser posto em causa de ânimo leve. Minar a confiança nas instituições é um caminho fácil e rápido para alcançar objectivos de curto prazo, mas significa também, muitas vezes, criar condições para que entremos em becos sem saída”, disse Maria das Dores Meira.