Praga de javalis: “Muitos animais estão doentes” e há o risco da peste suína africana

Javali tomou o lugar que antes pertencia aos coelhos, às lebres e às perdizes. Não há, para já, um perigo de saúde pública, mas espécie carrega doenças que podem passar a outros animais.

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Patricia Martins (arquivo)

Nos coutos de caça onde antes se matavam mil coelhos, abatem-se agora 10 javalis. Quem o diz é Jacinto Amaro, presidente da Fencaça – Federação Portuguesa de Caça para que se perceba a importância do javali na gestão das associações de caça.

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Nos coutos de caça onde antes se matavam mil coelhos, abatem-se agora 10 javalis. Quem o diz é Jacinto Amaro, presidente da Fencaça – Federação Portuguesa de Caça para que se perceba a importância do javali na gestão das associações de caça.

Uma parte significativa da caça que estava baseada nas perdizes e nos coelhos bravos “diminuiu” por razões que se prendem com a doença hemorrágica viral e a mixomatose verificando-se uma “transumância da caça menor para a caça maior, sobretudo para os javalis”, explica o dirigente.  

Acresce ainda outro factor que está a contribuir para redução da caça menor. “Os javalis comem as crias de coelho bravo ou da lebre e os ovos das perdizes. Estamos perante um super predador que dizima a caça menor e tem-se deslocado do centro do país para sul onde se alterou o modelo agrícola que existia há 20 anos”, descreve Jacinto Amaro.

A realidade que se observa, está a provocar um “desequilíbrio ecológico”, assinala Nuno Sequeira, dirigente da organização ambientalista Quercus, imputando as consequências ao “desaparecimento dos predadores de topo como o lobo ibérico ou o lince. Quando estes existiam, o número de javalis mantinha-se equilibrado”, acrescentou.

O problema atingiu uma tal proporção e descontrolo que “só o Governo é que tem meios técnicos e financeiros para intervir”, refere João Diniz, dirigente da Confederação Nacional de Agricultores (CNA), criticando “ a indiferença” manifestada pelo ICNF e o Ministério da Agricultura. “Queremos saber que populações de javalis existem, o seu estado sanitário e como controlar a espécie”, argumenta realçando as consequências da sua presença cada vez perto do suíno doméstico, dos bovinos e das pessoas. “Muitos animais (javalis) estão doentes e há sobretudo o risco do descontrolo populacional que pode trazer para o território português a peste suína africana”, adverte João Diniz, sublinhando que este predador “é um dos grandes disseminadores da doença” que já se alastrou ao centro da Europa, à Bélgica.

A chegada dos animais aos territórios onde têm lugar as actividades humanas já permite observá-los a frequentar as praias na zona de Setúbal vindos do parque natural da Arrábida, receando-se que esta proximidade possa ter reflexos na saúde humana. Jacinto Amaro diz que “estamos a assistir à “humanização” do javali que antigamente estava circunscrito aos sítios mais inóspitos. É esta proximidade que suscita reservas.

Num projecto de resolução apresentado no dia 11 de Março, pelo grupo parlamentar do CDS, recomenda-se ao Governo a elaboração de um “estudo sobre a distribuição territorial da população de javalis em Portugal”.

O documento faz referência a um conjunto de zoonoses (doenças que afectam os animais e que em certas condições podem transmitir-se ao homem) que “necessita de atenção e acompanhamento permanente por parte das autoridades”. As mais graves que afectam o javali, designadamente, a tuberculose e a triquinose [doença que podem afectar os humanos no caso de consumo de carne mal cozida], “poderão, embora em circunstâncias remotas, contagiar o ser humano”.

Questionada pelo PÚBLICO, a Direcção-Geral de Saúde remeteu respostas para a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária que no seu site refere que entre 2011 e 2016 foram identificados “casos positivos de carcaças contagiadas com tuberculose em 28% das jornadas de caça na região Centro e 12% no Alentejo, sendo que cerca de 7% dos javalis abatidos eram portadores de doença após as respectivas confirmações laboratoriais. “

Em 2018, na sequência da detecção de triquinose em javalis abatidos em Trás-os-Montes, a DGAV alertou para a necessidade de “implementação de medidas específicas de protecção da saúde pública na área afectada”, e da “continuidade de aplicação de medidas de vigilância e de protecção da saúde pública para redução do risco de transmissão de triquinose a todos os que consomem carne de javali proveniente de áreas de risco”.

Mário Durval, membro da Associação de Médicos de Saúde Pública, explicou ao PÚBLICO que as doenças já referidas e transportas pelos javalis “não são um problema de saúde pública” embora admita que “em última análise, há sempre lugar a preocupação, apesar das consequências estarem muito longínquas”, concluiu.