Luís Amaral, do grupo Eurocash, está contra a OPA à dona do Minipreço

Luís Amaral, gestor que em 2003 comprou a grossista polaca Eurocash à Jerónimo Martins, decidiu alargar horizontes no retalho alimentar para a Península Ibérica. Tem já 2% do grupo DIA, dono do Minipreço, e fez saber ao milionário russo Mikhail Fridman que é contra a OPA sobre a empresa espanhola.

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dd Dato Daraselia

A Western Gate, que se caracteriza a si própria como divisão de investimento do universo empresarial do gestor Luís Amaral – que controla a polaca Eurocash e é um dos accionistas fundadores do site português Observador – é contra a oferta pública de aquisição (OPA) do grupo DIA – Distribuidora Internacional de Alimentación, empresa dona da rede retalhista alimentar Minipreço.

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A Western Gate, que se caracteriza a si própria como divisão de investimento do universo empresarial do gestor Luís Amaral – que controla a polaca Eurocash e é um dos accionistas fundadores do site português Observador – é contra a oferta pública de aquisição (OPA) do grupo DIA – Distribuidora Internacional de Alimentación, empresa dona da rede retalhista alimentar Minipreço.

Luís Amaral – que, contactado pelo PÚBLICO aquando do anúncio da OPA há mais de um mês, se recusou a confirmar que era accionista da DIA e se absteve de comentar as notícias então veiculadas pelos jornais espanhóis que o davam como certo no capital da distribuidora – é dono de 2% da cotada DIA. O maior accionista, com 29%, é o fundo LetterOne do milionário russo Mikhail Fridman, que a 5 de Fevereiro anunciou à praça de Madrid a sua intenção de lançar uma OPA, a 0,67 euros por cada título da DIA, levando a rede de supermercados ibérica a valorizar-se 63% numa só sessão.

No site da Western Gate, que até ao dia 13 de Março só tem sobre a DIA artigos de sites e jornais espanhóis, passou desde esta quarta-feira a ter vários comunicados, em inglês e em espanhol, sobre a OPA à cotada. E fica claro nos textos que é contra a oferta da LetterOne. A empresa controlada por Luís Amaral reconhece que “começou a investir na DIA em meados de 2018 e que correntemente detém cerca de 2% da companhia” de distribuição alimentar. E que, apesar de a “companhia estar a passar por tempos difíceis, a Western Gate acredita no seu valor de longo prazo”.

Considera que esse valor não está “adequadamente reflectido” nos termos da OPA que a LetterOne anunciou pretender lançar a 5 de Fevereiro passado, e sobre a qual os accionistas da DIA serão chamados a pronunciar-se em reunião magna na próxima semana. Para a Western Gate, “o aumento de capital [proposto por Fridman] irá permitir à LetterOne, pelo menos, duplicar o valor [da sua participação no activo DIA] e até potencialmente triplicar à custa dos [restantes] accionistas”.

É por isso que a holding pessoal de Luís Amaral está disposta, em alternativa, a apoiar o modelo de refinanciamento proposto pela actual administração do grupo DIA, no valor de 600 milhões de euros através de emissão de novas acções – desde que “na assembleia geral [de accionistas] seja dada clarificação adicional sobre a natureza do aumento de capital” proposto pela administração. A alternativa de reforço de capital à OPA de Fridman, previamente apresentada pelo conselho de administração da DIA, é “aquela que melhor assegura valor aos accionistas no curto, médio e longo prazo”, defende a Western Gate, que está disposta a dar o voto equivalente aos seus 2%, “se ocorrer uma avaliação adequada e uma justa diluição” entre os accionistas na nova emissão de títulos da DIA.

O grupo DIA registou em 2018 um prejuízo consolidado de 352,6 milhões de euros, o que é comparável com lucros de 101,2 milhões de euros um ano antes, anunciou a empresa a 8 de Fevereiro. A dívida líquida passou de 945 milhões em final de 2017 para 1452 milhões, 12 meses depois. Em Portugal, onde o grupo fechou o ano passado com 532 supermercados Minipreço (com um encerramento líquido de 27 lojas) e 71 drogarias Clarel (rede que passou a estar classificada como operação descontinuada, uma vez que o plano de refinanciamento pressupõe a sua alienação), as vendas brutas (com IVA e incluindo franchisados) recuaram 3,1%, para 808 milhões de euros. Líquidas, as vendas “decresceram 5,2%, no mesmo período, para 629 milhões de euros”. Em 2018, Portugal captou 6,4% do total do investimento do grupo, cerca de 20,3 milhões de euros, uma quebra de 17,1% face a 2017. O grupo investiu 315,3 milhões de euros no ano passado no total dos quatro mercados em que está presente: Espanha, Portugal, Argentina e Brasil. 

O Plano Estratégico 2018-2023 aprovado pelo conselho de administração tem como metas fundamentais o crescimento a um dígito das vendas (que recuaram 11,3%, para 7,28 mil milhões de euros em 2019), “melhorar o EBITDA a partir do ano de 2020”; e reduzir o investimento em 2019 para voltar a aumentar em 2020.

Com a entrada no capital da DIA, Luís Amaral reforça a sua carteira de investimentos na distribuição. Foi em 2003 que o gestor português liderou um grupo de ex-quadros da Jerónimo Martins na Polónia, quando a SGPS portuguesa decidiu restringir a sua presença naquele mercado apenas à área de retalho alimentar com a cadeia Biedronka. Na altura, a Eurocash era uma cadeia grossista ¦– de venda a outros estabelecimentos de comércio retalhistas e cafés e restaurantes. Hoje é um grupo líder nesse segmento, mas transversal a toda a área de distribuição. Cotada em bolsa após o MBA (management buy out) de 2003, a Eurocash registou vendas de 5,2 mil milhões de euros e um resultado antes de juros, impostos, amortização e depreciação (EBITDA) de 95 milhões de euros, segundo a última apresentação da empresa aos investidores, que data deste mês. No retalho alimentar polaco, onde a JM domina com a cadeia Biedonka, a Eurocash é já a sétima maior, mas com ambição para mais: chegar a terceiro lugar nos próximos cinco anos, adicionando mais 900 lojas às 1500 unidades de discount que já detém.