O dia em que o Liverpool foi a Munique cancelar a viagem do Bayern para a final

O excesso de confiança dos bávaros contribuiu para a revolta britânica nas meias-finais da Taça dos Campeões Europeus de 1981.

Foto
DR

As notícias chegam depressa a Liverpool, e a Anfield. Confiantes depois do 0-0 de 15 dias antes, que nem o estreante Ian Rush conseguira desbloquear, e apesar de ainda faltar disputar a segunda mão no Olímpico de Munique, os bávaros já se adiantaram e reservaram viagem para Paris, onde se realizará a final da tão desejada Taça dos Clubes Campeões Europeus. Essas são as notícias que correm em Inglaterra, e que revoltam os “reds”.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

As notícias chegam depressa a Liverpool, e a Anfield. Confiantes depois do 0-0 de 15 dias antes, que nem o estreante Ian Rush conseguira desbloquear, e apesar de ainda faltar disputar a segunda mão no Olímpico de Munique, os bávaros já se adiantaram e reservaram viagem para Paris, onde se realizará a final da tão desejada Taça dos Clubes Campeões Europeus. Essas são as notícias que correm em Inglaterra, e que revoltam os “reds”.

À chegada ao Olympiastadion, onde a 22 de Abril de 1981 se dissiparão as dúvidas, a comitiva inglesa encontra panfletos impressos com indicações para os adeptos de como chegar a Paris. Mais uma clara provocação por parte dos germânicos, a transbordar confiança depois do primeiro embate. Apercebendo-se de que podiam virar o momento em seu favor, Bob Paisley e os adjuntos afixam no balneário a tradução de uma entrevista do capitão do Bayern, Paul Breitner, na qual este critica a exibição do Liverpool de há duas semanas por «falta de imaginação».

O balneário está on fire. Alan Hansen, Graeme Souness e Ray Kennedy parecem pugilistas antes de entrar no ringue, transpiram uma mistura explosiva de testosterona e adrenalina. Ninguém naquele momento duvida de que o Liverpool vai conseguir a qualificação, ninguém naquele momento pensa nas baixas de Phil Thompson e Alan Kennedy, substituídos por respectivamente por Colin Irwin e Richard Money. Ninguém, mas mesmo ninguém, parece preocupado por do outro lado estar o mais poderoso avançado-centro da atualidade: Karl-Heinz Rummenigge.

Também tu, King Kenny?

Aos 10 minutos, surge mais um obstáculo enorme para ultrapassar. King Kenny, grande figura da equipa e transferência-recorde 4 anos antes proveniente do Celtic, é derrubado por Del’Haye e fica agarrado ao tornozelo esquerdo. Será que não há mesmo um único britânico que não pense que o sonho acabou, quando vê o craque a coxear para a linha lateral para receber assistência? Tal como nos vestiários, em campo não se nota.

É Howie Gayle, com apenas 19 anos e autor de um hat-trick pelas reservas no fim de semana, quem é chamado para substituir Dalglish. Gayle não vacila perante a solenidade do momento. A partir de agora, são os alemães que correm atrás dele. Dremmler já sofre, não consegue acompanhá-lo e derruba-o na área. Só que o árbitro português António Garrido, que tinha apitado a final da mesma competição no ano anterior entre Nottingham Forest e Hamburgo, e que valeu o bicampeonato europeu ao mítico Brian Clough, não assinala penálti.

A primeira parte termina sem grandes oportunidades de parte a parte, mas Gayle continua fresco durante a segunda, e num livre que resulta de uma falta cometida sobre si, McDermott ameaça a baliza de Junghans. É o tom para uma segunda metade mais animada e com o Liverpool mais perto do golo.

Os golos a acabarem

Colin Irwin tem duas oportunidades para rematar, mas não consegue acertar na baliza. Depois, David Johnson consegue isolar-se, mas o ressalto da bola obriga a remate de recurso, desviado ainda por um defesa. As camisolas brancas, debruadas a vermelho, a fazer conjunto com calções negros, parecem em maior número.

Com um cartão amarelo visto aos 71 minutos, Gayle não termina a partida. Paisley injeta experiência com a entrada de Jimmy Case. Antes, aos 57, Pál Csernai já tinha trocado Dürnberger por Janzon.

No ataque, o Bayern apenas parece dar trabalho com o jogo aéreo de Hoeness. E, aos 81 minutos, a defesa germânica é apanhada desalinhada. Johnson vê Ray Kennedy sem marcação à entrada da área e passa de primeira. O avançado domina de peito e remata de pronto, fazendo a bola entrar rasteira junto ao poste direito de Junghans. Munique cala-se.

A precisar de dois golos para confirmar as reservas para Paris, é Janzon, 12 nas costas, quem coloca a bola na área aos 88 minutos. Irwin tem uma má abordagem, cabeceando para trás, e Rummenigge aparece ao segundo poste a rematar para o empate. Não chega. O Liverpool está na final! O arrogante heptacampeão alemão, e três vezes vencedor da competição, fica pelo caminho.

No Parc des Princes, perante um Real Madrid que já acumula nove finais, tendo vencido seis, Souness ganha a batalha a Uli Stielike no meio-campo e empurra os “reds” para a frente na segunda parte. O esforço rende frutos. Aos 81 minutos, Ray Kennedy faz um lançamento lateral, Alan Kennedy domina com o peito, passa Rafael García Cortés, e remata forte, de ângulo reduzido, perante Agustín. Golo! Basta! O Liverpool ganha a sua terceira Taça.