Better Call Saul, como Jimmy se transformou em Saul

A quarta temporada da prequela de Breaking Bad chegou ao fim. O 10º episódio da comédia dramática da AMC saiu esta terça-feira em Portugal, via Netflix.

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Rhea Seehorn e Bob Odenkirk em Better Call Saul DR

Better Call Saul não é Breaking Bad, um dos expoentes máximos da chamada idade de ouro da televisão norte-americana e a série da qual é um spin-off. A prequela, que se passa uns anos antes, tem um ritmo bastante mais lento, deliberado, sem pressa de chegar onde quer que seja, e uma toada mais abertamente cómica do que Breaking Bad. E quem já viu o que veio antes conhece bem o destino de algumas das personagens e aquilo em que elas se tornarão. Mas só existe por causa de Breaking Bad, que acabou em 2013, e a premissa é mais ou menos a mesma: vemos como é que alguém se transforma em mau. 

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Better Call Saul não é Breaking Bad, um dos expoentes máximos da chamada idade de ouro da televisão norte-americana e a série da qual é um spin-off. A prequela, que se passa uns anos antes, tem um ritmo bastante mais lento, deliberado, sem pressa de chegar onde quer que seja, e uma toada mais abertamente cómica do que Breaking Bad. E quem já viu o que veio antes conhece bem o destino de algumas das personagens e aquilo em que elas se tornarão. Mas só existe por causa de Breaking Bad, que acabou em 2013, e a premissa é mais ou menos a mesma: vemos como é que alguém se transforma em mau. 

No caso de Breaking Bad, era a história de Walter White, que, nas famosas palavras do criador Vince Gilligan, passava de Mr. Chips a Scarface, de herói a vilão. De professor de química de liceu a um poderoso fabricante e traficante de metanfetaminas. Better Call Saul mostra-nos como Jimmy McGill, um advogado dado à vigarice mas com um bom coração, deu origem a Saul Goodman, um advogado que defende criminosos terríveis e cujo coração não é detectável a olho nu e era uma das personagens que dava mais leveza cómica à série original.

O décimo e último episódio da quarta temporada chegou esta terça-feira a Portugal via Netflix, depois de ter sido transmitido pela AMC norte-americana na noite anterior, e tornou a época inteira finalmente visível de uma só assentada.

Saul Goodman não era para ter durado mais do que três episódios da segunda temporada de Breaking Bad. Mas a interpretação de Bob Odenkirk, a lenda da comédia (especialmente no seminal Mr. Show with Bob and David, clássico dos sketches dos anos 1990), com uma certa percentagem da imitação que o actor fazia de Robert Evans, o lendário produtor de Hollywood, foi tão boa, revelou um actor dramático até então desconhecido e fez tanto sentido que a personagem acabou por ficar. E tanto ficou que ganhou a sua própria série. Gilligan e Peter Gould, o argumentista de Breaking Bad que co-criou Better Call Saul, são, aliás, peritos em reconhecer acasos fortuitos e insistirem neles ao ponto de os incorporarem no grande plano que têm para tudo. E isso nota-se no resultado final.

A série não é só a história de McGill, dando espaço a Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks), o ex-polícia que se virou para o outro lado da lei, e Kim Wexler (a sempre impressionante Rhea Seehorn, um dos maiores pontos fortes de uma série cheia de pontos fortes), a namorada de McGill, também advogada e alguém que por vezes se envolve nos seus esquemas. Ambos, se bem que em graus diferentes, também andam, tal como o protagonista, cada vez mais a distorcer o seu compasso moral, a desperdiçar os seus talentos e potencial fazendo más escolhas de vida e a chegar a um ponto em que não há maneira de voltar atrás.

Caso não saiba (e se não quiser saber é melhor não ler este parágrafo), nesta época, McGill  que, sempre com a veia de aldrabão e desenrasca, ficou sem a licença de advocacia, virando-se para a venda de telemóveis, algo que o aproxima do mundo do crime  lida (ao não lidar directamente) com a morte do irmão (curiosamente, também interpretado por outra lenda cómica: Michael McKean).

Continua-se a alternar entre o mundo dos advogados e o submundo do crime, com as histórias paralelas de personagens como Gus Fring (o sempre fiável Giancarlo Esposito) ou Nacho Varga (Michael Mando). Mantém-se a tendência de revelar as origens de elementos que conhecemos de Breaking Bad, mas de uma forma orgânica, merecida e raras vezes gratuita. Os eventos de Breaking Bad começaram a estar cada vez mais próximos, tal como o nascimento de Saul Goodman.

O último episódio foi co-escrito pelo criador Peter Gould e Thomas Schnauz e realizado por Adam Bernstein, que também tinha dirigido Bob Odenkirk na primeira temporada de Fargo. É impressionante, cheio de cenas dramáticas carregadíssimas de tensão, e desolador, triste, bonito e tocante como a série sempre soube ser.

Depois de quatro pacientes temporadas, Saul Goodman está cada vez mais próximo, e mal podemos esperar para ver o que acontece a seguir.