Especialistas temem fachadismo no edifício da Confiança

A Câmara de Braga aprovou a alienação do edifício onde se produziu sabonetes, impondo a salvaguarda de três das fachadas em futuras intervenções. Especialistas temem delapidação do património.

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Nelson Garrido / PUBLICO

Alguns especialistas em reabilitação urbana e arqueologia industrial opõem-se à alienação do edifício que acolheu a fábrica Confiança desde o primeiro quarto do século XX até 2002, segundo as condicionantes impostas pela Câmara Municipal no caderno de encargos apresentado.

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Alguns especialistas em reabilitação urbana e arqueologia industrial opõem-se à alienação do edifício que acolheu a fábrica Confiança desde o primeiro quarto do século XX até 2002, segundo as condicionantes impostas pela Câmara Municipal no caderno de encargos apresentado.

A autarquia liderada por Ricardo Rio avaliou o edifício em 3,9 milhões de euros a aprovou a sua alienação, esperando agora ver confirmada a decisão na Assembleia Municipal de 04 de Outubro. A intenção da autarquia com maioria PSD/CDS-PP/PPM mereceu, até agora, a oposição das restantes forças políticas do concelho, de associações cívicas e da Junta de Freguesia de São Victor, da mesma cor política da Câmara.

Num debate organizado pela Junta, na quinta-feira, o especialista em arqueologia industrial José Manuel Lopes Cordeiro, o urbanista José António Lameiras e o arquitecto Miguel Malheiro, da Associação Portuguesa para a Reabilitação Urbana e Protecção do Património (APRUPP), realçaram que o documento no qual a Câmara impõe o “núcleo museológico da fábrica” e a “manutenção da componente arquitectónica” compromete-se, sobretudo, a salvaguardar as três fachadas da Confiança, esquecendo tudo o resto.

Contactado pelo PÚBLICO, Miguel Malheiro considerou que o caderno de encargos da Câmara é muito vago e que, ao realçar a manutenção das fachadas sem menção ao resto do edifício, está a promover o fachadismo. “O fachadismo não faz parte das cartas, nem das convenções sobre o património”, reiterou. O arquitecto referiu ainda que o documento nada diz sobre o tipo de espólio museológico a instalar, defendendo que o imóvel deveria, no futuro, conservar alguns dos equipamentos industriais utilizados na Confiança.

Já o especialista em arqueologia industrial, da Universidade do Minho, afirmou que o caderno de encargos coloca em risco a manutenção do único exemplar industrial que ainda resiste numa zona marcada, no passado, pela indústria de chapelaria. Para o historiador, o caderno de encargos, além de permitir “fachadismo”, também prevê uma área de construção de 11.400 metros quadrados, que pode traduzir-se num novo prédio de cinco andares, ligado ao antigo edifício. O investigador lamentou ainda a incoerência do actual presidente da Câmara e dos vereadores Firmino Marques e Miguel Bandeira face à posição de uso da Confiança para fins culturais, na altura da sua compra, em 2012.