Alemanha

Alemanha debate vigilância ao partido de direita radical AfD

Discussão sobre se Alternativa para a Alemanha deve ser objecto de investigação do serviço de segurança interna é reaberta após marcha em Chemnitz.
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O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) deve ou não ser objecto de vigilância do serviço de segurança interna da Alemanha? A questão voltou a pôr-se depois da participação do partido em acções na cidade de Chemnitz, onde nacionalistas perseguiram estrangeiros e prometeram "justiça pelas próprias mãos" na sequência de uma morte ainda não esclarecida.

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A vigilância da AfD pelos serviços de segurança internos é defendida por vários políticos do Partido Social-Democrata (SPD), enquanto o campo conservador está dividido com algumas vozes a favor e outras contra. Dois estados federados, Bremen e a Baixa Saxónia, reconheceram ter posto as alas jovens do partido sob vigilância invocando ligações a extremistas e suspeitas de incitamento a violência e racismo (e ainda antes do que aconteceu em Chemnitz). A AfD reagiu dizendo que considera desmantelar essas duas alas juvenis.

O ministro do Interior, Horst Seehofer, da CSU, manifestou-se contra a monitorização “de todo o partido” embora admitisse que “é preciso ver, e o BfV [Gabinete para a Protecção da Constituição] faz isso, se declarações de elementos do partido ou o trabalho com outros grupos são isolados ou fazem parte da linha política do partido”. O BfV, que é um serviço de informação interna, vela pelo cumprimento da Constituição e ameaças à democracia, vigiando por exemplo grupos com tendências anti-democráticas, como alguns de extrema-esquerda, o partido de extrema-direita NPD, ou até a igreja da Cientologia, considerada anti-constitucional.

O argumento a favor da vigilância baseia-se no que aconteceu em Chemnitz na sequência da morte de um alemão de origem cubana numa série de rixas cujos motivos não foram ainda esclarecidos: após rumores sobre o que teria acontecido (e depois de aparentemente um polícia ter passado informação sobre a identidade dos agressores, um iraquiano e um sírio, a um grupo de extrema-direita), juntou-se uma multidão de nacionalistas com cartazes a dizer “estrangeiros fora”. A certa altura tornaram-se violentos, com perseguições pelas ruas a pessoas que aparentassem ser estrangeiras.

A AfD juntou-se ao movimento anti-islão Pegida para uma marcha de luto na cidade. 

A líder do SPD, Andrea Nahles, defendeu a vigilância do partido. “A AfD permitiu-se tornar-se uma organização frontal para radicais de direita nas ruas de Chemnitz, quer tenha sido de modo intencional ou não”, declarou Nahles. 

Comentando as primeiras manifestações, o líder da AfD, Alexander Gauland, declarou que havia justificação para a “raiva” das pessoas depois “de uma acção destas”, mas criticou que “cidadãos preocupados” sejam apresentados pelos media como sendo de “extrema-direita”. O que aconteceu em Chemnitz, defendeu Gauland, foi que “hooligans e a extrema-direita” aproveitaram a manifestação e a “instrumentalizaram”.

A AfD foi o terceiro partido mais votado nas eleições alemãs de 2017, com quase 13% e tem “flirtado” com retórica de extrema-direita. Na sequência da morte em Chemnitz, um deputado do partido apelou a que se faça justiça pelas próprias mãos. “Quando o Estado deixa de conseguir proteger os cidadãos, as pessoas vão para a rua proteger-se a si mesmas. É muito fácil!”, declarou no Twitter Markus Frohnmaier.

Gauland foi, ele próprio, autor de vários comentários duvidosos como o de atirar uma responsável do SPD de origem turca “para a Anatólia”, onde ela não nasceu nem nunca viveu, ou de os alemães deverem poder ter orgulho do exército que combateu nas duas Guerras Mundiais (exército que, confirmam historiadores, cometeu várias atrocidades), e desvalorizar o Terceiro Reich como “cocó de pássaro”, ou seja insignificante numa longa história da Alemanha.

Mas há mais controvérsias: Björn Höcke, da Turíngia, disse que a Alemanha “tem uma política estúpida para lidar com o passado que nos paralisa” e criticou o memorial do Holocausto em Berlim: “Somos o único povo do mundo que plantou um monumento da vergonha no coração da sua capital”. O que a Alemanha precisa, aconselhou no discurso de Janeiro de 2017, é “uma viragem de 180 graus na sua política de memória. A então líder do partido, Frauke Petry, tentou afastar Höcke por “afinidade com o nacional-socialismo”, mas este garantiu vários apoios e continuou. Petry saiu do partido no dia a seguir às eleições, depois de ser ela própria eleita – agora é deputada independente.

Patrick Sensburg, especialista em segurança da CDU (União Democrata-Cristã, o partido de Angela Merkel), defendeu que a AfD “é cada vez mais um caso para o Gabinete de Protecção da Constituição”, já que o seu líder tem de “pelo menos uma vez por mês declarar que se distancia de um dos lapsos dos seus colegas de partido”, declarou à emissora NDR. Outro conservador, o líder do grupo parlamentar da CDU Volker Kauder, sublinhou que uma investigação do BfV permitiria saber a origem “dos milhões” que a AfD teve ao seu dispor na campanha eleitoral de 2017.

Numa sondagem feita pelo instituto Civey para o grupo de media Funke, a maioria dos alemães concorda que a AfD deveria ser objecto de vigilância: 57% dos inquiridos concorda com a medida.

Stefan Mayer, da CSU (partido-gémeo da CDu na Baviera), alerta no entanto para o perigo da acção que “poder bem dar à AFD uma espécie de imagem de mártir”.

A par das marchas nacionalistas, a cidade e o país têm visto uma significativa mobilização contra os neonazis. Esta segunda-feira estava marcado um concerto em Chemnitz com várias bandas contra o racismo sob o mote “nós somos mais”, e nas redes sociais a maioria silenciosa fazia-se notar usando essa mesma expressão.

Um pouco por toda a Alemanha havia manifestações maiores ou mais pequenas. O jornalista da revista Der Spiegel Matthieu von Rohr comentava no Twitter como passou, por acaso, por um protesto contra a extrem-direita em Bad Bentheim, uma pequena cidade na Baixa Saxónia, “Isto também está a acontecer por toda a Alemanha: pessoas normais a tomarem uma posição contra os neonazis”.

Um mote que fora dado no domingo pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Heiko Maas. “Temos de sair do sofá e falar”, para mostrar “ao mundo que nós, os democratas, somos a maioria e os racistas a minoria”. “A maioria silenciosa tem de falar mais alto”, disse Maas.