Opinião

Liberal já significou “generoso”; hoje interpreta-se “egoísta”

É triste, seja qual for a tradição ideológica a partir da qual observamos esta deriva.

Algumas das palavras mais importantes do nosso vocabulário político mudaram de sentido no século XVIII para adquirirem um significado mais amplo. A palavra “direito” referia-se a um privilégio que me diferenciava dos outros, antes de passar a ser — de forma universal e indivisível — algo que eu partilho com todos. “Dignidade” era a qualidade reservada uma categoria de pessoas — os “dignitários” — antes de passar a ser uma condição inerente a todas as pessoas. “Soberania” era entendida como sendo um exclusivo do soberano, antes de passar a ser uma emanação da cidadania inteira.

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Mais recentemente, algo começou a acontecer a outra palavra, mas em sentido inverso. “Liberal”, que em tempos foi um sinónimo de “generoso”, tem estado a ser cada vez mais usado como se significasse “egoísta”. E o que é mais extraordinário, esse significado mais restrito e insolidário de liberal tem estado a ser sobretudo fomentado por alguns dos que mais estridentemente se proclamam liberais.

Vamos então por partes. Que liberal significou em tempos “generoso” é algo que não tem apenas a ver com o sentido original da palavra, ainda antes do século XVIII, por exemplo no sentido de “liberalidade” (ironicamente ou talvez não, a última vez que ouvimos essa palavra usada em Portugal foi para justificar uma oferta de milhões a um banqueiro). Os liberais políticos propriamente ditos, embora estivessem inicialmente mais ligados à defesa dos direitos cívicos e políticos do que dos direitos sociais e económicos, não só não se opunham à construção do estado social como foram dele alguns dos seus principais artífices. John Maynard Keynes, agora tão atacado pelos liberais dos últimos dias por ser um suposto “fazedor de deficits”, era um desses liberais no sentido generoso do termo, que não só não acreditava que os mercados se equilibrassem sozinhos como apoiava robustos gastos sociais a favor de habitação social, saúde e emprego público. O relatório Beveridge, que praticamente criou o estado social na Grã-Bretanha, tem o seu nome por causa do seu autor William Beveridge, político e economista do Partido Liberal britânico. Há muitos outros exemplos. Nos EUA e na Escandinávia, “generoso” continua a ser um sentido comum do termo liberal.

Duas coisas aconteceram. Por um lado, a emergência do socialismo empurrou o liberalismo da esquerda para o centro. Por outro lado, em países onde a tradição liberal se perdeu (como em Portugal ou no Brasil) uma geração recente de políticos e ideólogos decidiu-se apropriar-se do liberalismo como se ele fosse, já nem sequer de centro, mas simplesmente da direita esquerdofóbica e anti-socialista. São estes os defensores de um estado mínimo e, mais do que isso, de uma sociedade na qual a maximização da indiferença é suposta resultar em mais eficácia, crescimento e oportunidade. Em alguns casos, o círculo completa-se proclamando que qualquer redistribuição é roubo. O liberalismo assim já não é uma ideologia, mas antes uma caricatura daquelas pessoas que ao passar pela crise da meia idade decidem que o melhor que podem oferecer aos outros é a generosidade do seu egoísmo supostamente libertador.

Em Portugal surgiram pelo menos três partidos liberais nos últimos tempos, incluindo o novo de Santana Lopes, a acrescentar aos dois partidos de direita que já existem. As proclamações sobre libertar os indivíduos do estado são muitas e rebarbativas, ao mesmo tempo em que o PSD se parece inclinar para querer usar os dinheiros públicos para desmembrar o Serviço Nacional de Saúde e o CDS opta decididamente por defender a privatização da ferrovia. O que antes poderia ser eventual ponto de chegada, mais ou menos discutível, tornou-se agora o ponto de partida deste liberalismo enquanto egoísmo generalizado. Nenhum destes partidos parece lembrar-se do tempo em que liberal queria dizer generoso, e muito menos estar interessado em recuperar esse sentido para a sua ideologia. É triste, seja qual for a tradição ideológica a partir da qual observamos esta deriva.