Opinião

Uma voz para as vítimas

Se o objetivo é prestar uma homenagem aos que sofreram esse tipo de violência, não basta criar uma data comemorativa no calendário. Como primeiro passo, é preciso admitir que todo sobrevivente é igual, não importa sua orientação sexual ou status civil.

Este ano, por ocasião do aniversário do atentado contra a sua sede em Bagdad, a ONU presta homenagem, pela primeira vez, às vítimas de ataques terroristas. Quinze anos atrás, em 19 de Agosto de 2003, um homem-bomba respondendo a Zarqawi (mais tarde renomeado como ISIS), conduziu um camião de cimento contra o portão dos fundos do escritório da ONU no Iraque.

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Em poucos segundos, uma explosão letal de milhares de quilos de TNT reduziu a poeira o interior atapetado do nosso prédio, matando 21 dos meus colegas e ferindo centenas de outros. Preso nos escombros estava o meu companheiro Sérgio Vieira de Mello, brasileiro, que também era chefe das Nações Unidas no Iraque.

Sérgio era a pessoa mais experiente que a Organização poderia perder. Ele tinha inaugurado a novidade de “construção de nações” no Kosovo e em Timor-Leste (a história de sucesso da ONU), e também construiu créditos com refugiados em todos os grandes conflitos que definiram os últimos 30 anos.

A vida nas zonas de guerra é inimaginavelmente violenta. Timor-Leste em 1999, tal como o Iraque cinco anos depois, era como a Alemanha nos últimos meses de 1945. Encontrámos os dois países em ruínas: cortinas cerradas a meio do dia, toque de recolher, restrições de movimentos, alimentos pré-embalados. Se destruir é fácil, construir uma nova administração e serviços é dolorosamente extenuante.

Sérgio e eu tínhamos deixado os nossos Brasil e Argentina com apenas 18 anos em busca de valores significativos. Foi isso que nos uniu. O amor revelou a Sérgio uma nova força e sabedoria e um desejo profundo de começar de novo. Timor reiniciava-se. Aos 50 anos, ele sentiu que ganhara o direito a uma vida longe do fogo dos conflitos.

Um tempo depois, a guerra no Iraque começou. Por duas vezes, Sérgio recusou a designação para o Iraque antes de concordar com relutância, mobilizado por deferência à hierarquia. Ele aquiesceu sob a condição de que eu fosse oficialmente confirmada como parte da equipa. Eu já trabalhava em direitos económicos, com o foco nas mulheres. E, no entanto, Sérgio e eu conversámos sobre tudo. Ainda me lembro particularmente do momento, um mês antes de quando seria a nossa partida definitiva do país, e durante um raro sábado de descanso, quando soube que Kofi Annan tinha a intenção de nomear António Guterres de Portugal como substituto e sucessor do Sérgio em Bagdad.

Então o atentado aconteceu. Eu estava no mesmo prédio e não consegui tirá-lo e salvá-lo. Ele morreu sem mim enquanto eu sobrevivi ao ataque.

Após o ataque, expus publicamente as falhas de segurança, os problemas na investigação e outras injustiças cometidas.

O que ninguém prestou atenção foi que um novo capítulo definido por um crescente número de vítimas de terrorismo acabava de começar.

Depois da bomba que matou o meu companheiro, atrapalharam a minha evacuação para evitar que pudesse acompanhar o Sérgio, ou chegar a tempo para o seu velório, sob o pretexto de não sermos oficialmente casados.  Também expus as falhas na segurança e os problemas na investigação do atentado, mas fui ignorada.

Recentemente, a justiça corroborou a nossa união civil no momento de sua morte, atestando que, aos olhos da lei, éramos marido e mulher. Este é um evento novo e importante que o Ministério das Relações Exteriores do Brasil levou a sério e notificou as autoridades da ONU para que respeitem não apenas as instituições de seu país natal, mas a nacionalidade que ele manteve até o dia de sua morte. Esse reconhecimento é crucial porque, para quem sofre um ataque terrorista, naquele momento de vulnerabilidade extrema, quando se escapa dos destroços da violência e do horror, negar a existência da vítima, impedindo-a de dar vazão ao próprio luto, é o equivalente a esmagá-la uma segunda vez. O ditame foi para mim uma reivindicação do meu relacionamento com Sérgio, mas ainda hoje centenas de sobreviventes de terrorismo continuam a lutar para ter seus direitos reconhecidos. 

O terrorismo é uma estratégia cruel, que deixa cicatrizes profundas nos sobreviventes e nas famílias dos que pereceram. Se o objetivo é prestar uma homenagem aos que sofreram esse tipo de violência, não basta criar uma data comemorativa no calendário. Como primeiro passo, é preciso admitir que todo sobrevivente é igual, não importa sua orientação sexual ou status civil.

Quando se limita a definição de família a uma visão tradicional, ignoram-se as inúmeras combinações existentes numa sociedade moderna: as uniões civis e de pessoas do mesmo sexo, os casais sem filhos, as crianças sob os cuidados de pais solteiros ou de avós e tios. A melhor maneira de prestar um tributo real a quem sofreu e continua a sofrer esse tipo de violência é reconhecer a vítima e ajudá-la no processo de reconstruir a própria vida.

Um terrorista é desprovido de empatia, não enxerga a humanidade de seus alvos, um traço que não é incomum em ambientes devastados por conflitos violentos. As instituições internacionais deveriam afastar-se dessa característica. Enxergar o mundo em branco e preto, sem admitir a existência das várias nuances de cinzento que o compõem, é vê-lo com os olhos cegos do extremismo. Garantir a inclusão e o respeito pela diversidade ajudará a superar o ódio e a exclusão que alimentam o terror. Essa continuará a ser a melhor maneira de prevalecer sob a escuridão. Sérgio Vieira de Mello teria concordado com isso.

economista, era casada com Sérgio Vieira de Mello