Mercados

Trigo atinge preço mais elevado dos últimos três anos

As colheitas de cereais da Alemanha e Suécia já têm previsões e não são boas. A seca deverá levar entre 20% e 40% da produção de trigo. Os mercados internacionais já estão a antecipar redução da oferta
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DRO DANIEL ROCHA

Esta terça-feira, o valor de referência para o trigo de moagem atingiu máximos de três anos e meio, cotando durante a manhã nos 208,5 euros por tonelada na Euronext Paris.

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O alerta já vinha nas páginas do Financial Times de ontem: o preço do trigo, como matéria-prima agrícola cotada nos mercados internacionais está de volta à curva ascendente. Segundo o jornal britânico, a produção de trigo para moagem na Europa deverá recuar para um volume inferior a 130 milhões de toneladas, o que, a concretizar-se, é o nível mais baixo desde 2012.

Só na Alemanha - segundo maior produtor europeu e um dos sete maiores do mundo – avançou ontem o FT citando dados da consultora Stratégie Grains, a próxima colheita deverá cair para 20 milhões toneladas de trigo, o nível mais baixo dos últimos 15 anos.

Hoje, a Reuters avança com mais dados: a queda estimada na produção de todos os cereais de grão, na Alemanha, deverá ser de 20%. Segundo a associação de produtores alemães DBV, a seca e a onda de calor que está a varrer o Norte da Europa este Verão deverá deixar apenas 36 milhões de toneladas de cereais de grão nos campos para serem colhidos. E, no caso do trigo, os produtores só conseguirão colher 18 milhões de toneladas – o que representará, caso se materialize a previsão feita pela DBV – num corte de um quarto (25%) da campanha de 2017. Mais pessimista, portanto, que a previsão da Stratégie Grains para o FT.

De exportador a importador

Mais a Norte, a mistura entre falta de chuva e de humidade e as altas temperaturas vividas desde Junho deverá reduzir a produção de trigo na Suécia em 40% na próxima colheita – ou seja, explicou Mikael Jeppsson à Reuters, a evolução, negativa, poderá ser de 3,2 milhões de toneladas de trigo em 2017 para um intervalo entre 1,7 para 1,9 milhões de toneladas este ano.

Se as previsões de Mikael Jeppsson – director-geral da divisão de grãos da cooperativa agrícola sueca Lantmännen – acabarem por verificar-se, aquele país, tradicionalmente exportador de trigo, poderá transformar-se num importador. E se no caso da Alemanha a produção ainda não está preocupada com o trigo destinado a alimentos (principalmente pão), mas sim com as necessidades de cereais para as rações animais, na Suécia, a escassez desta matéria-prima agrícola poderá igualmente afectar a produção de biocombustíveis.  

A Suécia, contextualize-se, não é um grande produtor, em quantidade, de trigo – a oferta mundial é dominada pela Rússia, pelos EUA e Austrália no pódio dos exportadores. A Ucrânia, França, Argentina, Alemanha e Roménia – por esta ordem – são os restantes cinco maiores contribuintes para as exportações mundiais - que ascenderam a 173 milhões de toneladas em 2017, segundo o FT. E se actual campanha – que se iniciou na Suécia há 10 dias – está a ser pouco generosa na quantidade de trigo, também é a verdade, reconheceu Mikael Jeppsson à Reuters, que a qualidade do trigo já colhido é genericamente boa.

Mas as previsões pessimistas do gigante agrícola Lantmännen são extensíveis a outras culturas. A colheita de todos os cereais de grão e oleaginosas irão cair, previsivelmente, para o valor mais baixo dos últimos 25 anos - face a uma produção de 6,5 milhões de toneladas em 2017, e uma média do quinquénio de 6,2 milhões de toneladas, a estimativa deste ano é de 4,2 milhões de toneladas.

Os apoios à produção

Na Suécia, o Governo avançou já que irá orçamentar cerca de 1,2 milhões de coroas suecas (cerca de 116,86 mil euros ao câmbio actual) para financiar medidas de apoio aos agricultores atingidos pela seca, este ano e no próximo. O que a ministra das Finanças sueca, Magdalena Andersson, chamou esta semana de “pacote nacional de crise para os agricultores suecos”, de acordo com a Reuters, visa sobretudo subsidiar primeiro os encargos com a alimentação animal e só depois a perda de rendimento dos produtores agrícolas.

Na Alemanha, o movimento é semelhante, mas mais cauteloso por parte do executivo. Face ao pedido - de mil milhões de euros - feito pelas associações de agricultores como forma de apoio para enfrentar a diminuição previsível da próxima colheita cerealífera, Berlim espera para ver. Especificamente, espera para ler o próximo diagnóstico de previsões agrícolas deste mês de Agosto.