Diplomacia

Cutileiro, o diplomata que percebeu Mandela antes dos outros

Nos 100 anos do nascimento de Nelson Mandela, fomos ouvir diplomatas e políticos portugueses que acompanharam o fim do apartheid. Uma história de instintos, tensões e diplomacia na corda bamba. E de um embaixador com ideias diferentes.
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Um mês depois de aterrar na África do Sul como embaixador de Portugal, José Cutileiro enviou um telegrama secreto para o gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros em Lisboa. Se o gesto era normal, a mensagem de banal não tinha nada.

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Em 1989, viviam na África do Sul meio milhão de portugueses, muitos deles fugidos de Angola e de Moçambique com a roupa que tinham no corpo e uma convicção: tinham sido abandonados por Lisboa. Por essa razão — mas não só —, tudo o que a diplomacia portuguesa fazia na África do Sul era executado com pinças.

Como a maioria, Portugal era contra o apartheid. Mas era, ao mesmo tempo, um dos raros países europeus que votavam contra as sanções para asfixiar o regime. Isolados, os líderes sul-africanos tinham pouquíssimos interlocutores na Europa. Lisboa, que via o diálogo com Pretória como vital, era um deles. O objectivo era defender três “interesses nacionais”: Angola, Moçambique e a comunidade portuguesa na África do Sul. “Era um equilíbrio entre a defesa dos nossos princípios e a defesa dos nossos interesses”, diz ao PÚBLICO Aníbal Cavaco Silva, então primeiro-ministro. Uma diplomacia na corda bamba? “Naquela altura, naquelas circunstâncias, é uma imagem correcta. É realpolitik”, diz com um sorriso, o único numa hora de entrevista no seu gabinete no antigo Convento do Sacramento, em Lisboa.

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Quando José Cutileiro chegou à África do Sul, Mandela estava preso e o ANC ilegalizado David Clifford

No ano em que o embaixador Cutileiro chegou à África do Sul, o Congresso Nacional Africano (ANC), que combatia o apartheid há meio século, ainda estava ilegalizado e os seus líderes estavam presos (como Nelson Mandela e Walter Sisulu) ou exilados em Londres (Oliver Tambo) e em Lusaka (Thabo Mbeki). Já havia sinais de mudança mas, na televisão, o ministro dos Negócios Estrangeiros sul-africano, “Pik” Botha, repetia a frase “na África do Sul nunca haverá o sistema um homem-um voto”.

É neste cenário que, em Maio, um mês depois de chegar ao novo posto, José Cutileiro propõe uma mudança radical na abordagem da diplomacia portuguesa. A sua ideia — falar com os negros da oposição sul-africana — parece hoje natural e lógica. Mas há 30 anos chocou parte da comunidade portuguesa local e preocupou parte do governo português. Segundo vários diplomatas ouvidos e muitas dezenas de telegramas secretos da época lidos pelo PÚBLICO, essas pontes vieram, no entanto, a ser úteis à integração dos portugueses na África do Sul democrática nascida em 1994 e à relação próxima estabelecida com Nelson Mandela.

Não é por acaso que, depois de 27 anos na prisão, Mandela encontrou tempo para receber o embaixador Cutileiro a 28 de Fevereiro de 1990, mal foi libertado — exactamente 17 dias depois.

O telegrama n.º 244

Em Maio de 1989, quando Cutileiro envia o telegrama 244 para João de Deus Pinheiro, ministro dos Negócios Estrangeiros, ainda faltam nove meses para Mandela sair da prisão Victor Verster, perto da Cidade do Cabo. A sua proposta para mudar a atitude oficial portuguesa na África do Sul é apresentada em quatro pontos escritos em duas páginas de letras maiúsculas, como é habitual na correspondência diplomática. “Neste país os dados estão lançados”, escreve Cutileiro ao abrir o telegrama de balanço do primeiro mês em Pretória. “Um homem-um voto num Estado, mais ou menos federalista, mas único, será a estrutura constitucional dentro de alguns anos. A relação de forças já é clara: à saída [da cerimónia de entrega] das minhas credenciais [como embaixador], pensei que a pessoa que deveria ir ver logo a seguir, por representar o único poder real além do poder afrikans, seria o Senhor Nelson Mandela. O facto de não saber quanto tempo a transição demorará não nos pode distrair do essencial. Primeiro, porque em vez de muitos, poderão ser poucos anos. Segundo, porque a maneira como agirmos durante esses anos será da maior consequência para os nossos interesses futuros.”

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Telegrama enviado por Cutileiro para João de Deus Pinheiro, ministro dos Negócios Estrangeiros, em Maio de 1989 Arquivo Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros

A seguir, Cutileiro recomenda “medidas elementares” e anuncia — usando o clássico “salvo instruções contrárias de Vexa [Vossa Excelência]” — as duas coisas que vai fazer “desde já”: “alargar os contactos” da embaixada às “organizações da oposição extraparlamentar”, ou seja, aos negros; e “proibir os funcionários de embaixada, consulados e ICEP de participarem em actividades político-partidárias” do regime sul-africano, como comícios, sessões de esclarecimento e festas de angariação de fundos, sem a sua autorização prévia.

No dia em que Cutileiro envia este telegrama, Mandela está não só longe de ser libertado, como mais longe ainda de ser Nobel da Paz e a cinco anos de tomar posse como o primeiro Presidente da África do Sul democrática. “Cutileiro viu antes dos outros”, diz ao PÚBLICO João da Câmara, hoje embaixador em Nova Deli e que, em 1989, como jovem diplomata de 30 anos, era terceiro-secretário na embaixada de Portugal em Pretória. “Foi um pioneiro e um protagonista da mudança. Mesmo com os reparos de Lisboa, não deixou de fazer o que sentiu que tinha de ser feito.”

O “reparo” de Lisboa

O embaixador Álvaro Mendonça e Moura, então número dois em Pretória e hoje secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), lembra-se do “reparo” como se fosse hoje: “Digamos que Lisboa nos chamou à atenção em termos que não são muito vulgares. É uma coisa pequenina basicamente dizendo-nos: ‘Chega.’ É um telegrama do director político e a mensagem subjacente é: ‘Estão a ir longe de mais’.” Ao telefone, a partir da Índia, João da Câmara reforça: “Lembro-me bem desse telegrama. Dizia que limitássemos aos mínimos os contactos com a oposição negra. O Cutileiro ficou furioso. O que nós estávamos a fazer era só, e simplesmente, o que todas as outras embaixadas estavam a fazer. Até os ingleses e os americanos, que eram muito amigos do regime. Era uma patetice que fôssemos desaconselhados a fazer contactos com quem ia ser governo — era apenas uma questão de tempo.”

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O telegrama que continha o raspanete de cinco linhas Arquivo Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros

Também ao telefone, mas em Bruxelas, onde vive há anos, Cutileiro ouve a pergunta e hesita por um momento. “Não me lembro de todo”, diz ao PÚBLICO. “Nem desse telegrama, nem de nada que alguma vez me tenha impedido de fazer o meu trabalho. Houve alguma preocupação, algum incómodo da parte do primeiro-ministro Cavaco Silva, mas o Deus Pinheiro foi sempre impecável.”

O raspanete de Lisboa foi enviado para Pretória a 23 de Agosto de 1989 e tem de facto apenas cinco linhas. É assinado por José Maria Shearman de Macedo, na altura director-geral de Política Externa do MNE: “Contactos tipo descrito Vexa devem ser efectuados forma discreta e espaçada”, diz a primeira instrução para Cutileiro. “E mensagem a transmitir seus interlocutores deve reflectir nossa conhecida posição moderação.” A terminar: “Conviria sobretudo continuar a evitar-se dar ideia houve mudança substancial posição Governo português quanto a opositores esse regime.”

A 30 anos de distância, João da Câmara resume o mood da época: “No ministério, a questão não era não verem a mudança que estava a acontecer na África do Sul; era não quererem a mudança. Muitos achavam que na nossa embaixada havia uns perigosos comunistas que ‘agora só falam com o ANC’.”

Primeiros contactos com negros

José Cutileiro tinha 55 anos quando aterrou como embaixador na Cidade do Cabo. Chegou “sem uma ideia preestabelecida: ia ver”, conta. Desfez as malas e instalou-se. Os anos anteriores tinham sido intensos: fora embaixador em Moçambique, director-geral dos Assuntos Político-Económicos no MNE, negociador da adesão de Portugal à União da Europa Ocidental e a seguir da renovação do acordo com os EUA para a utilização da Base das Lajes, nos Açores. “Na manhã a seguir a chegar a Cape Town, sentei-me à beira da piscina e pensei: que bela vida aqui vou ter!”

Hoje com 83 anos, Cutileiro conta o episódio como quem diz uma anedota. Descansar foi coisa que nem ele nem ninguém à sua volta fez naqueles meses históricos de transformação. “Mas pouco depois tornou-me evidente o que ia acontecer. Se não se vivesse num casulo, era evidente que o Mandela ia ser libertado rapidamente e era evidente que aquilo tinha acabado. O fim do apartheid ficou escrito a partir do momento em que se percebeu que a União Soviética estava a desmoronar-se e a Guerra Fria a acabar. O Muro de Berlim caiu sete meses depois. Se queríamos tratar do futuro, tínhamos de falar com os negros.”

O embaixador fez uma lista dos activistas que faziam oposição ao regime racista de Pretória e começou a visitá-los. “Simplesmente fui ver e ouvir pessoas que achei que era importante ver e ouvir e que a embaixada não costumava ouvir. Sei isso porque o meu motorista ia dizendo que nunca tinha ido àqueles lugares. Mas não me dei conta de estar a fazer nada de particularmente diferente, até porque o Álvaro Mendonça e Moura, que tinha sido encarregado de negócios durante uns meses antes de eu chegar, já tinha percebido tudo e já tinha feito algumas coisas”, conta. Deixar “Tokyo” Sexwale feliz fora uma delas.

Futebol português na prisão

“Um dia, já Mandela tinha sido libertado, estava eu numa sala à espera para ser recebido por ele, quando sai lá de dentro um homem grande, com ar de atleta, que vem ter comigo e pergunta: ‘O senhor é o embaixador de Portugal?’ Eu disse que sim e ele: ‘Queria agradecer-lhe muito a cassete que vocês mandaram do jogo em que o FC Porto ganhou a Taça dos Clubes Campeões Europeus [1986-87] contra o Bayern Munique! Aquilo foi uma maravilha na prisão, uma grande ajuda! Muito obrigado.’” Cutileiro ri-se e conclui: “Tinha sido o Álvaro Mendonça e Moura. E aquilo, uma coisa tão simples, fez subir a quota de Portugal milhares de andares na hierarquia do ANC!” Mosima “Tokyo” Sexwale, que nos anos 2000 viria a ser ministro e a seguir a fundar a Mvelaphanda Holdings, cotada na Bolsa de Joanesburgo, foi libertado de Robben Island em 1990, meses depois de Mandela e após 13 anos de prisão, condenado por “terrorismo e conspiração” contra o regime. “O Álvaro fez coisas”, insiste Cutileiro. “Antes dele, penso que não. Mas antes de mim, os embaixadores não tinham tanta pressão: a ideia era a de que o apartheid ia durar para sempre.”

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Álvaro Mendonça e Moura era o número dois em Pretória Miguel Manso

José Manuel Villas-Boas, o embaixador anterior (e ex-número três e número dois em Pretória entre 1959 e 1963), percebeu que as coisas iam mudar? “A mudança é com Cutileiro”, responde sem hesitar Mendonça e Moura, que chegara em 1985 e trabalhou com ambos. “Mas é preciso ver que Villas-Boas sai em 1987 e é depois da sua saída que se dá o derrame cerebral do Presidente P.W. Botha [Janeiro de 1989] e se acelera a evolução. São tempos diferentes. Vindo de fora, com distância, e tendo sido embaixador no Maputo, Cutileiro percebe que P.W. Botha está fora, que há um novo líder, Frederik de Klerk, e que isto vai mesmo mudar. Não é inspiração divina. Este é também o momento em que se intensificam os contactos do regime do apartheid com a oposição negra”, diz o hoje secretário-geral do MNE, no seu gabinete no Palácio das Necessidades.

Sem esperar pela anuência de Lisboa, a embaixada portuguesa em Pretória — talvez a única que, na Primavera de 1989, quase não tinha contactos com a oposição negra — põe o novo plano em marcha.

“Solteiro e bom rapaz”

Cada diplomata assume um papel distinto. Conta João da Câmara, então o mais novo da equipa: “O Cutileiro chamou-me e disse: ‘Temos de estabelecer relações com os partidos da oposição. Veja se consegue contactos com os seus amigos das outras embaixadas’.” Antes de prosseguir a história, o agora embaixador na Índia apressa-se a fazer um esclarecimento: “Mas não fui eu que abri os contactos com o ANC. O Cutileiro percorreu a oposição ao nível dele e achou que precisava de ir às bases, aos quadros mais novos, e pediu-me para contactar ‘pessoas diferentes’.” Em 1989, João da Câmara — mais tarde director do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) — era “solteiro e bom rapaz”, brinca Mendonça e Moura, “e isso deu-nos muito jeito!”. “Queríamos chegar aos militantes e aos activistas da oposição e o João abraçou a causa de alma e coração. Era ele quem ia aos comícios e às manifestações da oposição. Nós precisávamos de alguém que fosse beber umas cervejas com eles, que fosse para os copos com eles, que fosse dançar com eles, que percebesse como era aquilo por dentro. O João estabeleceu óptimas relações, que foram utilíssimas, porque começámos a perceber muito melhor a palpitação do país. Estamos em 1989, quando já era público que o governo está a negociar com o ANC no exílio, mas o ANC continua ilegalizado.”

Recebidas as instruções, João da Câmara foi falar com colegas das embaixadas da Austrália, Reino Unido, França, Canadá e EUA. Uma das primeiras pessoas que conheceu no movimento anti-apartheid foi Gadija Vallie, uma advogada indiana que trabalhava num escritório de advogados de Mandela. “Foi através da Gadija Vallie que conheci o Trevor Manuel, depois ministro das Finanças e da Economia [e actual ministro da Presidência], o Chris Hani, secretário-geral do Partido Comunista que viria a ser assassinado, a Winnie Mandela e outros activistas”, conta. “Os contactos eram muito fáceis, como acontece quando as pessoas estão na oposição e não têm sequer expectativa de ir para o poder.”

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O Primeiro-Ministro Antonio Costa conversa com o embaixador português na India, João da Câmara, após a homenagem no memorial Mahatma Gandhi no primeiro dia da visita de Estado, 07 de janeiro de 2017 em Nova Deli, India TIAGO PETINGA/LUSA

Da equipa de Pretória, todos se lembram bem dessas conversas iniciais. Do primeiro encontro com Gadija Vallie, o embaixador Câmara recorda duas coisas em particular: a sua abertura em falar com a embaixada de Portugal e a sua desconfiança em relação à comunidade portuguesa. “O ANC via a comunidade como estando muito próxima do partido no poder, muito pró-regime — e via isso como um problema.” Em poucos meses, além de dar nas vistas no congresso do Pan Africanist Congress (PAC), porque era praticamente o único branco a assistir, tornou-se o diplomata que, nas reuniões do ANC, “já todos conheciam”. Nessa altura de incerteza, os britânicos, “que pareciam ter informação mais privilegiada”, valorizavam sobretudo o PAC e a organização de Steve Biko, que eram mais radicais do que o ANC. “Diziam-nos que esses eram os partidos que iam ter votações mais expressivas quando houvesse eleições democráticas nas quais os negros pudessem votar. Nós não sabíamos. O que víamos era que o ANC tinha brancos, mestiços e indianos, e que era mais abrangente e mais moderado. Mas não era só eu que tinha contactos com os movimentos negros”, sublinha Câmara. “Todos na embaixada começámos a ter.”

A história do telefonema que Mendonça e Moura fez a Murphy Morobe, hoje porta-voz da associação dos veteranos do ANC e na altura um jovem activista anti-apartheid que estivera preso com Mandela em Robben Island mas fora libertado em 1982, é contada por João da Câmara como prova material: “Já era tarde quando o Álvaro Mendonça e Moura lhe telefona. O Morobe atende e à pergunta ‘Mr. Morobe…?’, ele responde: ‘Sleeping.’ Sleeping em vez de speaking...

Às vezes, conta José Cutileiro sobre este início dos contactos, “como era a primeira vez que falavam com um embaixador de Portugal, perguntavam-me se estava ali sob instruções do meu governo. Eu simplesmente dizia que era embaixador de Portugal e, naturalmente, falava em nome do meu país.”

Cutileiro responde ao “reparo”

A 29 de Agosto 1989, seis dias depois de ler o telegrama de Lisboa indicando que os contactos com a oposição ao apartheid devem ser “espaçados”, Cutileiro responde ao MNE. O telegrama, “urgente” e “secreto”, é breve e segue apenas para o Serviço da África Subsariana, já não para o ministro:

“Muito agradeço instruções Vexa. Conviria esclarecer seguinte.

1. Contactos referidos fazem parte variedade encontros chegada posto venho efectuando com figuras direita, centro e esquerda cena política e religiosa, com militares, homens de negócios, académicos, intelectuais, jornalistas, etc. Ditos contactos — apenas aqui evitados por embaixadas Chile e Paraguay [sic] — são necessários compreensão RAS [República da África do Sul], cautelares futuro comunidade luso-sul-africana e indispensáveis nossa credibilidade potência interventora região.

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A resposta de Cutileiro ao MNE Arquivo Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros

2. Como é óbvio, uso esses contactos — e os outros que aqui mantenho — para tornar conhecida e respeitada nossa posição. É importante que meus interlocutores saibam que governo português pratica e advoga política coerente e bem fundamentada em relação este país — quer concordem com ela, quer não. Nomeadamente que Portugal abomina o apartheid mas abominaria igualmente colapso económico e opressão política que uma revolução leninista aqui provocaria. Por isso nos opomos a sanções económicas mas — quer directamente quer quadro CEE — faremos o que estiver ao nosso alcance para ajudar transição pacífica RAS Estado Direito pós-apartheid.

a) Cutileiro.”

João de Deus Pinheiro, ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1987 e 1992, não se lembra nem desta troca de telegramas, nem de qualquer atrito entre o ministério e a embaixada. “Normalmente, não era o ministro que fazia os telegramas, mas sim o director Político ou o secretário-geral do MNE. Eu via-os, mas não era eu que respondia. Conhecendo o Cutileiro, raspanetes não estou a ver. Acho aliás muito estranho, porque nessa altura o director Político era o diplomata que tinha sido seu subdirector — o Shearman de Macedo. Não estou a ver o Zé Maria Shearman a dar raspanetes ao Zé Cutileiro nem nada que se pareça. Não sei se algum dos secretários de Estado terá tido alguma influência nessa resposta. O Cutileiro era um homem que eu respeitava profundamente. Nunca tivemos nenhum conflito. Quando muito, o ministério deve ter dito qualquer coisa do tipo: ‘Cuidado, isto é um terreno movediço'.”

Cavaco Silva também não se lembra nem de enviar reparos nem de receber protestos da comunidade portuguesa contra a nova política de aproximação da embaixada aos movimentos negros sul-africanos, vistos por muitos como “perigosos comunistas”. “O Cutileiro era um embaixador com quem eu gostava de falar. É um diplomata extraordinário, sabe? Ele é um pensador”, diz o ex-primeiro-ministro. “O que me lembro bem é de começar a dar instruções claras aos embaixadores para preparar a comunidade portuguesa para uma mudança de regime.”

“Peculiaridades monstruosas”

Junho de 1989 é, na sua leitura dos acontecimentos, o momento em que o Governo português passa a olhar para a África do Sul com outros olhos. “Os sul-africanos não eram recebidos em praticamente nenhum país europeu”, conta Cavaco Silva, que, aos 78 anos, está a escrever o segundo volume das suas memórias políticas. “Em 1989, decidi receber De Klerk, se calhar porque a informação que me tinha chegado do nosso embaixador em Pretória era a de que ele podia ser um homem diferente, porque esses telegramas são enviados ao primeiro-ministro — e eu era uma pessoa que lia todos os telegramas.” Desde a chegada de Cutileiro, em Abril, a embaixada enviara para Lisboa mais de 100 telegramas, quase todos políticos.

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Cavaco Silva, aos 78 anos Nuno Ferreira Santos

Logo a 11 de Maio, o novo embaixador envia três longos relatórios sobre o primeiro encontro de De Klerk com os representantes dos Doze (então, o número de Estados-membros da CEE, antecessora da União Europeia). De Klerk “pareceu muito à vontade e seguro de si, criando rapidamente atmosfera bastante amigável que marcou contraste profundo com imagem e ambiente tantas vezes rodeia actual chefe Estado”, conta Cutileiro, na primeira de nove páginas. O retrato que faz é o de um país em mudança. Deste primeiro almoço, Cutileiro ressalta “dois pontos com particular nitidez: novo líder nacionalista compreendeu que será insustentável para sua futura liderança manutenção actual impasse nas discussões com líderes negros e pretende passar, como ele próprio afirmou, da fase de conversações dispersas para negociações propriamente ditas”. Estando o partido a “baloiçar entre o reconhecimento da urgência e inevitabilidade de mudanças e o medo de perder a sua base de apoio e, pura e simplesmente, a oposição a reformas”, De Klerk “representará uma evolução positiva em relação paralisia política aqui se verifica”.

O segundo ponto é mais sombrio: “Sr. F.W. De Klerk continua a tomar como base [de] todo [o] sistema a existência de grupos diferenciados numa base rácica.” E acrescenta: “Se nacionalistas vão negociar com líderes negros [que] lhes estão mais próximos, deixando de fora aqueles que são realmente representativos na esperança [de] evolução processo [que] obrigue estes a reconsiderar, encaminhar-se-ão para situação em que conflitos se irão agudizar. […] Quanto aos verdadeiros interlocutores com os quais Governo terá de negociar um dia problemas deste país, teremos ainda de assistir a diversas tentativas de os marginalizar antes que Governo reconheça inevitabilidade de com eles se entender. a) Cutileiro.”

Minutos depois, segue terceiro telegrama. Numa análise mais macro, o embaixador expõe duas ideias:

“1. Primeiro encontro com chefe Nacionalistas e futuro Presidente deixou-me impressão haveria vantagem ter rapidamente contacto directo estadistas países ocidentais, os quais seriam porventura politicamente mais fáceis antes assunção altas funções lhe estão destinadas. Com efeito, Senhor De Klerk — nado e criado num ambiente solidamente afrikaans — parece considerar passos até agora dados Governo sul-africano direcção desmantelamento apartheid muito mais significativos do que nos parecem a nós. Além disso continua a chamar dirigentes UDF e ANC ‘radicais’, como se aqueles representassem franjas ideológicas desprezíveis — estatística e moralmente — da população. Não parece, por fim, compreender que governo só ganhará tempo e terreno com libertação Mandela se for para considerar este [um] interlocutor privilegiado [no] debate constitucional. Imagem de Mandela solto e Governo insistindo em discutir o futuro do país com os chamados ‘moderados’ negros confrange pela falta de realismo político.

2. É claro que salutares lições alguns estadistas ocidentais não deixariam de querer dar a Senhor De Klerk sobre o que seria ou não aceitável como regímen político na África do Sul […] não iriam alterar convicções profundas chefe Partido Nacionalista. Mas talvez o ajudassem perspectivá-las quadro mais amplo do que o fornecido pelas peculiaridades mais ou menos monstruosas que aqui passam por ordem natural das coisas.”

“Saia. A porta é ali…”

Dos quatro candidatos à sucessão de P. W. Botha, De Klerk “era o mais ortodoxo e, a priori, o menos disponível para uma evolução positiva”, diz Mendonça e Moura. “Os candidatos eram o ministro do Desenvolvimento Constitucional, que queria fazer evoluir o regime mas não sabia como; o ministro das Finanças, o mais novo e considerado o mais liberal; ‘Pik’ Botha, que era ministro dos Negócios Estrangeiros mas tinha algo de leve, de bon vivant, de menos sólido, e De Klerk, que era ex-líder do Partido Nacionalista no Transvaal, onde o partido era mais duro.” A sua ascensão não permitia leituras simplistas: “Era o homem que mais dificuldades tinha colocado a P.W. Botha em relação a ideias de evolução, mas também era o homem mais poderoso do partido — e nada como um radical de esquerda para fazer evoluir um regime à direita ou um radical de direita para fazer evoluir um regime à esquerda. É uma regra perene em política.”

Não é por isso de admirar que, em vésperas de receber De Klerk em São Bento, a atitude de Cavaco Silva fosse de prudência. “Não conheço De Klerk, vou tentar apurar, posso estar um pouco de pé atrás…”, conta o ex-primeiro-ministro ao PÚBLICO. Ainda no mês anterior, a França e o Reino Unido, um dos raros “amigos” que Pretória tinha na Europa, haviam expulsado seis funcionários das embaixadas sul-africanas em Paris e Londres, acusando-os de envolvimento em tráfico de armas para o movimento terrorista da Irlanda do Norte.

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"Pik" Botha, ministro dos Negócios Estrangeiros da África do Sul nos últimos anos do apartheid, teve reuniões duras com homólogo português DR

Além disso, com o Presidente Botha, “que era um autocrata, um homem muito arrogante”, “nunca conseguimos ter boas relações”, diz Cavaco Silva. Pelo contrário: “Foram relações muito difíceis. Em 1987, escrevi-lhe uma carta, foi o [então secretário de Estado das Comunidades Portuguesas] Durão Barroso que a levou, sobre Nelson Mandela, à qual ele respondeu de uma forma violenta e disse que, tal como os outros líderes europeus, eu era ‘um ignorante’, ‘desconhecia a situação’ e ‘não percebia nada do que se passava na África do Sul’. Ele usou mesmo a palavra ‘ignorante’!”

No ano seguinte, numa passagem por Lisboa, coube ao ministro Deus Pinheiro ir buscar Botha ao aeroporto e acompanhá-lo até São Bento. “Ao longo de todo o trajecto, devo ter trocado umas dez palavras com ele… E eu falo relativamente bem inglês, não seria por isso”, conta Deus Pinheiro. “O encontro com o primeiro-ministro foi duríssimo: Cavaco a dizer que eles tinham de libertar Mandela, que Mandela não podia continuar preso, que fazer de Mandela um mártir era o pior que podia acontecer para o futuro da África do Sul; Botha a dizer a Cavaco que ele não sabia nada de África nem da África do Sul; e Cavaco, com aquele feitio dele, encrespado mas sem querer mostrar, a insistir que eles tinham de libertar Mandela. Foi um encontro como eu nunca assisti na minha vida entre dois estadistas.”

Mesmo com “Pik” Botha, bon vivant e visita frequente das festas da comunidade portuguesa na África do Sul, a relação era tensa. “Tive reuniões com o ‘Pik’ Botha absolutamente delirantes”, diz Deus Pinheiro. “Numa, em 1986 ou 1987, no MNE, ele ameaçou sair da sala e eu disse: ‘Saia. A porta é ali, está a ver…?’ Claro que não saiu. Ele recusava admitir que os sul-africanos estavam em Angola e nós tínhamos informação da nossa intelligence a garantir o contrário. Em Moçambique, era mais um apoio logístico à Renamo, mas em Angola era mesmo com tropa que os sul-africanos lá estavam a apoiar a UNITA, eram mercenários pagos pelos sul-africanos e soldados sul-africanos que eles mascaravam de mercenários. Era um choque cada vez que nos encontrávamos.”

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“Tive reuniões com o ‘Pik’ Botha absolutamente delirantes”, diz hoje Deus Pinheiro Rui Gaudêncio

Cavaco acredita em De Klerk

De Klerk era ainda ministro da Educação de P. W. Botha, mas já líder do Partido Nacionalista e candidato a Presidente, quando entra em São Bento a 24 de Junho de 1989. “E promete três coisas: ‘Eu libertarei o Mandela, eu vou pôr fim ao estado de emergência e eu vou trabalhar para a reconciliação e para criar uma democracia multirracial.’ Gostei de ouvir. Ele convenceu-me da sua boa-fé. Falámos muito e construímos uma relação, que se mantém até hoje — ainda há pouco me escreveu”, diz Cavaco Silva.

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Cavaco Silva num dos encontros com Frederik de Klerk, presidente da África do Sul DR

Em 1990, já como Presidente, De Klerk volta mais duas vezes a Portugal. “Nessa altura, falávamos muito ao telefone e ele dizia: ‘Peço a sua ajuda para convencer os seus colegas do Conselho Europeu de que eu irei fazer isto e isto, e que me dêem algum tempo. Eu preciso de algum tempo.’ Nos Conselhos Europeus e em reuniões bilaterais, falei várias vezes sobre De Klerk. Eu dizia: ‘Ele é o homem certo.’ Mas havia um grande cepticismo entre os líderes europeus. Levou tempo até acreditarem que ele era o homem que podia mudar. Penso que levou anos.”

É com base nos telegramas que recebia de Pretória, mas sobretudo naquele primeiro encontro, quando ganha “a convicção profunda de que De Klerk era o homem certo”, que se dá uma “mudança da atitude portuguesa”, diz Cavaco Silva. “Presumo que o convencimento de que haverá um desmantelamento do apartheid pela via da negociação se dá depois desta visita de De Klerk.”

“Era a União Soviética!”

Parece difícil reconstituir o exacto momento em que os dois lados — diplomatas e governo em Lisboa e diplomatas em Pretória — ficam em sintonia. Para quem estava no terreno, “foi preciso explicar para Lisboa”, como diz o embaixador Mendonça e Moura. Esta é a sua síntese: “A embaixada teve o mérito de fazer o papel que lhe competia: alertar Lisboa. Não podia ser Lisboa a alertar a embaixada. Às vezes isso acontece, mas é absolutamente dramático, é um atestado de incompetência. Para além do enorme prazer de ter trabalhado com Cutileiro, acho, com satisfação, que fizemos o que éramos pagos para fazer. Quem estava lá tinha uma visão mais aberta do que quem estava cá. Isso é claro e é normal: víamos as coisas evoluir mais depressa. Cá, estavam ainda numa visão muito macro — mas a ficar ultrapassada —, de Guerra Fria. ‘Quem é o ANC?’, ‘Quem é o regime branco?’, ‘Quem são os amigos do ANC?’ Eram as perguntas que nos faziam de Lisboa. No fundo, o ANC eram os comunistas. Quem eram os aliados do ANC? Não era a América do Ronald Reagan. Não era a Inglaterra da senhora Thatcher. Era a União Soviética!”

Enquanto Lisboa fazia perguntas, nos escritórios de Pretória e da Cidade do Cabo, os três diplomatas portugueses prosseguiam a nova estratégia: contactar os líderes negros num país onde os negros não podiam votar mas que, na sua perspectiva, iriam em breve ter o poder. “Visitei ontem reverendo Frank Chikane, secretário-geral Conselho Igrejas África do Sul”, diz Cutileiro a 11 de Agosto de 1989, sobre o activista negro que estivera preso no passado e que, no fim desse ano, fora alvo de uma tentativa de assassinato através de um plano que teve tanto de caricato quanto de complexo, incluindo coser a sua roupa interior com um veneno mortal — em 2007, cinco homens do aparelho de segurança do tempo do apartheid foram condenados a dez anos com pena suspensa pelo crime. Um deles era Adriaan Vlok, que em 1989 era ministro da Polícia do Presidente De Klerk. “Encontrei-me ontem com Senhor Azhar Cachalia, advogado, dirigente UDF”, informa Cutileiro a 18 de Agosto, referindo-se ao advogado indiano que poucos anos antes estivera preso e fora banido da Universidade de Wits, em Joanesburgo.

É cinco dias depois do encontro com Cachalia que o protesto de Shearman de Macedo chega à embaixada de Pretória. Cutileiro lê e ignora a instrução. “Devo ter interpretado à minha maneira... E continuei a fazer todos os contactos que achei necessários. Lisboa não tinha estratégia. Estava à espera de ver o que ia acontecer.” Anos mais tarde, António Valente, um diplomata seu amigo que nessa altura estava na assessoria diplomática no Palácio de Belém, disse-lhe qualquer coisa como “aqueles seus telegramas de quando chegou a Cape Town não seguiram pelos canais normais de distribuição porque iam assustar muita gente”. Ainda hoje isso lhe causa espanto: “Era absurdo, era cegueira voluntária, era curteza de vistas. Naquela altura, até a senhora Margaret Thatcher já tinha reconhecido o ANC, que já tinha um escritório em Londres, embora fosse ilegal na África do Sul. Quando lhe perguntaram porque é que autorizara isso, sendo o ANC ‘terrorista’ como os irlandeses do IRA, ela respondeu: ‘It’s different, they have the vote.’ Normalmente, não recebemos instruções de Lisboa. Vamos fazendo as coisas e no fim escrevemos qualquer coisa como ‘salvo instruções em contrário’. Foi o que fizemos.”

Em Outubro, 12 dias depois da libertação de Sisulu, preso durante quase três décadas, Cutileiro já está a conversar com ele. “Eu próprio visitara de manhã, em sua casa, Senhor Walter Sisulu, que me impressionou pela moderação, equanimidade, falta de amargura e, até, sentido de humor com que encara situação do país e sua própria”, escreve, en passant, no fim de um telegrama de 27 de Outubro de 1989. Antes da libertação, Cutileiro visitava Albertina Sisulu, mulher do activista, com frequência. E entendiam-se: “Um dia começámos a discutir as sanções e a conversa aqueceu a um ponto que eu pensei: ‘Ela vai pôr-me na rua.’ Mas em vez disso bateu-me com a mão no ombro e disse: ‘Ok my friend, do something about the death penalty’.

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Olhando para trás, o ministro Augusto Santos Silva, actual chefe da diplomacia portuguesa e que, em 1989, era um jovem académico (professor auxiliar da Faculdade de Economia do Porto), diz que “hoje é claro que a actuação do embaixador José Cutileiro foi notável”: “Teve a inteligência de perceber a tempo o que ia acontecer e teve a coragem de assumir uma ruptura e, ainda mais notável, fazer essa mudança numa altura em que, por todos os critérios, saberia que iria estar mais por sua conta. Já há estudos sobre o que era a política externa conduzida pelo primeiro-ministro Cavaco Silva que explicam bem que não era propriamente uma política que estimulasse pensar fora da caixa, ter grandes rasgos ou capacidade de antecipação. Compreendo bem que a actuação mais determinada do embaixador Cutileiro tivesse gerado anticorpos no Ministério dos Negócios Estrangeiros porque, tirando os dossiers específicos de Angola e Moçambique e outros países de língua portuguesa, o MNE não era sensível a pensar fora da caixa.”

Na leitura de Mendonça e Moura, uma das ideias novas de Cutileiro, além da aproximação à oposição negra, foi a forma de olhar para a comunidade portuguesa: “A defesa da nossa comunidade passava por conseguir que ela viesse a conseguir integrar-se na futura África do Sul. Esse é que foi o clique. A preocupação com a comunidade era a mesma. A maneira como a defendíamos é que passou a ser diferente. O que nós não queríamos — mas quem fez a mudança foi o Cutileiro, não fui eu — era que a comunidade não percebesse a dinâmica. Era fundamental, para os defender, que a comunidade percebesse que aquilo ia mudar. Estamos a falar de um governo do professor Cavaco Silva, mas quando falávamos da mudança que ia acontecer no país, várias vezes ouvimos acusações do tipo: ‘Cá está Lisboa a querer entregar-nos outra vez.’ É preciso perceber que o governo em Lisboa tinha essa consciência e que, na sua perspectiva, não ia fazer à comunidade portuguesa na África do Sul o que governos anteriores tinham deixado fazer aos portugueses de Angola e Moçambique.”

A comunidade era — e é — muito grande e isso faz toda a diferença. “Tínhamos meio milhão de pessoas”, diz Mendonça e Moura. “É um número empolado, uma extrapolação, mas foi um número muito útil, porque fixa-se facilmente. A questão é que nós tínhamos uma comunidade gigantesca e os outros países não tinham. Havia cinco milhões de brancos, meio milhão eram portugueses: é um décimo.”

Os luso-sul-africanos

A 25 de Outubro de 1989, dias depois da libertação de um grupo de dirigentes do ANC (Sisulu, Ahmed Kathrada, Jeff Masemola, Raymond Mhlaba, Billy Nair, Wilton Mkwayi, Andrew Mlangeni, Elias Motsoaledi e Oscar Mpetha) — lida como sinal inequívoco de que as promessas reformistas de De Klerk eram genuínas —, Cutileiro envia um telegrama “secreto” e “muito urgente” para Durão Barroso:

“Fonte limpa traz-me de serviços informações RAS avaliação comportamento comunidade portuguesa aqui que julgo dever referir Vexa.

Autoridades sul-africanas veriam com apreensão alheamento praticamente geral nossos compatriotas debate político interno RAS, sua tendência isolarem-se resto sociedade, provadas ou alegadas transferências capital para exterior por parte mais ricos e racismo extremo manifestado por mais pobres.

Como Vexa se dignará verificar esta avaliação é muito semelhante às que nos têm sido apresentadas, em várias ocasiões, por dirigentes oposição extra-parlamentar negra.

Apoio tradicional dado a Partido Nacionalista por notáveis comunidade e até seus membros humildes parece assim diminuir talvez à proporção da perda de poder relativo do partido. Perante incertezas futuro, não terão sido encontradas alternativas válidas: uns poucos apoiam conservadores, entre mais instruídos [da] nova geração vigoram algumas simpatias democráticas. Para além daí, de um ou outro lado, não me consta que se inclinem ou arrisquem — embora publicações periódicas mais radicais Joanesburgo sejam impressas parque tipográfico ‘Século’, a contendo comercial ambas as partes.

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Telegrama onde Cutileiro descreve o encontro com Nelson Mandela Arquivo Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros

2. Esta espécie de alheamento militante que luso-sul-africanos parecem impor-se, compreensível em termos culturais (língua, religião) e históricos (descolonização Angola e Moçambique) é agora exacerbado por percepções de mudança que animam em muitos projectos de partida. Entretanto, porém, mantém-se hagiografia e retórica pró-nacionalistas predilectas associações portuguesas, nas paredes de cujas sedes mais facilmente se encontram retratos presidentes Botha e De Klerk (e Vervoerdt) do que de Sexa PR e nos discursos de cujos dirigentes a expressão ‘nosso ministro dos Negócios Estrangeiros’ designa, as mais das vezes, Senhor ‘Pik’ Botha.

3. Nossa política africana tem pressuposto permanência da comunidade portuguesa significativa este país e papel importante mesma mediação inter-racial anos se vão seguir.

Dado panorama exposto acima julgo que esta embaixada e consulados dependentes deveriam dar a luso-sul-africanos sinais claros de simpatia governo português por processo reforma aqui em curso com vista abolição apartheid e viabilização sociedade futura próspera e democrática. Tais sinais — por via esclarecimentos, apoios, subsídios, até comendas — ajudariam aqueles já apostados [na] mudança e serviriam também, porventura, para tranquilizar os muitos outros que vêem no futuro apenas catástrofe ou êxodo. a)Cutileiro.”

A 15 de Fevereiro de 1990, quatro dias depois de Mandela ter sido libertado, novo alerta.

“Reacções comunidade portuguesa [ao] momento histórico país atravessa, tanto quanto nos chega de informações consulados e contactos directos, são de apreensão. Como entre outros brancos, grupos pobres sentem-se mais directamente ameaçados. Entre gente mais próspera, e mais informada, já se notam variações no grau de inquietação. Regista-se aumento percentual pedidos passaportes, mas números absolutos são baixos de mais para permitir por enquanto ilações. Cabe-me tentar acalmar excitação comunidade e sobretudo esclarece-la quanto posição autoridades portuguesas perante reformas em curso. […]. Haverá sem dúvida novos sobressaltos mas parecem-me de excluir situações de descalabro geral remotamente comparáveis às de Angola e Moçambique em 1975. a) Cutileiro.”

É nesta primeira fase do princípio do fim do apartheid — em Agosto de 1991 já Cutileiro está de regresso a Lisboa — que a RTP passa “programas alarmados e alarmistas de Mário Crespo que visitava portugueses na África do Sul”, conta Cutileiro, tendo o próprio jornalista sido um dos portugueses a fugir de Moçambique para a África do Sul logo em 1974. Às tantas, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Manuel Correia de Jesus, telefona ao embaixador e pergunta se seriam precisos aviões para levar os portugueses do país. “Respondi-lhe que não, que bastava levar o Mário Crespo.”

Nelson Mandela e a sua mulher Winnie momentos depois de ter saído da prisão Victor Verster Ulli Michel/Reuters

Oito meses depois, em Outubro de 1990, Cutileiro regressa ao tema. “Apreensão manifestada [pelo] Presidente De Klerk [na visita a Lisboa] quanto [à] inclinação conservadora muitos portugueses aqui vêm a revelar parece-me fundamentada, depois diversos contactos desde que voltei de férias”, escreve o embaixador, que nota “o número crescente nossos compatriotas” que “toma por boa garantia defesa privilégios lhe são caros” da retórica do Partido Conservador, de extrema-direita. “Presidente De Klerk é por eles visto como traidor brancos”, diz. “O que preocupa é clara predilecção [dos portugueses e luso-sul-africanos] por grupos políticos destinados à derrota ou, quanto muito, à periferia do poder da África Sul futura.” O embaixador está preocupado. Estas “preferências têm sido gabadas em público”, escreve, e por isso, “vai-se gerando clima antiportuguês entre sul-africanos”. Há excepções, “mas a maioria está, indubitavelmente, contra a nova África do Sul, contra a orientação do governo de Pretória — e contra a orientação do governo de Lisboa”.

Na altura, diz o ministro Santos Silva, “injusta ou justamente, a comunidade portuguesa era claramente percepcionada como tendo uma proximidade política e etnicista ao regime do apartheid e era vista com muita desconfiança por parte dos opositores ao regime”. “E hoje” — termina — “essa desconfiança ainda não se desvaneceu completamente.”

Primeiro encontro com Mandela

Quando a notícia veio, “ficámos boquiabertos”, conta Mendonça e Moura sobre o momento em que o pedido de reunião a sós com Mandela foi aceite. O futuro Presidente fora libertado a 11 de Fevereiro, a 19 reunira-se com os (poucos) chefes de missões diplomáticas com escritório no país (à excepção do Chile, Paraguai, Taiwan e bantustões) e no dia 22 veio a resposta: “Minha entrevista com Senhor Nelson Mandela está marcada para próxima segunda-feira em sua casa Soweto”, informa o telegrama enviado para Lisboa.

“Fomos a correr”, diz o actual secretário-geral do MNE, a quem coube a tarefa de tirar notas da conversa. “Mandela recebeu-nos muito cedo, na sua casa pequenina, no Soweto, numa sala do tamanho deste tapete. Penso que éramos só quatro: Cyril Ramaphosa, secretário-geral do sindicato dos mineiros e hoje Presidente da África do Sul, e eu a tirar notas, Cutileiro e Mandela a falar. Fiquei muito impressionado. Nunca tinha sentido — nem voltei a sentir na minha vida —, algo de tão estranho em relação a alguém. Várias vezes me tenho perguntado porquê. Porque era um mito? Porque dois anos antes nós não pronunciávamos sequer a palavra ‘Mandela’, nem entre diplomatas? Porque de repente vejo entrar um mito numa sala pequena? Havia um magnetismo… Não sei explicar. Pode dizer-se: foi depois de ele ter começado a falar? Mas não. Foi mal entrei.”

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Nelson Mandela recebeu, na casa do Soweto, o embaixador José Cutileiro 17 dias depois de ter sido libertado, após 27 anos na prisão Pedro Cunha (Arquivo)

Como todos os outros, no Arquivo Diplomático do MNE está guardado o telegrama desse primeiro encontro. “Senhor Mandela recebeu-me hoje de manhã. Estiveram presentes Senhor Ahmed Katrada, militante Partido Comunista RAS e seu companheiro de prisão em Robben Island, Senhor Cyril Ramaphosa, secretário-geral da ‘National Union of Mineworkers’, e Mendonça e Moura”, informa Cutileiro a 28 de Fevereiro de 1990. “Senhor Mandela começou por agradecer honra visita embaixador Portugal lhe dava. Referiu-se amavelmente sua passagem Lisboa em 1962, lembrando que à chegada lhe tinha sido oferecida uma garrafa de Porto que muito apreciara. Falou nessa altura convite Sexa Presidente República [Mário Soares]: tornou agradecê-lo e explicou que ‘National Executive Comittee’ ANC não tinha ainda estabelecido seu programa viagem estrangeiro, salvo próximas idas Lusaka, Harare, Dar-es-Salaam e Estocolmo, onde visitará Senhor Tambo” e, “a propósito, lamentou acidente Dr. João Soares e quis informar-se estado saúde deste”. A mensagem política de Mandela foi clara: “Era preciso não considerar que normalização já tinha chegado” (“as condições necessárias para negociar” o desmantelamento do apartheid n ainda não tinham sido satisfeitas). E a de Cutileiro também: “Falei-lhe nossa comunidade e nossos interesses nesta parte do mundo. Estamos aqui para ficar e por isso convinha que nos entendêssemos de parte a parte.” E, por isso, o embaixador pediu a Mandela que “fizesse referência [à] nossa comunidade, indicando que continuaria a ser bem-vinda”.

Conta Mendonça e Moura que, “se era óbvio que Mandela ia ser o líder do ANC”, não era óbvio ainda que seria líder da África do Sul: “Dependia de as coisas correrem bem e ainda não era líquido que corressem bem — podiam correr muito mal.” O aviso está vincado no telegrama. “Dado figura chave [que] Senhor Mandela desempenha [no] processo reformista, sua predisposição genérica favorável comunidade portuguesa é de bom agoiro — desde que, evidentemente, ANC a for confirmando na prática e comunidade (ou seus principais corifeus) esteja disposta a aproveitá-la. Salvo instruções contrárias Vexa, explorarei esta via.” Os dois discutem a possibilidade de Deus Pinheiro visitar a África do Sul, que Mandela não quer que seja já para, justamente, evitar ideia de que se alcançara uma “normalização”. Cutileiro propõe que seja depois de o estado de emergência ser levantado, quando “talvez atitude moderada Senhor Mandela tenha conseguido impor-se a ANC”. No fim, deixa um alerta: “Se, porém, moderação não houver prevalecido, estaremos diante processo ainda mais complexo e incerto do que já se afigura; benefício de dúvida agora damos ANC terá de ser revisto e visita decorreria então nesse diferente quadro. a) Cutileiro.”

Antes do embaixador de Portugal, Mandela recebera apenas o embaixador britânico. “E quando entrámos na casa dele, estava a sair o presidente da Anglo-American [gigante da exploração de diamantes] que, para o ANC, era o demónio encarnado!”, conta Mendonça e Moura. Por que razão Mandela recebeu o embaixador de Portugal tão depressa? “Por causa da importância que atribuía à comunidade portuguesa”, responde Cutileiro. “Havia meio milhão de pessoas na África do Sul que podiam pedir um passaporte português. Não convinha a Mandela ter problema nenhum com essa comunidade.”

Rogan Ward/Reuters

A partir deste dia, tornaram-se evidentes os frutos da nova estratégia de aproximação acelerada aos líderes negros, iniciada dez meses antes, dizem vários diplomatas ouvidos pelo PÚBLICO. “Se eu tivesse seguido as instruções do MNE, não teria havido quem facilitasse o contacto com Mandela quando precisei de falar com ele”, diz Cutileiro.

Este primeiro encontro não teria acontecido tão cedo sem a intervenção de Dullah Omar, um advogado indiano do gabinete de Mandela — que mais tarde foi o seu primeiro ministro da Justiça — com quem Cutileiro falara muitas vezes, estava ainda Mandela na prisão. “As amizades dos diplomatas são como as das crianças nos hospitais: sabemos que vão durar pouco, mas enquanto duram, somos bons amigos. Isso foi importante porque nem toda a gente no gabinete de Mandela tinha simpatia pelos portugueses e havia mesmo quem não gostasse nada dos portugueses”, diz o embaixador. “Aconteceu o mesmo mais tarde, quando Deus Pinheiro foi à África do Sul, estava tudo marcado para a visita com Mandela e, três horas antes da reunião, chegou notícia do cancelamento. Liguei logo ao N’zo, que era chefe de gabinete e um comunista que tinha aquele rigor com as coisas combinadas, e em 15 minutos a entrevista estava de pé outra vez. Julgo que alguém muito próximo de Mandela que não gostava dos portugueses tentou cancelar o encontro.”

“Calhou-nos estar ali”

Mas a realpolitik de que Cavaco Silva fala não era exclusivo português. Nessa primeira conversa, “por duas vezes, Cutileiro fez uma provocação a Mandela, perguntando-lhe como é que ele olhava para os 27 anos que tinha passado na prisão”, conta Mendonça e Moura. “Queria saber, sem perguntar directamente, como é que este homem que ia liderar as negociações olhava para o governo do dia. Da primeira vez, Mandela não percebeu. Daí a um bocado, Cutileiro fez a mesma pergunta de outra forma e, uma vez mais, Mandela não percebeu. À terceira, Mandela — que obviamente tinha percebido desde a primeira vez — disse-lhe só: ‘Embaixador, não há nada que eu possa fazer em relação aos 27 anos na prisão, portanto, isso não me interessa’. E acrescenta: ‘Mas em relação ao futuro, você pode ajudar-me.’ E nós: ‘Ajudar, eu?!’ ‘Você tem uma larga comunidade portuguesa aqui e eu preciso de pontes para ela.’ Não foi pelos nossos lindos olhos.”

A resposta está aí, ou na fórmula proposta pelo ministro Santos Silva: 95%-5%. “Mandela sempre teve o cuidado de, na promoção da África do Sul como país arco-íris, onde cabem todos, reservar um lugar próprio para a comunidade portuguesa. Em 95% tem que ver com a sua personalidade e a sua política, e 5% terá tido que ver com o facto de os diplomatas portugueses em Pretória terem mostrado capacidade de adaptação e antecipação, em condições muito difíceis, sem o apoio explícito de Lisboa e com muitas resistências, para não dizer antagonismo, dentro da comunidade portuguesa.”

As pontes criadas durante o apartheid foram decisivas nos anos seguintes. Por exemplo para fechar o primeiro acordo de comércio livre entre a UE e Pretória, em 1999, ao fim de longas negociações, conta Deus Pinheiro. Num dos momentos de impasse, o então comissário europeu recebeu um telefonema de Mandela: “‘Vou a Davos, você não quer vir lá ter comigo?’, ‘Com certeza’, disse eu. E lá conseguimos encontrar formas de ceder aqui e ali.” A “relação continuada com Mandela foi fruto das circunstâncias, mas também de termos criado uma relação pessoal que facilitou imenso no futuro: de outra maneira não teríamos conseguido fechar o acordo de comércio livre.”

Na sua autodisciplina de sacudir piropos, José Cutileiro remata: “Aprendi uma coisa com o embaixador Vasco Futscher Pereira: um mau embaixador não representa o seu país; um embaixador mediano representa o seu país; um bom embaixador disfarça o seu país. Aqueles anos na África do Sul foram qualquer coisa de extraordinário: nenhum de nós teve outra coisa assim. Calhou-nos estar ali, calhou-nos apanhar a transição, calhou-nos conhecer o Mandela. Foi uma história moral. Foi um lugar que valeu a pena.”