Eu votei sim!

Aquando do referendo para a despenalização do aborto em Portugal eu votei sim! Irlanda, chegou a vossa vez!

Foto
Reuters/CLODAGH KILCOYNE

O capitalismo, e não o catolicismo, rejeita o aborto, não por respeito à vida, nunca a teve, mas por não querer dar um tiro no pé do seu próprio meio de sustento: a geração, contínua, incessante, ininterrupta, de fome e miséria, mais uma boca para comer de um prato já demasiado magro, mais um número para a mortalidade infantil e os gritos de tantas mães a morrerem em vida e a vida pouco importa, a nossa em comparação com a deles em favor dos mesmos de sempre.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

O capitalismo, e não o catolicismo, rejeita o aborto, não por respeito à vida, nunca a teve, mas por não querer dar um tiro no pé do seu próprio meio de sustento: a geração, contínua, incessante, ininterrupta, de fome e miséria, mais uma boca para comer de um prato já demasiado magro, mais um número para a mortalidade infantil e os gritos de tantas mães a morrerem em vida e a vida pouco importa, a nossa em comparação com a deles em favor dos mesmos de sempre.

É esta a linha de raciocínio da tese de O aborto, causas e soluções, a tese de licenciatura de Álvaro Cunhal, tese feita livro das mãos do meu avô para as minhas, do meu avô orgulhoso pelo feito de um homem do seu tempo, um homem só contra todo o Estado Novo.

A tese, esta tese, é de 1940, ou seja, tem 78 anos e, por conseguinte, não é novidade nenhuma. No entanto, e numa altura em que a Irlanda se prepara para quebrar as correntes que a prendem à culpa, ao crime, ao juízo, à fuga de tantas mulheres à procura de fazer o que sempre foi seu por direito, urge discutir os verdadeiros porquês da criminalização do aborto.

Chegados a Dublin, vamos ficar num Bed&Breakfast e a senhora que nos acolhe rejubila de imediato: “Portugueses!”, “De Fátima?”, pergunta, para depois acrescentar “Venham ver, tenho aqui as fotografias dos três pastorinhos”. E nós aterrados, desenterrados, os olhos esbugalhados na incredulidade de três pastorinhos a mais de dois mil quilómetros de casa nos olhos de uma mulher cheia de fervor, crença, ingenuidade e todo o medo de um Deus nem por isso bom, antes impiedoso, vingativo, sanguinário, o mesmo Deus que promove a vida com uma mão e a condena à pobreza, à exploração e servidão com a outra.

Isto não é catolicismo, o catolicismo é o amor pelo outro, é dar a outra face e compreender que ninguém interrompe uma gravidez porque quer.

Tendo formação em biologia, tenho plena consciência de como a partir da fecundação do óvulo pelo espermatozóide já estamos perante um ser humano. Qualquer acção perpetrada com o intuito de interromper a gravidez terá como consequência a morte de uma pessoa. E porque ninguém interrompe uma gravidez porque quer, é preciso perceber as causas por detrás de tal acto quando tantas vezes são as mulheres violadas, quando tantas vezes são as malformações congénitas, quando tantas vezes não há condições sociais e económicas para gerar mais um filho, mais uma filha, mais uma boca a gritar de fome, mais uma mãe sem nada poder fazer, sofrer. A solução, meus amigos, é só uma: apoiar, e não condenar, ajudar, e não prender, compreender, e não julgar.

Na semana passada, aviões de todo o mundo encheram-se de irlandeses a caminho de casa para mudar os destinos de um país, para mudar o destino do mundo e dizer basta à hipocrisia de uma igreja cega e fria, caduca de séculos de temor e onde o horror e a noite dão agora à luz um pouco de dia, um pouco de amor, e a esperança de uma vida em tudo melhor, não só para as irlandesas, para os irlandeses, e todos nós.

Aquando do referendo para a despenalização do aborto em Portugal eu votei sim! Irlanda, chegou a vossa vez!