Hotéis

Dormir à sombra de São Torcato

Sete casas da cor da terra, muita madeira e o verde das árvores de fruto e das camélias marcam o Vale de São Torcato, onde o convite ao descanso chega de todos os recantos.
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Damos a volta a Guimarães e em poucos minutos passamos por fábricas de calçado que dão lugar a campos cultivados e verdes nas encostas. Estamos a chegar a São Torcato e o imponente santuário com o mesmo nome chama imediatamente a atenção. É quase impossível não o vermos, empoleirado no topo da vila. De curva em curva pelas estradas minhotas rodeadas de muros de pedra, chegamos à primeira unidade de alojamento local da terra, na encosta que se estende à sombra do santuário.

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Quando Armindo Carvalho decidiu aventurar-se neste negócio, há mais de três anos, São Torcato não tinha “uma única cama” para receber quem os visitasse, fosse em trabalho ou em turismo. O empresário, natural desta vila do concelho de Guimarães, não se acanhou e quis apostar num “segmento diferente”. À empresa que gere há 22 anos, no ramo dos tecidos de decoração — ou não estivéssemos nós numa zona do país onde a indústria têxtil é rainha —, foi buscar a experiência em materiais. E ao gabinete CREAR — Criação e Estudos de Arquitectura e Engenharia, de Guimarães, o projecto de linhas rectas e em tons de terra que contrasta com o restante casario rural e branco. É o Vale de São Torcato.

“A minha ideia era criar uma espécie de aldeia, um condomínio fechado”, conta o proprietário. O terreno tem um ligeiro declive e as casas — módulos com cerca de 40 metros quadrados de área — acompanham a subida e proporcionam pequenos recantos entre os alpendres e os muros de pedra que dividem os espaços (todos acessíveis também por rampas). As pérgolas que pontuam os jardins, com árvores de fruto e camélias em flor, e a madeira das casas e do enorme deck de madeira na zona das piscinas transmitem o aspecto “mais rural” da vila. “Os nossos embaixadores acrescentam alguma modernidade e diferenciação”, sublinha Armindo Carvalho.

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Nelson Garrido

Os embaixadores de que fala são os dois artistas cujas obras estão expostas em todas os espaços do Vale de São Torcato, Pedro Guimarães e Dinis Ribeiro. As serigrafias de grande dimensão assinadas pelo primeiro, natural de Guimarães, ocupam as paredes dos quartos e das salas das casas, bem como do Wine Bar. É também da autoria deste artista plástico a representação do Santuário de São Torcato que funciona como logótipo do empreendimento turístico. Já o segundo, nascido em São Torcato e com formação em cantaria e talha, é o autor das esculturas em pedra espalhadas pela propriedade e também pelos alojamentos.

Comum a todas as sete casas é a tipologia T1, com kitchenette totalmente equipada, mesa de refeições, sofá e poltrona e um alpendre privativo com direito a deck de madeira e cadeiras de lona. O convite ao sossego chega, assim, de todos os cantos do empreendimento. A decoração das casas — e do quarto duplo localizado perto da recepção — é da responsabilidade de Armindo Carvalho, que se preocupou sobretudo com um aspecto: o conforto. E depois de uma noite bem dormida, em fim-de-semana de tempestade Hugo, podemos dizer que a missão foi cumprida. Porque as casas são insonorizadas, nem os galos dos quintais vizinhos ouvimos. E porque as camas — esse elemento fundamental em qualquer quarto de hotel — estão vestidas com roupa de algodão “100% portuguesa” e almofadas em quantidade, quase chegávamos atrasados ao pequeno-almoço, servido no Wine Bar durante os meses mais frios.

Aqui não há buffet: a primeira refeição do dia é servida à mesa, com direito aos clássicos café com leite e chá, sumo de laranja, cereais e frutas da época, iogurtes, um cesto de pão fresco e croissants e uma tábua de queijos e enchidos minhotos, daqueles de encher o olho. E para quem preferir tomar o pequeno-almoço no conforto de casa, é possível — mediante pedido e sem custos extra — receber uma cesta personalizada e pôr a mesa ainda de pijama.

Esta que é, assim, a primeira (e única) unidade de alojamento na vila vimaranense com cerca de 3300 habitantes (de acordo com os Censos de 2011) “mexeu com a economia local”. Os pães e os croissants servidos ao pequeno-almoço são feitos na padaria da vila, que também adaptou a produção às necessidades do Vale de São Torcato, tal como a lavandaria da terra. O novo empreendimento permitiu ainda a requalificação de uma zona verde perto do ribeiro que corre do outro lado da rua, com um pequeno circuito de minigolfe e uma área pensada para piqueniques, com churrasqueira à disposição dos hóspedes. Para breve está a construção de um pequeno edifício envidraçado perto da zona da piscina, onde serão instalados um ginásio e uma sala de massagens, e a apresentação do Wine Bar com um novo conceito e refeições ligeiras.

As famílias, continua Armindo Carvalho, são atraídas pelos espaços amplos onde os mais pequenos podem brincar e estar ao ar livre — desde o parque infantil aos passeios de bicicleta, passando pelas duas piscinas, uma para adultos e outra para crianças —, mas chegam também muitos turistas espanhóis, em passeio pela região e à procura das tradições de Guimarães, apenas a seis quilómetros de distância. Agora que o sossego de São Torcato já é reconhecido lá fora, o empresário que o idealizou já tem outra missão, bem ambiciosa: “Gostava de ver São Torcato ser reconhecido como Capital da Cultura Popular de Guimarães.”

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Nelson Garrido

A Fugas esteve alojada a convite do Vale de São Torcato