Homossexualidade

Depois de o pai a querer casar com um homem, Gigi Chao é uma poderosa activista LGBT

Em 2012, Cecil Chao ofereceu milhões de dólares a qualquer homem que conseguisse conquistar a filha. Em 2014, duplicou a proposta. Hoje a jovem é das mais reconhecidas activistas da Ásia.
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Reuters

Quando o magnata do imobiliário de Hong Kong, Cecil Chao, ofereceu 65 milhões de dólares (52 milhões de euros) a qualquer homem que conseguisse conquistar a filha lésbica e torná-la heterossexual estabeleceu, sem se aperceber, a base para Gigi Chao se tornar uma das activistas dos direitos homossexuais mais proeminentes da Ásia.

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A recompensa, proposta em 2012, conquistou as manchetes internacionais e a filha, que foi bombardeada com milhares de propostas de casamento oriundas de todo o mundo. Foi a primeira vez que a questão da aceitação da comunidade LGBT se destacou em Hong Kong, uma cidade moderna em muitos aspectos, mas onde os comportamentos sociais continuam a ser conservadores. "Fico feliz que tenha acontecido", conta Gigi Chao, 38 anos, à Reuters. A proposta do pai "foi capaz de dar uma reviravolta cómica a uma questão que muitas vezes é marcada por tragédias e tabus", acrescenta.

A recompensa de 65 milhões de dólares surgiu depois de a filha do magnata ter concretizado uma união de facto com a namorada, há cerca de seis anos, em França. Depois de não conseguir encontrar nenhum candidato, o multimilionário de 81 anos duplicou a oferta para 127 milhões (102 milhões de euros), em 2014, o que levou Gigi Chao a escrever uma carta aberta publicada nos jornais de Hong Kong. "Querido pai, devias aceitar que sou lésbica", redigiu, pedindo para Cecil tratar a namorada como um "ser humano normal e digno".

Hoje, Gigi Chao não é apenas uma das mulheres mais ricas de Hong Kong, uma vez que herdou a fortuna do pai, mas é a cara mais conhecida no que toca a campanhas a favor dos direitos LGBT da região. No ano em que Gigi concretizou a união de facto ainda não era permitido o casamento entre pessoas do mesmo sexo na Ásia. Só em 2017 é que o Tribunal Constitucional de Taiwan abriu o caminho para esta ilha se tornar o primeiro lugar do continente asiático a permitir o casamento homossexual.

Em 1991, a homossexualidade foi discriminalizada em Hong Kong, a ex-colónia britânica que retornou ao domínio chinês em 1997. Anualmente, a cidade celebra o orgulho gay numa parada, tal como acontece noutras cidades por todo o mundo. Mas, apesar desta liberdade, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ainda não é reconhecido e as pessoas continuam a ser discriminadas e são pressionadas a casar com pessoas do sexo oposto e a constituir família. 

Comprometer as empresas

Uma proposta para banir a discriminação com base na orientação sexual tem sido discutida pelo Conselho Legislativo (LegCo) da cidade, mas não há uma indicação clara de que ela será adoptada. "É decepcionante que a LegCo não tenha a visão de futuro ou a coragem de fazer algo, com medo de ofender os grupos conservadores", lamenta Chao.

Mas onde o Governo falhou, é onde a milionária acredita que as empresas podem intervir para assumir a liderança. Chao tem usado a sua influência na alta sociedade para ganhar aliados que a apoiem. "O que descobrimos ser mais eficaz é envolver os principais executivos e permitir que eles vejam como a inclusão, a diversidade e a igualdade é algo que deveriam, e devem, defender e permitir nas suas empresas", considera. “Existem muitas organizações notáveis ??que já o estão a fazer. Envolver o Governo é mais difícil”, admite.

Mas tem havido outros sinais de aceitação. Hong Kong deve ser a anfitriã, em 2022, dos "Gay Olympics", um evento desportivo e cultural. Outro exemplo é o de um tribunal da região que autorizou que a companheira de uma britânica recebesse o visto de cônjuge para trabalhar na cidade. 

A organização Big Love Alliance – da qual Chao é membro fundador – organiza anualmente o encontro Pink Dot para fazer campanha pelos direitos LGBT e tem conseguido o patrocínio de bancos de investimento e embaixadas.

Chao também trabalha com as Nações Unidas na área dos direitos LGBT e tornou-se a primeira asiática a ser nomeada como a principal executiva LGBT numa lista anual compilada pelo Financial Times, que classifica os exemplos LGBT na área dos negócios.

Piloto de helicóptero, Chao partilhava a paixão de voar com o pai e conta que a recompensa proposta pelo executivo não manchou a relação entre ambos. Falar com os pais "é um processo importante, embora no início seja um choque", mas é importante "viver plenamente" e de maneira transparente, defende.

Mas um sinal de que ainda há um longo caminho a percorrer para o casamento entre pessoas do mesmo sexo em Hong Kong, Chao confidencia que ela e a sua companheira tiveram de deixar temporariamente de lado a ideia de ter filhos. "Mesmo para pessoas como eu – que muitos pensam que tenho todos os recursos do mundo para fazer o que quiser – é muito difícil", lamenta.