Na Cova, pouco resta da duna e o mar está mais perto das casas

Município da Figueira da Foz diz estar pronto para intervir em caso de emergência. Praia a sul da foz do Mondego teve obras do reforço das dunas em 2015.

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PAULO PIMENTA

“A situação está à vista. O que é que a gente há-de fazer?” Nas palavras de Lurdes Matias há um certo tom de resignação misturado com esperança de que uma intempérie não agudize a situação já de si precária. Na Cova, a sul da Figueira da Foz, o mar foi cavando a duna a seguir ao quinto molhe, aproximando-se das casas. “Tem vindo a levar mais todos os Invernos”, descreve a moradora de 71 anos.

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“A situação está à vista. O que é que a gente há-de fazer?” Nas palavras de Lurdes Matias há um certo tom de resignação misturado com esperança de que uma intempérie não agudize a situação já de si precária. Na Cova, a sul da Figueira da Foz, o mar foi cavando a duna a seguir ao quinto molhe, aproximando-se das casas. “Tem vindo a levar mais todos os Invernos”, descreve a moradora de 71 anos.

 A sua casa está ali, a não mais de 50 metros do mar. Pelo meio, a única barreira é parte de uma duna minguante. Lurdes Matias, que sempre morou na zona sul da Cova, num bairro essencialmente de pescadores, recorda o tempo em que o areal se estendia por largos metros . “Quando era pequena, a areia ia muito para lá do molhe.” Mas a água tem vindo a aproximar-se e, durante a invernia, as conversas entre a vizinhança regressam ao desassossego. E acrescenta: “Têm de resolver isto o mais depressa possível.”

 Isto, porque o Inverno não dá sinais de ter acabado, vem aí temporal e o quinto molhe da Cova é um dos pontos mais sensíveis na costa na zona centro do país. Logo no início de 2018, a ondulação mais violenta voltou a fazer estragos e o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, deslocou-se ao local. Chegou-se então ao consenso de que haveria uma intervenção de urgência, caso a situação se agravasse, explica ao PÚBLICO o presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz (CMFF), João Ataíde. A evolução do quinto molhe está a ser acompanhada diariamente pela Protecção Civil e pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera colocou o litoral em alerta amarelo por causa da tempestade Félix (até à manhã de hoje, domingo). De acordo com Ataíde, caso seja preciso proteger pessoas e bens, terá lugar uma “intervenção de carácter urgente, com a colocação de pedra” ou de outros meios necessários.

Intervenção não resolveu

Na parte sul da Cova está o que resta da duna e de uma intervenção da APA terminada em 2015, cujo objectivo era precisamente reforçar aquele ponto da orla costeira. Um patamar dos passadiços de acesso à praia encontra-se suspenso no ar por falta da areia que o mar levou. Sem sedimentos que as sustentem, algumas das pedras colocadas a sul do quinto molhe também já foram deslocadas pela força das águas. Três anos depois, a praia da Cova precisa de nova intervenção. Mais a sul, perto de um parque de campismo na Mata de Lavos, já praticamente não há barreira e o mar chegou à vegetação.

Para o movimento SOS Cabedelo, que começou pela defesa do surf na zona, mas está também atento às questões da erosão costeira, o problema está no tipo de intervenção da APA. Na altura e desde então, o movimento posiciona-se contra a ripagem de areias, que consiste na retirada de sedimentos da zona de rebentação para reforçar a duna. “[O que está a acontecer] é o mar a dar-nos razão. Logo em 2015, quando fizeram aqui as ripagens, dissemos que isto ia acontecer”, diz Miguel Figueira, membro do movimento

“Na altura, demos nota de que não seríamos muito entusiastas do processo de ripagem”, garante também João Ataíde. Argumenta que, apesar de essa ser uma discussão de ordem técnica, esta preocupação veio a materializar-se.

Se a intervenção de há três anos não foi eficaz, há mais factores a contribuir para o desgaste abaixo da foz do Mondego. Explica Eurico Gonçalves, também do SOS Cabedelo, que o prolongamento em 400 metros da barra norte do Porto da Figueira da Foz, concluído em 2011, veio aumentar a retenção de sedimentos nesse ponto e contribuir para a erosão a sul.

Reposição de sedimentos

Pouco depois de falar com Lurdes Matias no cimo da duna, encontramos o presidente da Junta de Freguesia de S. Pedro, António Salgueiro, a falar com outro morador inquieto. Diz-nos que a “a população está preocupada”, principalmente os que têm as casas mais a sul. Pelo que lhe vai chegando, tudo o que pedem é uma solução “que dê algumas garantias, para que as pessoas possam dormir descansadas durante o Inverno”.

Para Miguel Figueira, a solução não pode passar exclusivamente pela obra pesada, como a sugerida em caso de urgência por João Ataíde. O ambientalista e arquitecto lamenta que o arrastar da situação tenha levado a essa hipótese. A colocação de pedra não seria a chave para resolver um problema que vai do Cabedelo à Nazaré, insiste. A artificialização da costa, alerta, teria consequências negativas a vários níveis. Em última análise, teria impacto no canhão da Nazaré e no turismo gerado pela sua onda.

Assim, qual seria a solução mais eficaz? “Não me canso de repetir que estamos ao lado de um dos maiores depósitos sedimentares do país.” Refere-se à praia da Claridade, a norte da foz do Mondego. A utilização desses sedimentos traria vários benefícios: para além de ajudar a resolver a questão da erosão a sul, aproximaria a praia da cidade. 

João Ataíde afirma que uma acção de maior escala terá de passar pela transferência de sedimentos de norte para as praias do sul da foz do rio. De acordo com o autarca, esta será a solução que a APA vai candidatar a fundos comunitários no âmbito do Poseur. Até ao fecho da edição, a APA não deu resposta às questões enviadas pelo PÚBLICO.

A dúvida reside no modo de fazer a transposição sedimentar: ou através de dragagens, ou através de um bypass [sistema mecânico de transposição de areias] fixo. O SOS Cabedelo faz a apologia do bypass, questão que já levou à Comissão Parlamentar do Ambiente e Ordenamento do Território em 2017. No mesmo ano, os deputados aprovaram uma recomendação ao Governo para que este estudasse o recurso ao bypass.

No final de Fevereiro, já em 2018, a vereadora da CMFF Ana Carvalho referiu ao jornal regional As Beiras que as dragagens teriam um custo inferior. Mas Eurico Gonçalves duvida: “Há procedimentos de urgência, mas há também urgência em saber se o bypass é viável ou não.” Na próxima terça-feira, o movimento volta a ser ouvido na comissão parlamentar.