“Vai ser difícil conseguir nadadores-salvadores suficientes”

O Verão ainda vem longe mas já há quem lance o alerta. Muitos cursos têm ficado vazios. Câmaras criam incentivos para atrair nadadores-salvadores. “Problema é nacional”, diz presidente de associação.

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Rui Gaudêncio

A época balnear deste ano já constitui uma preocupação para algumas autarquias. Em Vila do Conde e na Póvoa de Varzim, que necessitam de 150 nadadores-salvadores para vigiarem as suas praias, o trabalho já está em curso. Mas Isaac Braga, presidente da Junta de Freguesia de Vila do Conde, desabafa: “Por aquilo que temos visto, vai ser difícil conseguir nadadores-salvadores suficientes.”

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A época balnear deste ano já constitui uma preocupação para algumas autarquias. Em Vila do Conde e na Póvoa de Varzim, que necessitam de 150 nadadores-salvadores para vigiarem as suas praias, o trabalho já está em curso. Mas Isaac Braga, presidente da Junta de Freguesia de Vila do Conde, desabafa: “Por aquilo que temos visto, vai ser difícil conseguir nadadores-salvadores suficientes.”

Com o objectivo de garantir profissionais, as duas autarquias oferecem incentivos aos nadadores-salvadores que vigiem as suas praias: “Os nadadores-salvadores terão direito ao reembolso completo do custo da formação”, diz Isaac Braga, adiantando que a Câmara Municipal de Vila do Conde “introduziu a possibilidade de garantir alojamento” aos que vierem de outros pontos do país.

João Pinheiro é coordenador da formação de nadadores-salvadores em Castelo Branco, região da Beira Interior Sul. O formador olha com preocupação para os números do curso: “Tínhamos atingido o limite de inscrições e apenas apareceram 19 pessoas”, lamenta, afirmando que, no passado, foi obrigado a fechar cursos de 30 vagas que não chegaram ao número mínimo de 15 inscritos.

“Tem vindo a piorar de ano para ano”, afirma, referindo-se à falta de jovens interessados em abraçar a profissão.

João Pinheiro forma nadadores-salvadores desde 1992 e faz questão de deixar bem clara a ideia de que ser nadador-salvador não é para qualquer um, devido aos requisitos físicos e psicológicos inerentes à profissão.

Carlos Ferreira é presidente de duas associações relacionadas com a actividade: Os Delfins (que faz formação de nadadores-salvadores) e Os Golfinhos (que estabelece contacto entre estes e os empregadores). Garante que a situação não é exclusiva a algumas zonas, sendo um “problema nacional”.

“No fundo, é a salvaguarda da vida humana que está em causa”, lamenta, reiterando que “o ano passado [2017] foi, de longe, o mais difícil”, porque, explica, “existiram falhas em todas as regiões do país”.

“Para um serviço de nadadores-salvadores precisamos de pelo menos três profissionais”, de modo a acautelar “folgas e trocas”, alerta o presidente associativo.

Carlos Ferreira sinaliza como problema o “risco de os estudantes [universitários] perderem a bolsa de estudo”, ao exercerem a profissão sazonal. “Os estudantes preferem trabalhar num bar ou noutro sítio onde não seja preciso documentos”, avisa, sugerindo que devia existir “um sistema fiscal diferente” para os profissionais sazonais.

Cedo para previsões

O facto de, em Julho, os estudantes ainda estarem ocupados com exames, contribui também para “a dificuldade” da gestão de recursos, que segundo Carlos Ferreira “provocou o caos na época balnear passada”. Os nadadores-salvadores existentes em Portugal não chegam para colmatar as necessidades reais, na opinião deste responsável, visto que “muitos deles, apesar de terem cartão válido, não exercem funções”, garante.

Já o comandante Pedro Coelho Dias, porta-voz da Autoridade Marítima Nacional, considera que ainda é “muito prematuro” prever a época balnear de 2018.

Grande parte dos cursos de formação ainda não se realizaram, nota, e, com a aproximação do início da época balnear que na maioria das praias costuma arrancar em Junho, os cursos “registam uma maior procura”. Em relação à de 2017, o comandante afirma que, “de uma forma geral, existiram profissionais”. Mais: uma eventual falta de nadadores-salvadores “não foi um factor inibitivo” da prestação de assistência aos banhistas.

“A Autoridade Marítima Nacional está muito atenta e encara com grande responsabilidade o modelo de assistência a banhistas”, garante o comandante, elogiando o “modelo de grande responsabilidade” que as câmaras municipais de Vila do Conde e Póvoa de Varzim possuem.

No ano passado, entre 1 de Maio e 14 de Setembro, morreram 20 pessoas nas praias do litoral e nas praias fluviais do interior do país, segundo dados então divulgados pela Autoridade Marítima Nacional — mais seis do que no mesmo período do ano anterior.

Nas praias de Vila do Conde, o salário de um nadador-salvador na época balnear é de 1150 euros mensais, diz Isaac Braga. Que espera que as medidas adoptadas atraiam os profissionais necessários para garantir a segurança das praias vila-condenses.

Texto editado por Andreia Sanches