Marcelo chamado a ver como vivem os miúdos do 2.º Torrão

Associação Cova do Mar lançou uma petição, em jeito de carta aberta ao Presidente da República. Querem que Marcelo Rebelo de Sousa visite este bairro da Trafaria, em Almada, para que veja as precárias condições em que cerca de três mil pessoas vivem diariamente.

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O bairro é do outro lado do rio e assiste “de longe ao Nos Alive cuja luz abafa a falta de luz” com que vivem Nuno Ferreira Santos

Alexandra Leal diz que quase ninguém sabe que ali estão, na Trafaria, mesmo ao lado da praia de São João da Caparica, há para lá de 40 anos. O bairro do 2º Torrão cresceu de forma clandestina ao longo de décadas, em Almada. Metade das casas não tem saneamento básico, o acesso à água, tal como à electricidade, é escasso. É para mostrar ao Presidente da República as condições precárias em que cerca de três mil pessoas vivem naquele bairro de barracas que Alexandra Leal lançou uma petição, em jeito de carta aberta, que, à data de publicação deste artigo, tinha reunido perto de 500 assinaturas.

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Alexandra Leal diz que quase ninguém sabe que ali estão, na Trafaria, mesmo ao lado da praia de São João da Caparica, há para lá de 40 anos. O bairro do 2º Torrão cresceu de forma clandestina ao longo de décadas, em Almada. Metade das casas não tem saneamento básico, o acesso à água, tal como à electricidade, é escasso. É para mostrar ao Presidente da República as condições precárias em que cerca de três mil pessoas vivem naquele bairro de barracas que Alexandra Leal lançou uma petição, em jeito de carta aberta, que, à data de publicação deste artigo, tinha reunido perto de 500 assinaturas.

“Estivemos 56 horas seguidas sem electricidade, nós na Fábrica dos Sonhos (centro comunitário) e eles, crianças, que vivem na área da Fábrica. Estamos num bairro ‘ilegal’ mas feito de seres humanos que, tal como nós, pagam impostos, nasceram neste mundo e se servem dos mesmos direitos que outros. E escrevo-lhe este pedido de ajuda em desespero do que é ver, assistir e dar apoio a crianças e jovens que, dia após dia, vêem os seus direitos humanos violados”, escreve Alexandra Leal. 

A antiga gestora financeira fundou, juntamente com o avô José Gonzalez, de 80 anos, a Associação Cova do Mar, em 2016, para criar campos de férias gratuitos. Nasceu depois a Fábrica dos Sonhos, um espaço para crianças desfavorecidas passarem o tempo livre que, segundo Alexandra, já reuniu numa tarde perto de 30 crianças num espaço “minúsculo”, sem muitas condições. 

De acordo com os números do último Censos, de 2011, viviam naquele bairro 1096 habitantes. Na contagem que a Associação de Moradores fez, em 2016, estão cerca de 3000. Desses, aponta Alexandra, mais de 200 são crianças e jovens dos seis aos 17 anos. 

“Todos os dias o acordar deles é uma missão heróica, vão para a escola sem capacidade de fazer os TPC porque não tinham luz. Os que têm a sorte de estudar para a faculdade, fazem-no à luz da vela e os incríveis que já lá estão têm de entregar os trabalhos escritos à mão, porque o PC não funciona sem electricidade”, descreve a fundadora da associação. 

O bairro do 2º Torrão, entre a Cova do Vapor e a Trafaria, começou por ser um sítio de pescadores junto ao rio Tejo. As primeiras casas clandestinas, a ocuparem terrenos privados, surgiram na década de 70. Hoje, passa despercebido aos que por ali passam a caminho das praias de São João da Caparica. Estão às portas de Lisboa, dizem, “a capital que acolhe o Web Summit”, de frente para Algés, de onde podem “assistir de longe ao NOS Alive cuja luz dos três dias de festival abafa por completo a falta de luz que existe ano após ano”, naquele bairro, onde o Inverno é “rigoroso”, com “cheias por todo o lado”. 

“Não existe electricidade legal, a água que corre não é abundante, não temos saneamento básico, chove em muitas das casa e quartos. Existem ninhos de carraças, pulgas e ratazana também nas ruas, confesso que dentro da Fábrica também estamos sujeitos aos ‘Ratatouille’ que não cozinham mas que comem tudo o que encontram pelo caminho”, descreve a fundadora da associação. 

A petição foi lançada a 19 de Janeiro e reuniu já 470 assinaturas. O objectivo é conseguir que o Presidente da República visite aquele bairro “esquecido” há décadas.

“Ele vai ter a perfeita consciência da violação de direitos humanos que ali está. Temos a plena consciência de que ele não vai ficar indiferente”, acredita Alexandra, que termina a carta em jeito de convite: “Se puder ajudar e tiver saudades de leccionar, preciso também de professores voluntários e seria um privilégio poder tê-lo na Fábrica dos Sonhos!”.