Do envolvimento social e da solitude existencial nos mais velhos

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Paulo Pimenta

Viver mais um dia, mais um ano, é algo que desejamos para nós e para os que nos são queridos. É com alegria e agradecimento que várias famílias comemoram os 80, 90 ou até mesmo 100 anos do/a patriarca/matriarca. No entanto, para muitas pessoas, a idade avançada vem acompanhada de desafios e restrições que condicionam o modo como ocupam os dias e participam na comunidade.

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Viver mais um dia, mais um ano, é algo que desejamos para nós e para os que nos são queridos. É com alegria e agradecimento que várias famílias comemoram os 80, 90 ou até mesmo 100 anos do/a patriarca/matriarca. No entanto, para muitas pessoas, a idade avançada vem acompanhada de desafios e restrições que condicionam o modo como ocupam os dias e participam na comunidade.

À medida que envelhecemos, vamos acumulando a perda de familiares, amigos e conhecidos, o que contribui para uma redução na nossa rede social. Juntamente com as maiores dificuldades sensoriais e de mobilidade, essa perda pode levar a uma mudança na forma como ocupamos os dias, com restrição do envolvimento no meio onde nos inserimos. Esta tendência é mais significativa no grupo dos muito idosos, aqueles com 80/85 e mais anos, altura em que se fazem notar mais essas mudanças.   

Dados do inquérito europeu SHARE — Survey of Health, Ageing and Retirement in Europe (4.ª vaga), onde se inclui Portugal e outros 15 países europeus, demonstram que a prática de atividades ocupacionais vai diminuindo com o avançar da idade, com exceção das atividades religiosas, nas quais as pessoas com idades entre 70 e 79 anos participam com maior frequência 1.

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As atividades religiosas e espirituais representam um tipo de ocupação de grande importância para muitas pessoas da atual geração dos mais velhos, no sentido em que contribuem para que se mantenham envolvidas na comunidade, reduzindo o afastamento e a solidão. Mas, quando as perdas e dificuldades do envelhecimento se acentuam, as práticas religiosas sociais passam a ser substituídas por práticas mais individuais e há uma maior preferência por momentos solitários e de meditação. Esta mudança na ocupação pode ser bastante funcional, sendo por isso apontada como uma estratégia de compensação e de adaptação à fase mais avançada de vida.

O estar sozinho, ou consigo próprio, pode ser uma experiência francamente positiva, de integração e aprofundamento de si mesmo. A solitude é vista como uma oportunidade de a pessoa expandir a sua consciência, conectar-se consigo mesmo ou com o universo. Segundo as perspetivas mais existencialistas, estes momentos de reflexão pessoal permitem a cogitação em torno do significado e propósito da existência. Para muitas pessoas, a solitude é sentir-se mais próximo de Deus; para outras, poderá ser contemplar a natureza.

Considerando que as restrições relacionadas com a idade levam a uma menor capacidade funcional e oportunidades de atuação mais limitadas, é necessário também (re)pensar o conceito de ocupação na idade muito avançada. Ver para além das restrições e considerar outras possibilidades de continuar a perseguir objetivos pessoais e alcançar metas significativas são estratégias fundamentais na adaptação aos desafios dos anos mais avançados de vida.

Gerontóloga, docente no IPV e investigadora no CINTESIS.UP

Referências

Araújo, L., Teixeira, L., Ribeiro, O., & Paúl, C. (2017, set). “Quality of Life and Social Engagement in Older Europeans”. 16th ISQOL Annual Conference: Quality of Life — Toward a Better Society, Innsbruck, Austria.

Lima, M.P., Portugal, P., & Ribeiro, O. (2015). “Atividades ocupacionais com sentido e valoração da vida em centenários”. Psychologica, 58 (2), 41-59.