De porta em porta, a mostrar música portuguesa há dois anos

O Porta 253 anda há dois anos a percorrer os espaços de Braga e a espalhar novos nomes da música pela Internet. O aniversário celebra-se com um vídeo especial e com o regresso de Surma

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Afina-se o som que viaja pelos cabos, espalhados pelo chão do primeiro andar de um prédio instalado atrás da Sé Catedral de Braga, colocam-se os focos de luz de forma a eliminar as sombras e as câmaras estão a postos. Que comece mais um showcase do Porta 253, desta vez na Rosa Chok, uma loja de vestuário vintage. Entre as peças de roupa tocam os :papercutz, rodeados por uma equipa de filmagem que nasceu há pouco mais de dois anos na cabeça de Joana Jorge, a mentora do Porta 253.

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Afina-se o som que viaja pelos cabos, espalhados pelo chão do primeiro andar de um prédio instalado atrás da Sé Catedral de Braga, colocam-se os focos de luz de forma a eliminar as sombras e as câmaras estão a postos. Que comece mais um showcase do Porta 253, desta vez na Rosa Chok, uma loja de vestuário vintage. Entre as peças de roupa tocam os :papercutz, rodeados por uma equipa de filmagem que nasceu há pouco mais de dois anos na cabeça de Joana Jorge, a mentora do Porta 253.

Não se distingue bem entre o profissionalismo e o ambiente descontraído numa sala de rodagens improvisada. Talvez por se tratar de um híbrido. O Porta 253 é uma plataforma para dar a conhecer música e músicos, onde cada artista tem a oportunidade de se mostrar numa sessão ao vivo — com direito a entrevista no final —, num espaço de Braga. Daí advém o nome. Porta, por andarem de porta em porta a mostrar os sítios que muitos ainda não conhecem da cidade minhota. E 253 porque, se tentares ligar para um telefone fixo de Braga, o indicativo é precisamente esse.

O núcleo fixo do projecto reúne-se à volta de uma mesa, acompanhado por finos (típicos do pós-trabalho), a falar sobre o que ocupa fins-de-semana e noites, entre gravações, edição e contactos. “O Porta 253 é um grupo de amigos que se junta ao sábado à tarde para fazer vídeos — e de bandas de que gostam.” A definição é de Joana Jorge, 24 anos, que recorda como, anos antes, estava a ver o Tiny Desk e pensou: “Por que não fazer em Braga?”.

A história é bem mais romântica. Passa-se numa viagem de carro, com Joana Jorge e João Figueiredo (também do núcleo duro do projecto), em direcção a Baiona, na Galiza. “Há uma estrada muito bonita para lá, a Carretera Atlantica, e nessa viagem lembrei-me de criar, comecei a idealizar tudo, nada de especial, pessoas a filmar bandas a tocar”, recorda a mentora. A reacção de João foi a mais natural: “Pensei que ia ser uma daquelas resoluções de Ano Novo”.

Mas não foi. A equipa juntou-se no InBraga Hostel para o primeiro showcase com a presença de Leviatã. “Se vires os nossos primeiros trabalhos e estes últimos...”, avisa Joana, entre risos. Houve um investimento para melhorar a qualidade dos vídeos, do som e da imagem, bem como no cuidado na própria edição. E as bandas que passam pelo Norte agradecem. “Eles ganham, porque ficam com um vídeo para mostrar e expõem o seu trabalho. Já que não há dinheiro envolvido, é um portefólio para as bandas e para nós”, aponta Inês Martins, a mais nova dos quatro, com 22 anos. Vítor Vilas Boas, o quarto elemento e o único que teve de apresentar currículo (já lá vamos), completa: “Nós mostramos bandas que ainda não são muito conhecidas para um público que nos começa a seguir e outras que, às vezes, não têm coisas gravadas e que depois podem mostrar isto”.

“Não ganhamos dinheiro”

Há uma ressalva a fazer: aqui são todos voluntários e não há dinheiro envolvido. O investimento que houve para melhorar a qualidade do Porta 253 resulta do próprio investimento pessoal em material, visto que quase todos trabalham na área da comunicação. A excepção é João Figueiredo, responsável pelo áudio e engenheiro mecânico, que comprou o material exclusivamente para o projecto — mas o dinheiro saiu do próprio bolso. Não há patrocínios, nem nenhum modelo de negócio. “Se um dia isto acaba, vou ter de meter tudo à venda no OLX”, diz, com as gargalhadas a invadirem a mesa.

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As bandas actuam em espaços da cidade de Braga - muitos dos quais onde não é habitual ter um concerto

“Se envolter dinheiro, as coisas não vão continuar assim”, afirma Inês Martins. “Se calhar vai matar o projecto”, acrescenta. Já houve propostas, perguntas, mas, pelo menos por enquanto, a previsão é manter o hobby de sábado à tarde — e, por diversas vezes, domingo. Já passaram pelo grupo cerca de 20 pessoas, em contas feitas por alto. Hoje, são cerca de uma dezena a levar o projecto em frente.

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Quase todas as semanas, a página traz um novo vídeo. O showcase especial faz regressar Surma a Braga

Todos os vídeos, publicados semanalmente, têm procurado criar uma identidade, inspirada na banda ou no espaço em questão, para não criar uma rotina em que os vídeos se tornam todos iguais. Mas, provavelmente à custa deste tal profissionalismo, há uma coisa que os membros do Porta 253 querem reforçar: “Não ganhamos dinheiro”. “Isto não é algo que nos dê dinheiro e há muitos artistas que acham que nos estão a fazer um favor enorme”, atira Joana Jorge.

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As entrevistas são uma das marcas do Porta 253, entremeando a actuação das bandas

Arranjar bandas nunca foi problema, atesta João Figueiredo, e admite o cliché: “A generalidade das pessoas não faz ideia da quantidade de projectos fabulosos que há em Portugal, completamente escondidos”. O processo de selecção é inexistente. As coisas ou agradam ou não aos responsáveis do projecto. “A existir um critério para trazer bandas seria a frescura”, aponta João. Filmam aquilo de que gostam, continua Joana. Dos quase 70 showcases que somam, só cerca de dez resultaram de contactos de Joana Jorge. Todos os outros resultam de propostas, ora porque se deslocam a Braga para tocar, ora porque gostam do projecto e viajam propositadamente para uma sessão de vídeo, como já aconteceu com algumas bandas de Lisboa e Setúbal.

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Ninguém ganha dinheiro no Porta 253. Todos trabalham voluntariamente - actualmente, são cerca de dez a colaborar

Os espaços, contudo, começam a escassear. “A base do Porta foi sempre dar um registo bom às bandas, mas também promover os espaços. Cada vez lidamos com mais bandas, mas os espaços não crescem”, alega o responsável pelo áudio. É um dos objectivos para o futuro: que mais espaços abram as portas aos showcases.

Ao falar das sessões ao vivo, falta outra parte fundamental do projecto: as entrevistas. “Acho fundamental teres a vertente do artista que não é só o artista. É importante saberes quem é esta pessoa”, explica Joana. E aqui entra Vítor Vilas Boas, que teve de entregar currículo — e uma entrevista fictícia a uma banda — para entrar no grupo. “No início era um bocado como ir para a guerra”, diz Vítor. Agora, sai tudo naturalmente. Há uma pergunta sempre presente no seu guião mental: “Qual foi o espaço mais estranho onde já tocaste?”. O resto é de improviso — ajudado sempre pelo conhecimento sobre a banda. O entrevistador não é, porém, apenas entrevistador; tem o título de “multifacetado”. Entrou para fazer entrevistas e hoje filma, fotografa e até edita.

Um projecto com prazo de validade

A música dura para sempre, o Porta 253 não. A conclusão é posta em cima da mesa: “Isto é um projecto que tem prazo de validade porque cada um tem as suas prioridades”, confessa João Figueiredo. “Ou então tem o seu prazo de validade porque não podes mudar o formato, não podes largar aquilo que fazes à semana para te dedicares a isto”, defende Inês Martins.

Os vídeos são usados pelos artistas para autopromoção, por quem contrata as bandas — porque aqui não há como aldrabar uma performance — e para conhecer nomes emergentes. E o que não faltam são exemplos que entraram num qualquer espaço de Braga e saíram a correr festivais de música, como os Les Saint Armand ou a Surma. O projecto de Débora Umbelino é o destaque do vídeo especial em celebração dos dois anos do projecto. O Mosteiro de Tibães serve como fundo.

É um regresso, quase dois anos depois. Surma visitou Braga, na altura a convite de Joana Jorge, para tocar no RetroKitchen, um restaurante orgânico no centro da cidade. Agora volta, pela “parte interesseira” (o primeiro álbum está a ter bastante sucesso) e pela correspondência que encontra. “É um projecto com que nos identificamos”, acrescenta Joana Jorge. E foi um dos primeiros vídeos que lançaram, sendo também o vídeo com mais visualizações do canal de YouTube do Porta 253.

O que não faltam são memórias das sessões, coleccionadas durante dois anos. Filmar RATERE, um grupo de seis pessoas com cinco guitarras, num espaço minúsculo onde a solução passou por filmar em cima de cadeiras, ou Nuno Sá — que soa a um jovem com uma guitarra — ser, afinal, um grupo de vários elementos. Tudo histórias guardadas nos bastidores dos vídeos.

Artigo actualizado às 15h24 de 5 de Fevereiro.

Foi acrescentado o novo vídeo de Surma.