Bombeiros nunca vistoriaram edifício que era uma bomba-relógio

Edifício onde oito pessoas morreram tinha portas trancadas, materiais perigosos, zero vistorias e uma licença que a câmara ignora existir. Associação de Vila Nova da Rainha tem mais de 30 anos e foi sendo construída com o voluntarismo dos sócios.

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Sérgio Azenha

Foi em “breves instantes” que a cobertura do salão onde cerca de 70 pessoas jogavam à sueca entrou em combustão e precipitou a tragédia que matou oito pessoas na Associação Recreativa de Vila Nova da Rainha, Tondela, na noite de sábado. Bastaram “alguns segundos” para o tecto entrar em colapso. Os participantes tentaram fugir e precipitaram-se para as escadas que dão acesso ao rés-do-chão. Desorientados pelo fumo e com pedaços da cobertura a cair-lhes em cima, muitos acabaram amontoados e esmagados junto a duas portas: a que dava acesso ao exterior, mas que estava trancada, e a que permitia a ligação para outro salão já no piso térreo, mas que só abria para dentro. Foi assim que os bombeiros, que nunca vistoriaram este edifício nem depois das obras que o mesmo sofreu há uma década, os encontraram quando chegaram ao local. Um cenário de corpos amontoados.

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Foi em “breves instantes” que a cobertura do salão onde cerca de 70 pessoas jogavam à sueca entrou em combustão e precipitou a tragédia que matou oito pessoas na Associação Recreativa de Vila Nova da Rainha, Tondela, na noite de sábado. Bastaram “alguns segundos” para o tecto entrar em colapso. Os participantes tentaram fugir e precipitaram-se para as escadas que dão acesso ao rés-do-chão. Desorientados pelo fumo e com pedaços da cobertura a cair-lhes em cima, muitos acabaram amontoados e esmagados junto a duas portas: a que dava acesso ao exterior, mas que estava trancada, e a que permitia a ligação para outro salão já no piso térreo, mas que só abria para dentro. Foi assim que os bombeiros, que nunca vistoriaram este edifício nem depois das obras que o mesmo sofreu há uma década, os encontraram quando chegaram ao local. Um cenário de corpos amontoados.

O tecto falso que desabou estava revestido de material altamente combustível (poliuretano expandido) que, em contacto com o tubo de exaustão de uma salamandra instalada no salão do primeiro piso, provocou o que todos consideraram ser uma “situação catastrófica”. Além das oito vítimas mortais — sete homens e uma mulher, quatro deles residentes naquela freguesia —, a tragédia provocou ainda um total de 38 feridos, dos quais 18 estão internados em estado considerado grave nos hospitais de Viseu, Coimbra, Lisboa e Porto. A maior parte das vítimas tinha entre 60 a 70 anos.

O tubo passava pelo meio de um tecto falso construído com placas de gesso cartonado e com isolamento em lã de rocha. Por cima desse tecto falso existia uma cobertura em chapa que estava revestida com poliuretano, um material de combustão rápida. O fogo terá começado precisamente entre a parte superior deste tecto falso e o revestimento térmico da chapa da cobertura.

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A propagação, relataram testemunhas ouvidas pelo PÚBLICO no local, foi tão rápida quem em breves segundos toda a mancha do tecto entrou em colapso e com material a arder. “Se aquilo já estava a remoer, bastava um bocadinho de ar para haver ignição”, contou uma testemunha no local. Já o comandante dos Bombeiros Voluntários de Tondela, Carlos Dias, relatou que quando os seus homens chegaram ao local “praticamente não se via fogo”. “Estavam a cair pedaços do tecto como se fosse cera”, descreveu.

Três portas, uma fechada

O material usado na cobertura produziu também grandes quantidades de monóxido de carbono, fumo que terá dificultado o sentido de orientação das pessoas, algumas delas com mobilidade condicionada devido à idade. “As pessoas perderam a noção”, disse o presidente da Câmara de Tondela, José António Jesus, depois de ter ouvido algumas das vítimas que conseguiram escapar ou que ficaram com ferimentos ligeiros. “Os testemunhos indiciam que houve muitas pessoas que terão caído nas escadas e esse amontoado, o pânico, terá originado esta situação catastrófica. Houve uma ou outra que até teve capacidade de reacção e sabia por onde tinha de sair, usando a porta para o lado esquerdo. Mas outras já estavam tombadas na descida da escada”, descreveu. “É um volume considerável de pessoas a quererem fugir em simultâneo. Basta um cair nas escadas e toda a cadeia entra em ruptura”, concluiu.

Na noite do torneio da sueca, estariam a participar entre 60 a 70 pessoas. Para entrar para o salão que se localiza no primeiro andar e onde normalmente decorrem os eventos da associação, os participantes, homens e mulheres, tiveram obrigatoriamente de usar a porta principal do rés-do-chão que dá acesso a um outro salão onde um grupo de pessoas estavam a ver o jogo de futebol entre o Braga e o Benfica. Existe uma terceira porta, mas só com acesso ao bar. Aquando do incêndio, quem estava no andar de cima precipitou-se a correr para as escadas. Ao chegar ao fundo da escadaria tinha duas possibilidades. A porta à esquerda, que conduziria ao salão do rés-do-chão, ou a porta em frente, mais estreita e com saída directa para o exterior, mas que, conta quem frequenta a associação, está sempre trancada. Esta foi a mesma porta que acabou por ser arrombada por populares com recurso a cordas e um jipe. “Ouvimos as pessoas a gritar. Tentámos abrir, mas como aquilo só abre para dentro não conseguimos. Fomos buscar o jipe e arrancámos fora a outra porta. Já só se viam as pessoas empilhadas”, contou Jorge Dias, que estava no bar na altura da tragédia.

Obras há mais de uma década

Junto à associação, já na manhã deste domingo, foram vários os cidadãos que questionaram a segurança do edifício. O maior problema, sublinharam, estava na porta estreita. “Se fosse mais larga e estivesse aberta, talvez esta tragédia tivesse sido menor”, sustentavam.

Nenhuma das testemunhas e autoridades envolvidas no combate confirmaram a existência de extintores no edifício, mas, realçou o autarca de Tondela, “não teriam tido efeito neste caso”. “Tínhamos um tecto todo ele em combustão com uma massa combustível altamente inflamável”, reforçou.

Fundada em 1979, a sede da Associação Recreativa e Humanitária de Vila Nova da Rainha, que chegou a ser uma adega com lagar, sofreu há uma década obras de ampliação que levaram à construção do piso superior, um espaço amplo e com uma grande janela em vidro.

Construído com o “voluntarismo dos seus sócios”, o espaço nunca foi vistoriado pelos bombeiros. Também não se sabe, para já, se as obras foram licenciadas. Segundo a autarquia, como foram intervenções feitas em anteriores mandatos e o caso é recente, os factos ainda terão de ser averiguados.

Certo é que, afirmam vários elementos com funções directivas noutras associações, “muita da legislação, se houver, não é cumprida também por falta de esclarecimentos”. “Muitas destas associações são dos tempos mais antigos e algumas delas nem projectos têm.”