Disputa pela liderança entre uma "barriga de aluguer" e um "passado ligado à JSD"

As divisões no PS-Madeira aprofundam-se. Um dos candidato promete convencer Paulo Cafôfo a avançar contra Miguel Albuquerque, em 2019. O outro conseguiu o melhor resultado de sempre, em 2017.

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Cafôfo vs. Albuquerque, um duelo possível nas eleições regionais madeirenses de 2019 Gregório Cunha

A menos de uma semana das eleições, marcadas para 19 de Janeiro, o PS-Madeira vive dias conturbados com a balcanização dos discursos a contribuir para o aprofundar de divisões entre os militantes.

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A menos de uma semana das eleições, marcadas para 19 de Janeiro, o PS-Madeira vive dias conturbados com a balcanização dos discursos a contribuir para o aprofundar de divisões entre os militantes.

Sem debates previstos a dois (ou a três, mas já lá vamos) por recusa de uma das candidaturas, as duas listas têm intensificado o contacto com militantes por toda a ilha em almoços e jantares de apoio, cuja contabilidade dos presentes é depois derramada nas redes sociais, numa espécie de demonstração de força.

Neste contar de espingardas, entram também os históricos do partido e aqui Carlos Pereira, que lidera o partido desde 2015, apresenta ligeira vantagem reunindo o apoio de dois antigos presidentes do PS-Madeira, Mota Torres e Emanuel Jardim Fernandes, e de ex-deputados como Martins Júnior, Maximiano Martins, André Loja, Ricardo Freitas ou André Escórcio.

Do outro lado, Emanuel Câmara, a cumprir o segundo mandato como autarca do Porto Moniz, uma pequena vila no Norte da Madeira, responde com os nomes de Jacinto Serrão e Vítor Freitas, ex-líderes regionais do partido, Duarte Caldeira, um dos fundadores, e Bernardo Trindade, antigo secretário de Estado do Turismo dos governos de José Sócrates. Mas o principal trunfo é a parceria com Paulo Cafôfo, o independente que ganhou o Funchal em 2013, à frente de uma coligação encabeçada por PS e Bloco, e renovou em Outubro o mandato, agora com maioria absoluta.

Câmara apresenta-se como candidato à liderança do partido, mas garante que se vencer o PS-Madeira será Cafôfo o cabeça-de-lista dos socialistas nas regionais de 2019. Uma dupla candidatura que parece entusiasmar as bases do partido, que sempre esteve arredado do poder no arquipélago.

“Seria um erro histórico não aproveitar o capital político e o trabalho feito pelo Paulo Cafôfo à frente da Câmara do Funchal”, resumiu Emanuel Câmara, no final de Outubro, quando apresentou a candidatura, reiterando que o PS-Madeira precisa de vencedores como ele e como o autarca do Funchal, e não de alguém que nunca ganhou eleições.

Uma indirecta para Carlos Pereira, que a primeira vez que foi a votos, nas autárquicas de 2005, perdeu para Miguel Albuquerque, o social-democrata que preside ao governo madeirense e que será o adversário dos socialistas nas regionais.

Pereira contrapõe com números. O PS, que em 2015, quando chegou à liderança no pós-eleições regionais desse ano, era a quarta força política no arquipélago, tem vindo a subir nas sondagens e nos resultados. Em termos globais, em Outubro passado, o PS obteve o melhor resultado de sempre.

“O que está a acontecer é uma anormalidade e um absurdo político, que nunca aconteceu em partido nenhum”, apontou Carlos Pereira, quando apresentou a recandidatura, dizendo temer que a “candidatura bicéfala” venha a fragilizar a “dinâmica de crescimento” do partido.

Pereira, com uma vasta experiência parlamentar na Madeira e em São Bento, tem tentado levar o debate para um frente-a-frente na televisão e na rádio pública. Admite mesmo que o debate seja feito a três – Carlos Pereira, Emanuel Câmara e Paulo Cafôfo – mas não tem tido sucesso. Câmara justifica a recusa à RTP e à RDP, com a importância de falar directamente para os militantes, acusando o adversário de ser demasiado distante das bases, por ter cumprido os primeiros dois anos da presidência do partido na Assembleia da República.

De um e outro lado, nas redes sociais e nos artigos de opinião de apoiantes, o debate tem resvalado para a crítica pessoalizada nos candidatos. A Emanuel Câmara, acusam de ser uma “barriga de aluguer”, e a Carlos Pereira apontam o passado ligado à JSD e ao PSD.

De acordo com as contas oficiais, são 1.952 militantes socialistas em condições de votar nas internas da próxima sexta-feira. Emanuel Câmara apresenta hoje publicamente a moção ‘Um futuro pelas pessoas’, seguindo-se durante a semana a de Carlos Pereira.

Além da eleição para a liderança, os militantes vão escolher os delegados ao XVIII Congresso Regional, agendado para o início de Fevereiro.