Esta obra do primeiro pintor português vai ser leiloada em Nova Iorque

É visto, justamente, como um pintor italiano, mas nasceu em Évora nos primeiros anos do século XV. Uma das Anunciações que executou vai à praça em Fevereiro e o Museu de Arte Antiga pediu ao Estado que a compre para a pôr perto dos Painéis de São Vicente. Em Portugal só há uma pintura de Álvaro Pires de Évora, o homem que trocou o Alentejo pela Toscana e nunca mais voltou.

Foto
A Anunciação (c. de 1434), de Álvaro Pires de Évora DR

O leilão de uma obra de um pintor português do século XV em Nova Iorque seria o suficiente para gerar alguma curiosidade, mas em se tratando de uma obra do primeiro dos pintores portugueses, de que só se conhecem cerca de 30 pinturas, apenas uma delas num museu nacional, essa curiosidade dá lugar a uma pergunta: “Será que o Estado vai tentar comprá-la?”

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

O leilão de uma obra de um pintor português do século XV em Nova Iorque seria o suficiente para gerar alguma curiosidade, mas em se tratando de uma obra do primeiro dos pintores portugueses, de que só se conhecem cerca de 30 pinturas, apenas uma delas num museu nacional, essa curiosidade dá lugar a uma pergunta: “Será que o Estado vai tentar comprá-la?”

A obra em causa é A Anunciação (c. de 1434) e o seu autor Álvaro Pires de Évora, um pintor que terá nascido em Portugal antes de 1411 e morrido em Itália depois de 1434, e cuja biografia permanece, em grande parte, um mistério. Esta tábua com 30x22cm e quase 600 anos, está há mais de meio século na mesma colecção privada europeia (não portuguesa) e será levada à praça pela Sotheby’s, uma das mais importantes leiloeiras do mundo, a 1 de Fevereiro, estimando-se que seja arrematada por um valor entre os 150 mil e os 250 mil dólares (124 a 205 mil euros).

Sabendo que esta pintura ia a leilão, o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) informou a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), que o tutela, da importância da obra e pediu-lhe que a compre. Afinal, explicaram os técnicos do museu no documento enviado à DGPC nos primeiros dias do ano, trata-se de uma “oportunidade rara” de adquirir um Álvaro Pires, uma vez que são poucas as obras que lhe são atribuídas e ainda menos as que são negociáveis. “A maioria está já em colecções públicas internacionais que não as vão vender”, diz ao PÚBLICO José Alberto Seabra Carvalho, conservador de pintura e director-adjunto do MNAA. “Propusemos a sua compra não só porque é uma tábua lindíssima, com um tipo de execução muito característico do gótico final, requintado, mas porque ela pertence ao primeiro pintor português a quem podemos atribuir obra”, explica, clarificando em seguida: “O nosso museu não tem nenhum Álvaro Pires, o que significa que não tem nada de pintura portuguesa anterior a Nuno Gonçalves [autor dos célebres Painéis de São Vicente, c. 1470]. E isto quer dizer que há uma parte da história da arte portuguesa que nós não podemos contar, sendo que contar essa história é a nossa principal obrigação.”

Contactada pelo PÚBLICO, e sem acrescentar pormenores, a DGPC assegurou, através da sua assessora de imprensa, Maria do Céu Novais, que a informação enviada pelo MNAA “está a ser cuidadosamente analisada”.

A pintura que vai ser leiloada em Nova Iorque, um pequeno painel destinado à devoção privada, íntima, tem a particularidade de ter pertencido à colecção do chanceler Konrad Adenauer, um dos homens-fortes da Alemanha do pós-Guerra, e é o primeiro lote a apresentar numa noite em que estarão à disposição obras de artistas como Lucas Cranach, o Velho, Ticiano, Frans Hals, Bartolomeo Manfredi, Velázquez ou Canaletto.

Uma Virgem surpreendida

“Obras de Álvaro Pires aparecem raramente [à venda]”, diz ao PÚBLICO Christopher Apostle, director do departamento que se ocupa dos mestres da pintura antiga na delegação da Sotheby’s em Nova Iorque. “O último que tive foi há cerca de dez anos, em 2005, um maravilhoso São Miguel que foi vendido por 180 mil dólares (quase 148 mil euros), ainda hoje o recorde para o artista.”

Apostle refere-se ao recorde para o artista em leilão, já que em 2001 o Estado português comprou por 64 mil contos (320 mil euros) directamente a um privado, e através do então Instituto Português de Museus (IPM), parte da actual DGPC, a única pintura de Álvaro Pires que se encontra nas colecções nacionais - A Virgem com o Menino entre S. Bartolomeu e Santo Antão, sob a Anunciação, hoje no acervo do Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, Évora.

Na altura a aquisição foi feita com recurso a mecenas (a Finagra de José Roquette e a Fundação BCP), numa acção absolutamente pioneira em Portugal, disse-o então a directora do IPM, Raquel Henriques da Silva.

Muitas vezes tomado por um pintor italiano, e “justamente”, segundo o conservador de pintura de Arte Antiga, Álvaro Pires tem como uma das suas principais marcas “o amor pelos pormenores luxuosos”, acrescenta o especialista da Sotheby's, para quem esta Anunciação é “encantadora” e “funciona tanto a nível estético como intelectual”.

“A composição do Arcanjo Gabriel, que é mostrado de lado com as suas asas maravilhosamente elegantes levantadas para cima e a sua cara adorável de perfil, faz um belo contraste com a figura vacilante da Madonna, que se encosta para trás, supreendida (como – imagino – eu ficaria se, subitamente, fosse confrontado por um anjo)”, descreve Christopher Apostle, desviando depois o olhar para o canto superior esquerdo da pintura: “A narrativa da cena é completada pela mão de Deus Pai enviando a pomba do Espírito Santo para o ventre da Virgem - o momento em que a Santíssima Trindade encarna.”

Uma vida que é um mistério

Quando em 1994 se organizou a primeira e até aqui única exposição portuguesa dedicada a Álvaro Pires de Évora – na Torre do Tombo, em Lisboa – reuniram-se 12 das 31 tábuas até então catalogadas como pertencendo a este pintor que terá feito a sua formação em Valência, cidade espanhola a onde chegavam muitos pintores italianos, e que se saiba nunca executou obra alguma no país em que nasceu.

“Só sabemos que ele é português porque ele assim o diz”, garante Joaquim Caetano, historiador de arte e também conservador do MNAA, lembrando que o artista fez algo que não era nada comum na época – assinou algumas das suas obras. “Ele é, para todos os efeitos, o primeiro pintor português com obra. Assina três das suas pinturas, embora uma delas se veja já muito mal. Nas tábuas da igreja do Convento da Santa Cruz de Fossabanda [Pisa], por exemplo, escreve ‘Álvaro Pires de Évora Pintou’ [mais concretamente ‘Alvaro Pirez Devora Pintov’].”

Caetano acredita que é bem provável que a sua formação tenha passado por Gherardo Starnina, um pintor italiano que trabalha em Valência e Toledo pouco antes de Álvaro Pires aparecer documentado em Itália (c. 1410).

“Nós não sabemos como se pintava em Portugal nessa altura”, diz Seabra Carvalho. 

Giorgio Vasari (1511-1574), o principal biógrafo dos pintores do Renascimento (é absolutamente fundamental o seu livro Le vite de più eccellenti pittori, scultori e architettori, publicado pela primeira vez em 1550) chama-lhe Alvaro di Piero di Portogallo quando está a escrever sobre outro artista, Taddeo di Bartolo, que, tal como o português, trabalhava em Pisa e Volterra, duas importantes cidades toscanas (Álvaro Pires fá-lo também em Lucca e Livorno).

Apesar de haver estudos anteriores, como os dos portugueses Reynaldo dos Santos e Vergílio Correia, e referências documentais importantes, como a que faz Vasari, a sua obra só começa a conhecer-se melhor, ainda que com muitas lacunas, a partir de 1973, quando Federico Zeri, um historiador especializado na Renascença italiana, publica o ensaio Qualche Appunto Su Alvaro Pirez.

Sabe-se, por exemplo, que pinta muitos santos e cenas da vida da Virgem - também naquela altura mandava o mercado e a ascensão do culto mariano ditava que os encomendadores procurassem imagens da mãe de Jesus –, mas fá-lo mais influenciado pelos florentinos ligados ao passado do que pelos ligados ao futuro, defende Joaquim Caetano. “Nesta Anunciação, apesar de tudo, há uma ideia de expressão da figura que é própria apenas da fase final da sua obra, mas é também muito claro que o Álvaro Pires fica muito preso a essa concepção decorativa e preciosa da pintura que vem de trás.” Preciosa, insiste o historiador de arte, no sentido de rara: “É a pintura antes da sua vulgaridade, quando era ainda um objecto reverencial, mágico.”

O autor desta Anunciação era, sublinha o historiador, um pintor “conservador”, sobretudo se tivermos em conta, argumenta, que a grande revolução do Renascimento se dá na década de 1420, quando tudo em Florença está a mudar com Masaccio e o seu Calvário, com o Duomo de Santa Maria del Fiore, de Filippo Brunelleschi, ainda em construção, ou com a magnífica Porta do Paraíso que Lorenzo Ghiberti faz para o baptistério da catedral da cidade. “Tudo isto acontece à sua volta, mas não passa para o que Álvaro Pires faz.”

Os dois extremos

Caetano, que era em 2001 o director do Museu de Évora, junta-se a Seabra Carvalho no reforço da importância que a compra da obra a leiloar em Nova Iorque tem para o património dos museus portugueses. E lembra que a pintura adquirida há 16 anos pode estabelecer um diálogo interessante com esta porque a primeira é uma obra do início do percurso de Álvaro Pires (c. 1410) e a segunda é feita na maturidade (c. 1430), quando a sua vida estaria já muito próxima do fim, a avaliar pela datação das pinturas que lhe são atribuídas.

“Na fase inicial as figuras têm uma certa robustez que vem da sua aprendizagem. Na final as suas pinturas são mais decorativas, mais exuberantes, e há uma tentativa de movimento que nesta Anunciação se pode ver na forma como os panejamentos se dobram para criar a ilusão de que se estão a mexer”, explica.

Para José Alberto Seabra Carvalho, a do Museu de Évora é obviamente muito mais complexa do ponto de vista da composição - são duas cenas e várias figuras – mas não tem o “impacto visual” desta Anunciação, verdadeiramente “preciosa” pela presença carregada do ouro, pela profusão decorativa dos fundos, pelos vermelhos. “Não há na pintura portuguesa nada com estes fundos dourados.”

Álvaro Pires, “uma espécie de fantasma ausente na pintura portuguesa do século XV”, pinta como na Toscana, volta a lembrar o este conservador de pintura do MNAA: “Qualquer exercício de procurar nas suas pinturas uma originalidade lusitana, uma espécie de portugalidade, será completamente em vão. Mas ele, não há dúvidas, é português, mesmo que pinte só em Itália e à italiana, o que aliás explica, em parte, o interesse que por ele têm os coleccionadores internacionais.”

Ninguém sabe o que poderá acontecer na noite de 1 de Fevereiro a esta Anunciação “com pedigree”, conclui Caetano, mas na Rua das Janelas Verdes não faltará espaço para a receber na sala da pintura portuguesa do século XV, onde Nuno Gonçalves é rei, mas são poucos os que lhe fazem companhia.