O trigo está a ser ameaçado pelas ferrugens

Identificados cenários de propagação mundial da ferrugem-negra, doença fúngica que provoca perdas económicas significativas no trigo. Portugal já sofreu uma epidemia mas de outra ferrugem, a amarela.

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VINCENT KESSLER/reuters

O Iémen é considerado um potencial trampolim para a propagação da ferrugem-negra-do-trigo entre continentes num trabalho científico publicado na revista Nature Plants. Em Portugal, esta doença fúngica não ocorre com frequência, mas a Península Ibérica já sofreu uma epidemia de ferrugem-amarela-do-trigo, que também afecta este cereal.

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O Iémen é considerado um potencial trampolim para a propagação da ferrugem-negra-do-trigo entre continentes num trabalho científico publicado na revista Nature Plants. Em Portugal, esta doença fúngica não ocorre com frequência, mas a Península Ibérica já sofreu uma epidemia de ferrugem-amarela-do-trigo, que também afecta este cereal.

Pela primeira vez, foram quantificadas as circunstâncias – rotas, calendários e dimensão dos surtos – em que as estirpes destrutivas da ferrugem-negra-do-trigo representam uma ameaça de longa distância, desde a África Oriental até às grandes regiões produtoras de trigo, como a Índia e o Paquistão.

A ferrugem-negra-do-trigo (Puccinia graminis), assim designada por causa das pústulas negras nos caules de determinadas espécies de cereais (como o trigo e o centeio), é uma ameaça à produção de alimentos e aos meios de subsistência de pequenos agricultores. O trigo é a segunda maior cultura de cereais do mundo (a seguir ao milho) e um alimento básico, usado para fazer farinha e pão, na alimentação de animais e como ingrediente na produção de cerveja.

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Trigo com o fungo da ferrugem-negra CIMMYT

Em Portugal, a ferrugem-negra não tem sido detectada nos últimos anos, segundo Conceição Gomes, da Secção de Melhoramento de Plantas do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV). Ao PÚBLICO, Conceição Gomes explica que tal pode dever-se à ausência da conjugação de três factores primordiais: de esporos virulentos deste agente patogénico no nosso ambiente; utilização de variedades que, na sua constituição genética, preservam genes que lhes conferem resistência; e ocorrência de condições de temperatura e de humidade que não são favoráveis ao desencadear do processo infeccioso. “Não quer dizer que a protecção das nossas culturas cerealíferas esteja assegurada. Basta que esporos do fungo sejam transportados até ao nosso país e ocorram condições ambientais favoráveis para que [a ferrugem] vença a resistência das variedades semeadas e cause infecção”, alerta.

Ainda recentemente a estirpe RRTTF foi detectada no Equador, o que representa uma ameaça significativa à produção de trigo no Norte e no Sul da América, pois uma grande proporção das culturas é susceptível ao fungo. Além disso, ainda no ano passado foram destruídos milhares de hectares na Sicília (Itália), num dos piores surtos de ferrugem-negra-do-trigo na Europa em mais de 50 anos. E desde o virar do século que têm surgido novas estirpes agressivas deste fungo – como a Ug99, detectada pela primeira vez em 1999 no Uganda –, que infectam inúmeras variedades de trigo. O receio é que estas novas estirpes virulentas se espalhem, através do vento, a partir de locais onde a sua presença já é conhecida para regiões de cultivo importantes, como Punjab, um estado da Índia.

Em 2013 e 2014, a Etiópia sofreu dois surtos graves, causados não pela Ug99 mas pela estirpe TKTTF, que até então só tinha sido detectada no Médio Oriente. E em 2016 voltou a sofrer um surto de uma nova estirpe de outra doença fúngica, a ferrugem-amarela-do-trigo (Puccinia striiformis), que provocou a perda de dezenas de milhares de hectares de trigo.

Portugal também sofreu uma epidemia em 2013 e 2014, causada por uma outra estirpe de ferrugem-amarela, a Warrior, que é, segundo material de divulgação de 2015 do INIAV, “caracterizada por combinar um largo espectro de virulência que lhe permite atacar tanto o trigo mole como o trigo duro e o triticale”, um cereal híbrido, resultante do cruzamento do trigo com o centeio. “Fomos fustigados pela sua virulência”, diz ao PÚBLICO Benvindo Maçãs, do INIAV, que explica que a ferrugem-amarela se manifesta “mais cedo no ciclo vegetativo das plantas, por isso numa altura em que há melhores condições para a propagação do fungo”.

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Ferrugem-amarela-do-trigo Andrew Davis/Centro John Innes

O director da Unidade de Investigação e Serviços de Biotecnologia e Recursos Genéticos do INIAV acrescenta que a ferrugem-amarela faz parte das suas preocupações: “Estamos a trabalhar arduamente em investigação, tanto do lado da genética como do lado da agronomia. Mas não tem sido fácil e ainda não encontrámos o gene de resistência [no trigo] mais adequado para combater a ferrugem-amarela.”

A ferrugem-amarela afecta sobretudo os Estados Unidos, a China e a Austrália, segundo o material de divulgação do INIAV. E a Warrior, em particular, para além da Península Ibérica, também afectou o Reino Unido, a França, Alemanha, Dinamarca a Suécia.

Na senda de Norman Borlaug

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) já alertou para a necessidade de vigiar os países da Europa e do Norte de África, para se evitarem eventuais epidemias das ferrugens do trigo. E está a colaborar com o Centro de Melhoramento do Milho e do Trigo (CYMMT), bem como o Centro Internacional para a Investigação Agrícola em Zonas Áridas e a Universidade de Aarhus (Dinamarca), na Iniciativa Global Borlaug para a Ferrugem (BGRI), um consórcio que reúne esforços no combate aos surtos destes fungos.

A BGRI foi criada em homenagem ao cientista Norman Borlaug (1914-2009). Considerado o “pai da agricultura moderna”, ganhou o Prémio Nobel da Paz em 1970 por ter dedicado toda a sua vida a melhorar o rendimento dos cereais, desenvolvendo variedades de trigo e de outros cereais que fossem resistentes às doenças, mas também capazes de produzir muito mais do que as variedades tradicionais.

Voltando ao artigo na revista Nature Plants, uma equipa de cientistas da Universidade de Cambridge, dos Serviços Meteorológicos do Reino Unido (Met Office) e do CYMMT adaptou um modelo – previamente usado para prever a dispersão de cinzas de vulcões em erupção e de radiação proveniente de acidentes nucleares – para antever quando e onde é mais provável que a Ug99 e outras estirpes se propaguem.

Para adaptar o modelo, os cientistas usaram levantamentos de campo da doença feitos pelo CYMMT e dados meteorológicos do Met Office e, assim, obtiveram-se as primeiras estimativas de difusão de esporos da ferrugem-negra a longo prazo para diferentes cenários de surtos.

“Novas estirpes de ferrugem-negra ameaçam o trigo por todo o mundo, e precisamos de saber que áreas estão em risco”, sublinhou um dos autores do trabalho, Chris Gilligan, da Universidade de Cambridge, em comunicado da universidade.

Os resultados do estudo confirmam o papel do Nepal como um importante emissor da doença em áreas de cultivo de trigo na Índia e indicam o Iémen como um potencial trampolim para a propagação da ferrugem-negra para a África Oriental, o Médio Oriente e o Sul da Ásia.

Se o Irão vier a sofrer um surto moderado de Ug99 – mais de mil hectares –, então é muito provável que os esporos se espalhem para o Afeganistão, e daí até às planícies do Norte do Paquistão e da Índia. A propagação através desta rota só poderá acontecer, contudo, entre Março e Abril, antes das colheitas no Sul da Ásia.

“Por causa do nosso trabalho, acreditamos que se começarmos a detectar a Ug99 ou outra nova estirpe de ferrugem-negra no Iémen no início da Primavera, então é necessário agir imediatamente para mitigar o risco de difusão”, afirma Gilligan.

A equipa considera que o modelo que desenvolveu “pode ser aplicado a outras áreas geográficas, adaptado a outros fungos patogénicos e fornecer avaliações de risco quase em tempo real para surtos de doenças”. A equipa está agora a criar um sistema de previsão e alerta precoce do risco de propagação da ferrugem-negra na Etiópia, a maior região produtora de trigo da África subsariana.

Texto editado por Teresa Firmino