Rio quer estar ao centro e recusa ser "muleta" de Costa

Ex-autarca do Porto começa o discurso a citar António Costa, afirmando que palavra dada é palavra honrada. Vê o PSD numa "situação particularmente difícil".

Fotogaleria

Sem barões ou figurões do PSD, Rui Rio assumiu-se candidato, com “os dois pés” – slogan da sua recandidatura de 2009 à Câmara do Porto -, à liderança do partido. Foi uma declaração geral e não programática, mas em que quis encostar o PSD ao centro – “não é da direita” – e afastar o partido da condição de “muleta” do poder.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Sem barões ou figurões do PSD, Rui Rio assumiu-se candidato, com “os dois pés” – slogan da sua recandidatura de 2009 à Câmara do Porto -, à liderança do partido. Foi uma declaração geral e não programática, mas em que quis encostar o PSD ao centro – “não é da direita” – e afastar o partido da condição de “muleta” do poder.

Num discurso de perto de 20 minutos, num hotel em Aveiro, o ex-presidente da Câmara do Porto apontou o posicionamento que quer para o partido. E esse foi dos momentos da sua intervenção em que foi mais claro. “O PSD não é um partido de direita como alguns o querem caracterizar", reforçou. Lembrou o PPD – como Pedro Santana Lopes se refere sempre ao partido – dos fundadores Sá Carneiro e Pinto Balsemão como tendo raízes na classe média. “É um partido de centro-direita que vai do centro-direita ao centro-esquerda”, afirmou. O centro político é quase sempre muito disputado e é aí que a líder do  CDS, Assunção Cristas, também quer colocar o seu partido. 

Assumindo que é preciso “mudar de política”, o candidato à liderança do PSD considerou “urgente que o PSD seja o agente dessa mudança”, como um partido “mais aberto à sociedade e mais ligado umbilicalmente aos portugueses”. E colocou o PSD como alternativa à “coligação parlamentar” – nunca disse "geringonça" – que “nos governa”, no país. Como alternativa, mas não em segundo plano: “O PSD é um partido de poder, não é muleta de poder.”

Rio fez também da sua candidatura o primeiro dia da “caminhada de reconciliação” com os portugueses com quem, defendeu, o PSD precisa de “renovar o contrato de confiança”. E tentou desfazer a ideia de que representa uma geração mais velha. “No PSD por mim presidido não há rupturas geracionais. Todos somos importantes”, afirmou, numa reacção clara aos que no partido reclamavam um novo líder da geração, ou de outra ainda mais jovem, de Pedro Passos Coelho. Referindo-se ao país, Rio também sublinhou a ideia de unidade: “Não somos um país de novos contra velhos, do litoral contra o interior, de funcionários públicos contra privados”.

Em tom justificativo, Rui Rio gastou boa parte do seu discurso a explicar por que razão se escusou a candidatar-se a cargos nacionais quando ainda presidia à Câmara do Porto. “Se há coisa que a política portuguesa precisa é de um banho de ética. Não vale tudo”, afirmou, recorrendo até a uma frase repetida pelo primeiro-ministro – “palavra dada é palavra honrada”.

O candidato argumentou que o PSD vivia, na altura, um momento de “relativa normalidade”, em contraste com o de hoje. “Hoje, temos de o dizer com frontalidade, o PSD está numa situação particularmente difícil. Uma situação que, se não for, desde já, combatida, pode conduzir o partido para um patamar de menor relevância no quadro político nacional, como aconteceu noutros países europeus”. Agora, acrescentou, é um político livre de compromissos: “Se no tempo próprio estava com os dois pés no Porto, agora no tempo próprio estou com os dois pés no PSD.”

Argumentou que avança para a liderança por dever de cidadania e tentou destruir a ideia de que a sua candidatura visa denegrir o consulado de Passos Coelho. “Comigo a presidente, o PSD não se esquecerá de Pedro Passos Coelho, nem de todos os demais que, de forma correcta, leal e altruísta, serviram o partido ao longo dos tempos", afirmou, num piscar de olhos aos militantes que não querem apoiar Rio por considerarem que é uma candidatura anti-Passos Coelho.

Na sessão, tal como deixava antever, Rio não esteve disponível para responder a perguntas dos jornalistas. No final, foi questionado sobre essa mesma decisão por uma repórter da SIC. “Tem três meses para me fazer perguntas, e eu tenho três meses para responder”, argumentou.

Na sala do hotel onde realizou o anúncio, estavam alguns deputados – como Carlos Peixoto (eleito pela Guarda), Bruno Coimbra (Aveiro), Rubina Berardo (Madeira) e Rui Silva (Braga e líder da concelhia de Vila Verde) – e também apoiantes como o ex-ministro Arlindo Cunha e Rodrigo Gonçalves (Lisboa). Segundo a Lusa, estavam também presentes o antigo secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares António Montalvão Machado, o antigo vice-presidente da bancada Jorge Neto, o ex-líder dos Trabalhadores Sociais-Democratas Arménio Santos, o ex-líder da distrital do Porto Virgílio Macedo, o professor e médico da Universidade do Porto Rui Nunes e o presidente da Câmara da Guarda e líder dos Autarcas Sociais-Democratas, Álvaro Amaro. Faltaram figuras que estavam próximas da sua candidatura – como Pedro Rodrigues, ex-líder da JSD – que guarda a sua posição sobre os candidatos para mais tarde.

Na geografia dos apoios, Rui Rio poderá ter mais dificuldades nos distritos de Braga e de Viseu. O candidato terá de compensar essa diferença com os distritos do Porto, Aveiro e Coimbra. No caso de Lisboa, o PSD deverá estar muito dividido entre Rio e Santana Lopes.