Furacão Harvey: De exemplos de solidariedade a portas fechadas

O balanço actual da tempestade aponta para 22 mortos e 40.000 habitações destruídas.
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Reuters/HANDOUT

O número de vítimas mortais que Harvey causou já ultrapassou as duas dezenas. Esta quarta-feira, o nível da água começou finalmente a descer e o risco de novas cheias diminuiu, revelaram as autoridades do condado de Harris. No entanto, os prejuízos que se somam às vítimas são muito maiores do que aqueles já contabilizados em Houston, a quarta maior cidade dos Estados Unidos. O primeiro balanço aponta para cerca de 40.000 habitações afectadas pelas cheias torrenciais provocadas pelo furacão, agora uma tempestade tropical.

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“O número de [de habitações danificadas] pode ser ainda superior, não saberemos até entrarmos nestes bairros”, disse um dos administradores do condado, Ed Emmett, cita a agência Reuters. Muitos dos danos são “irreparáveis”. No entanto, as autoridades continuam a receber doações e apoio voluntário, detalha Emmet. “Iremos ter meses, talvez anos, muito difíceis pela frente”, antecipou.

Com milhares de habitações destruídas, estradas intransitáveis, aeroportos encerrados, hospitais evacuados e sem acesso a comida e água potável, a população afectada está mais dependente da solidariedade e da resposta das autoridades. E as reparações de todos os estragos podem demorar anos, mas a ajuda é urgente. Os exemplos de solidariedade têm-se multiplicado por estes dias, com várias histórias a serem partilhadas. O PÚBLICO seleccionou algumas.

A loja que virou lar

Não é a primeira vez que Jim McIngvale abre as portas da sua loja num gesto de solidariedade. Já em 2005, com o furacão Katrina, o dono da loja de mobiliário transformou o seu espaço num abrigo. Este domingo, face à tragédia provocada pelo furacão Harvey, as suas portas abriram-se novamente e garantiram segurança e conforto a quem perdeu casa com a tempestade que está a destruir a cidade de Houston.

Além de abrir as portas a quem chegava, Jim McIngvale deu instruções à sua equipa que opera o transporte do mobiliário para utilizar os veículos para ir resgatar vítimas do furacão. Rapidamente a loja atingiu a sua capacidade, garantindo abrigo a cerca de 400 pessoas.

Os colchões expostos transformaram-se em espaços para as crianças brincarem e garantiram descanso. As mesas encheram-se de refeições. Os sofás novos também não ficaram excluídos. No meio do caos, o negócio de McIngvale é o lar temporário de quem tudo perdeu.

“Vendemos mobiliário para casas que vêem na TV. Eles estão a dormir nessas mobílias. Estão a dormir em espreguiçadeiras, sofás e bancos. Temos também sofás-cama que abrimos e estão a dormir lá”, detalhou McIngvale à NPR. “Estão a dormir em centenas de colchões pela loja. Estão a dormir em sofás – onde quer que se sintam confortáveis. E que Deus os abençoe”, conclui.

Na página de Twitter da loja, McIngvale agradeceu ainda a vários restaurantes pela comida distribuída às vítimas e a voluntários que têm contribuído na resposta à tragédia.

Um barco por "algumas vidas"

Um homem chega à cidade vindo de Texas City com o seu barco. Quando questionado sobre o motivo da sua viagem, a grandeza do gesto foi resumida numa simples resposta: "Vim tentar salvar algumas vidas."

Correr para salvar

Depois de ver o seu estúdio ficar completamente inundado e a ter de ser evacuado, a repórter Brandi Smith e o seu colega de imagem Mario Sandoval, do canal local KHOU, mantiveram-se em reportagem no local. Foi no meio da transmissão que a jornalista interrompeu o seu trabalho para fazer parar uma equipa de salvamento e alertar para um motorista preso num camião parcialmente submerso. O momento foi inteiramente gravado e transmitido.

A igreja de portas fechadas

Muitas foram as críticas à igreja liderada por Joel Osteen que, durante os primeiros dias, se manteve de portas encerradas. O espaço da Igreja Lakewood, com capacidade para pelo menos 16 mil pessoas, teria as condições ideais para receber desalojados e vítimas do furacão, apontaram várias pessoas, que argumentaram, por exemplo, que várias mesquitas da região disponibilizaram-se para abrigar as vítimas.

Só esta terça-feira, depois de as críticas se multiplicarem é que o pastor Joel Osteen anunciou a abertura das portas do edifício. No domingo, a Igreja Lakewood tinha dito que partes do edifício estavam inundadas e que por essa razão não estavam a receber pessoas. Várias pessoas desmentiram a informação e disseram que apenas algumas zonas do parque de estacionamento estavam com água, estando o restante edifício capaz de prestar auxílio.