O oficial de ligação entre o mundo secreto das plantas e os cientistas

José Rosa Pinto, coronel de infantaria que se fez botânico por paixão, identifica e conta a história das mais de 1700 plantas existentes no barrocal algarvio. Professores e alunos não dispensam os seus ensinamentos.

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Rosa Pinto não precisa de puxar pelos galões, em botânica, para ser considerado pela comunidade científica uma autoridade na matéria. A Universidade do Algarve (UAlg) entregou-lhe a chave do herbário, onde se encontram mais de 14 mil plantas à sua guarda. Por seu lado, os alunos consideram que se trata de um mestre na arte de contar a história dos usos e costumes das comunidades através da vida das plantas.  

Carlos Pinto Gomes, professor da Universidade de Évora, diz ter “excelentes recordações” deste botânico durante os quatro ou cinco anos que passaram juntos a percorrer o interior do Algarve. “Ensinou-me os cantos, recantos e encantos do barrocal”. Em homenagem ao seu conhecimento, diz, “dediquei a um carvalho o seu nome”. Noutra ocasião, quando a UAlg o convidou para professor auxiliar - durante cinco anos, Rosa Pinto foi professor auxiliar convidado, em regime de voluntariado, na Faculdade de Engenharia e Recursos Naturais -, sublinha, “fui eu quem fez o parecer para o Conselho Científico, e foi admitido”. O conhecimento que adquiriu na área da botânica, recorda, “deve-se à sua grande sensibilidade e vontade de aprender”. Primeiro, começou por reter o nome comum das plantas que ia colecionando. Depois, passou a assimilar a linguagem científica e a respeitabilidade subiu de cotação. “Um dia, disse-me, satisfeito: fui fazer uma palestra à Universidade e os professores eram alunos – tomavam apontamentos”, confidencia.  O “senhor coronel”, como é tratado pela academia, usa simplicidade natural como arma contra as tentativas de o tratarem por especialista.   

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A fazer "festinhas” às flores do campo

O gosto pela descoberta da natureza surgiu-lhe em terras africanas –  Moçambique,  Guiné-Bissau e Angola -  onde cumpriu serviço militar em várias missões, nem sempre tão pacíficas quanto a observação da flora e da fauna.  “A minha primeira paixão foi pelos insectos”, conta, lembrando algumas das subtilezas dos bichos para se defenderem dos predadores. Mas, a determinada altura, refere, sentiu-se triste: “Achei que os bichos sofriam, quando os apanhava”. Mudou de interesses: passou a “fazer festinhas” às flores do campo. Elas, por sua vez, respondem por sinais (às vezes, perfumados), dando a conhecer a forma como se sentem no seu habitat.  “Assim, fiz-me colecionador”, diz, lamentando a falta de botânicos na região: “A Universidade do Algarve não tem um botânico de raiz”. Quem ensina a cadeira, transversal a vários cursos, são professores, com outras formações de base. Maria Manuela David, que tem a direcção científica do herbário, doutorou-se em Ciências Biológicas e Biologia Vegetal como área de investigação.

“O coronel Rosa Pinto é um botânico”, diz Carlos Pinto Gomes, salientando uma das suas particularidades: “Conhece plantas únicas que existem no Algarve e a forma como se comportam - algumas só aparecem de quatro em quatro anos”. Discordâncias? Apenas num ponto: “Nas saídas de campo, não dispensava o seu bolinho. Por isso, ganho uma diabetes”.

De entre os antigos alunos da UAlg, Luís Brás, licenciado em engenharia agronómica e dirigente da associação ambientalista Almargem, enfatiza: “Foi o meu mestre de campo”. Os passeios que deram pela Fonte da Benémola e outras áreas protegidas, reconhece, fizeram-no despertar para as causas ecológicas. O conhecimento que transmite, acrescenta Brás, “são coisas que não se esquecem, sobretudo pela forma apaixonada como fala da flora”. O herbário da UAlg, além de contar com a sua colaboração na organização, foi enriquecido com os exemplares que recolheu ao longo da vida, pelos muitos locais por onde passou, mas principalmente no barrocal e serra do Algarve. “Só da minha colecção deixei lá cerca de 2500 plantas ao serviço da Universidade”, diz.   

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Numa aula de campo da disciplina de Ecologia Vegetal cortesia maria joão correia

"Gosto do campo"

O estado de saúde de Rosa Pinto, nos últimos seis meses, ficou um pouco abalado em consequência da morte de dois dos seus familiares mais próximos. “Preciso de voltar à actividade”, admite, queixando-se de algumas dificuldades para voltar a calçar as botas e partir pelos montes e vales, na descoberta da natureza que se renova e o surpreende a cada passo. “Espero contar com ele em breve, para sair connosco e ajudar-me”, diz o professor José Monteiro, da UAlg, destacando que este coronel de Infantaria “tornou-se um especialista” na forma como, rapidamente, identifica as plantas sem necessitar de se socorrer dos livros. “Sim, gosto do campo”, sublinha o naturalista que foi apanhado pelo processo da descolonização, no pós-25 de Abril, quando era capitão em Angola. Nessa altura, enquanto oficial de ligação com os movimentos de libertação, recorda, “senti-me várias vezes entre a espada e a parede – os tempos foram difíceis”. Regressado a Portugal, foi colocado nos Açores. Matriculou-se na universidade em Ponta Delgada. Quando frequentava o terceiro ano de Biologia, o dever militar chamou-o para o continente. Por uns tempos, o estudo da botânica foi colocado entre parêntesis.

Maria Manuela David conheceu-o em visitas, organizadas pela Liga para a Protecção da Natureza (LPN) e outras associações ambientalistas, onde ele ensinava a identificar as cerca de 1700 plantas que existem no barrocal e serra algarvia. Um dia lançou-lhe o desafio: “Quer organizar o herbário da Universidade?” A pergunta teve resposta imediata: “Isso seria o meu sonho”. A partir desse momento, e já passaram duas dezenas de anos, nunca mais deixou de colaborar com a comunidade científica. Organiza excursões botânicas para diversos profissionais – cientistas da Universidade do Algarve, Universidade de Évora, Sociedade Portuguesa de Fitossociologia e outras instituições públicas. “Todo o seu trabalho é voluntário”, enfatiza a investigadora, destacando ainda que a sua assinatura surge em co-autoria em mais de uma dezena e meia de publicações sobre a flora algarvia. Em reconhecimento pelos serviços prestados, o Senado Académico, em 2012, atribuiu-lhe a primeira Medalha de Mérito da Universidade do Algarve.

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A pergunta 'Quer organizar o herbário da Universidade?' teve resposta imediata: “Isso seria o meu sonho”

Fernando Pessoa, responsável pela criação de curso de arquitectura paisagista na UAlg (1997/1998), reconhece em Rosa Pinto  “uma autoridade na matéria [botânica] que soube passar aos alunos”. Por sua vez, o arquitecto e dirigente da LPN/Algarve, Gonçalo Gomes, confirma: “Conhecedor profundo e um excelente contador da história das plantas e habitats. Participei em várias actividades, em visitas de estudo, ninguém fica indiferente à forma como comunica e transmite o seus conhecimentos”. Para quase tudo o que encontra pelo mato, diz, encontra uma explicação, a lembrar aos mais distraídos que a flora não surge por acaso. Dois exemplos práticos e curiosos sobre a utilização das plantas silvestres: a mariola ou roselha-grande, com as suas folhas aveludadas, era usada para substituir o detergente na lavagem da louça. O trovisco, planta venenosa, tinha outras funções: “Os mendigos esfregavam-na na pele, causando feridas, com o objectivo de aumentar a compaixão”. Para tornar mais acessível o conhecimento das plantas da serra do Caldeirão e Barrocal, Rosa Pinto escreveu Flora do Algarve,  com fotos e ilustração de Sebastião Pernes, editado pela Associação In Loco, em 2010. Através desse guia, fica-se a conhecer o lado menos divulgado de alguns espécimes. O medronho, por exemplo, não é apenas um arbusto ou árvore donde se extrai a aguardente a partir do fruto. A casca e as folhas podem ser também usadas para fins medicinais - combater infecções do aparelho urinário e diarreias. No que diz respeito às flores do rosmaninho, com habitat em lugares secos e pedregosos, descreve: “Extrai-se um óleo volátil, muito perfumado que se aplica em cosmética e perfumaria”. 

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Durante os trabalhos de levantamento da flora do Pontal para um projecto do herbário cortesia manuela david

A voz das plantas

O espaço académico representa o castelo/fortaleza deste militar, que se põe à defesa quando lhe falam em aulas teóricas de botânica. “Gosto é de ir para o campo, e aprendo com toda a gente”. As plantas que recolheu estão “organizadas por famílias” no herbário. As plantas falam? O naturalista responde: “Não têm órgãos vocais, mas têm sensibilidade, emitem sinais através dos cheiros”.

A relação de proximidade de Rosa Pinto com a comunidade científica da UAlg começou em 2010. Mas o contacto com o mundo académico e outras instituições já vinha de trás. Desde 1997 que Rosa Pinto organiza excursões botânicas, dando apoio e consultadoria na identificação de espécimes de plantas, sobretudo da flora do Algarve. Luís Brás lembra-se das suas aulas práticas: “A forma informal e descontraída como abordava os assuntos, parecia que dialogava com a Natureza”.  

Ricardo Canas, arquitecto paisagista da câmara de Loulé, fez doutoramento em botânica e geo-botânica e é um dos investigadores envolvidos no projecto que vai fazer o levantamento da “lista vermelha da flora vascular portuguesa", equipa que contará com Rosa Pinto. O projecto deverá estar concluído em Setembro do próximo ano. Diz Ricardo Canas: “Ajudou-me muito na minha tese”. Continua: “Quando digo que ele é um grande cientista, farta-se de rir, porque não acredita”. No fundo, acrescenta, “acho que não se leva muito a sério, por ser uma pessoa bastante modesta”. Por seu lado, Carlos Pinto Gomes sublinha o elogio: É altamente conhecedor, e estou a contar com ele para o levantamento do carvalho-de-Monchique”. A espécime, cujo universo está reduzido a uma ou duas dezenas de exemplares, corre riscos de extinção.   

A meio da semana, depois de uma visita de rotina ao herbário, desabafa: “Está tudo castanho”. Refere-se ao campus universitário das Gambelas em redor. O pasto seco debaixo do pinhal não lhe traz boas recordações. Os fogos, sublinha, continuam a invadir o país de Norte a Sul e a biodiversidade empobrece de ano para ano. Entre 2004 e 2005, foi ele o escolhido pela Comissão Regional de Reflorestação do Algarve para realizar a cartografia do projecto para a recuperação das áreas ardidas nos incêndios de 2003 na região.

Maria Manuela David arrisca dizer que sem a ajuda de Rosa Pinto “se calhar o herbário ainda não estaria montado”. O projecto começou em 1984 com o primeiro reitor da Universidade do Algarve, o silvicultor Manuel Gomes Guerreiro, que adquiriu, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, a primeira colecção à família Antunes Guerra. Por falta de espaço, o material esteve empacotado uma década. Actualmente estão ali guardadas 14 mil plantas vasculares, principalmente do continente, e 11.100 algas.