Tancos: Chefe das secretas considera “razoáveis” suspeitas de cumplicidade interna

SIS soube do roubo “pela comunicação social”. Júlio Pereira acredita que armas roubadas em Tancos serão vendidas no mercado negro e sugere que se “repense” a segurança das armas em Portugal.

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As suspeitas de cumplicidade interna no assalto a Tancos são “razoáveis”, o mercado negro de armas de fogo em Portugal “continua a constituir uma preocupação securitária” e o desaparecimento de armamento e explosivos de uso militar e policial deve levar a “repensar” o actual sistema de segurança. Três mensagens importantes deixadas esta quinta-feira pelo secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) na Comissão de Defesa, onde revelou que o SIS teve conhecimento do assalto a Tancos “pela comunicação social”.

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As suspeitas de cumplicidade interna no assalto a Tancos são “razoáveis”, o mercado negro de armas de fogo em Portugal “continua a constituir uma preocupação securitária” e o desaparecimento de armamento e explosivos de uso militar e policial deve levar a “repensar” o actual sistema de segurança. Três mensagens importantes deixadas esta quinta-feira pelo secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) na Comissão de Defesa, onde revelou que o SIS teve conhecimento do assalto a Tancos “pela comunicação social”.

Numa inédita audição à porta aberta, o chefe das secretas fez uma intervenção inicial em que explicou que, para proceder à avaliação do risco que o roubo de material militar poderia representar para o país, foram equacionados vários cenários – criminalidade organizada,  ameaças terroristas ou extremistas – e que se concluiu pela primeira.

Foi nesse contexto que afirmou ser “especialmente preocupante” a “intenção e capacidade de grupos criminosos” de infiltrar “estruturas estatais”. “Gostaria de mencionar o risco associado à saída das Forças Armadas de indivíduos que aí prestaram serviço, em especial nas forças especiais, e que posteriormente, sem qualificações que não sejam militares, se vêem integrados na vida civil sem grandes perspectivas de futuro", disse, referindo que este perigo foi descrito já no relatório de segurança interna de 2014. “O fenómeno deveria ser objecto de acompanhamento pelas entidades competentes”, considerou ainda.

Na fase das perguntas, Júlio Pereira havia de considerar como “razoáveis” os argumentos de que um assalto como o de Tancos exigiria “cumplicidade interna, designadamente se conjugarmos estes factos com outros factos que aconteceram anteriormente", afirmou, sem explicar a que se referia.

Mais à frente, afirmou que “há um grande mercado para este tipo de material de guerra”, mas acrescentou que os serviços de informações estão “convencidos de que [Tancos] estará mais associado ao crime organizado”, mas consideram “pouco provável que [as armas] sejam utilizadas contra o território nacional”.

Júlio Pereira acabou assim por justificar o motivo pelo qual o SIS manteve em "moderado" o nível de ameaça do país: “Quando acontece uma situação destas, há sempre uma preocupação, mas ela foi-se dissipando a partir do momento em que fizemos a avaliação da ameaça”, disse, embora rejeitando que tenha havido uma “desvalorização” do caso.

O chefe das "secretas" deixou ainda claro que alguma coisa falhou em matéria de informação neste caso, completando aquilo que a secretária-geral do Sistema de Segurança Interna já tinha deixado perceber na terça-feira, quando revelou ter tido conhecimento do caso pelas notícias. “Tomei conhecimento através do SIS, que soube pela comunicação social. Penso que a comunicação oficial só aconteceu na reunião da UCAT [Unidade de Coordenação Anti-Terrorismo] que decorreu no dia 30”, afirmou o chefe das secretas, por duas vezes.

Questionado várias vezes sobre esta falta de informação dentro do sistema, o responsável explicou que essa descoordenação teria a ver com os vários niveis de segurança: “O material militar é uma questão de segurança militar, mas a partir do momento em que desaparece das instalações militares, passa a ser uma ameaça à segurança interna. Porventura não terá havido imediata atenção desse facto, eventualmente terá agora sido aprendida a lição”.

No final da audição, o presidente da comissão, Marco António Costa, defendeu que este caso deve ser “objecto de reflexão em nome dos interesses do Estado”. Ao PÚBLICO, acrescentou apenas que a comissão aguarda que o Governo envie, como pedido, “o relatório do Exército sobre as averiguações que levaram à destituição de cinco coronéis e à sua readmissão", para que os deputados possam "também perceber se há alguma explicação plausível para o buraco temporal em que não é comunicado ao Sistema de Segurança Interna nem ao SIS a ocorrência do furto e que de alguma forma impediu que as instituições de segurança interna reagissem atempadamente”.