Papa cria uma nova via para a santidade - a "oferta da vida"

Quem dá a vida pelo bem dos outros "manifesta uma verdadeira, completa e exemplar imitação de Cristo", escreve Francisco na sua Carta Apostólica.

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O Papa sublinha que para a beatificação é necessário que a pessoa goze de uma “reputação de santidade” antes da sua morte Tony Gentile/Reuters

O Papa criou uma quarta via para o reconhecimento da santidade. Numa carta apostólica divulgada terça-feira, Francisco afirma que aqueles que “oferecem a vida” pelo bem de outros são dignos de culto por parte da Igreja, à semelhança do que já acontece com os mártires.

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O Papa criou uma quarta via para o reconhecimento da santidade. Numa carta apostólica divulgada terça-feira, Francisco afirma que aqueles que “oferecem a vida” pelo bem de outros são dignos de culto por parte da Igreja, à semelhança do que já acontece com os mártires.

“A oferta heróica da vida, sugerida e apoiada pela caridade, manifesta uma verdadeira, completa e exemplar imitação de Cristo e, por consequência merece a admiração que a comunidade dos fiéis reserva habitualmente aos que aceitaram voluntariamente o martírio do sangue ou exerceram um grau heróico de virtudes cristãs”, escreve o Papa na Carta Maiorem hac dilectionem (Não há amor Maior).

O jornal La Croix sublinha que já o Papa Bento XIV tinha previsto, no século XVIII, que a Igreja reconhecesse o exemplo dos que, de forma heróica, dão a vida pelos outros, mesmo na ausência de perseguidores (como acontece com os mártires). No entanto, há apenas registo de um processo concluído nessa base, em 1995 – o  padre Damien de Veuster, que morreu em 1889, quando se ocupava do tratamento de leprosos no Havai foi beatificado em 1995 e proclamado “mártir da caridade”, explica o diário francês.

Para que seja possível a beatificação, sublinha o Papa, é necessário que haja “uma oferta livre e voluntária da vida” e que a pessoa em causa tenha praticado “pelo menos a um nível ordinário, as virtudes de Cristo”, gozando de uma “reputação de santidade” antes da sua morte. Será igualmente preciso o reconhecimento de um milagre ocorrido por intercessão da pessoa em causa, já depois da sua morte. Para a canonização é depois necessária a comprovação de um segundo milagre.

“Trata-se de uma nova forma de valorizar um testemunho cristão heróico que não tinha, até agora, um procedimento particular, por não correspondia nem ao previsto para o caso de martírio, nem para o das virtudes heróicas, as duas vias normais para a beatificação e santidade”, explicou Marcello Bartolucci, secretário da Congregação para a Causa dos Santos, ouvido pelo jornal do Vaticano L’Osservatore Romano.

Há ainda uma terceira via, menos conhecida e usada, explica Bartolucci, para os casos em que o Papa reconhece, por simples decreto, o culto antigo e espontâneo de um santo, dispensando os procedimentos normais – uma prática usada há séculos e conhecida como “casus excepti”.

A agência AFP adianta que esta nova via para a beatificação poderá ser usada no caso de Chiara Corbella, uma italiana de 18 anos que recusou ser tratada a um carcinoma, um tipo de cancro de pele, porque estava grávida e temia que o tratamento afectasse o feto. Acabou por morrer em 2012, quase um ano depois de dar à luz.