A mentalidade a mudar e as oportunidades a crescerem

Em mais de três décadas, foram criadas as condições para um salto em frente. Agora, falta a continuidade na aposta e no investimento.

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Um segundo lugar, atrás da Espanha, na fase de qualificação para o Europeu de 2017, valeu a Portugal a presença no play-off. Depois, diante da Roménia, um duplo empate acabou por ser suficiente (prevaleceu o 1-1 alcançado em Cluj-Napoca) para o baptismo de voo da selecção nacional em grandes torneios internacionais. Quando a prova arrancar, no dia 16 de Julho, terão passado 36 anos sobre a estreia absoluta da equipa portuguesa. E muito mudou de então até hoje, a começar pelo número de atletas federadas: de perto de 400 passou-se para 3790.

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Um segundo lugar, atrás da Espanha, na fase de qualificação para o Europeu de 2017, valeu a Portugal a presença no play-off. Depois, diante da Roménia, um duplo empate acabou por ser suficiente (prevaleceu o 1-1 alcançado em Cluj-Napoca) para o baptismo de voo da selecção nacional em grandes torneios internacionais. Quando a prova arrancar, no dia 16 de Julho, terão passado 36 anos sobre a estreia absoluta da equipa portuguesa. E muito mudou de então até hoje, a começar pelo número de atletas federadas: de perto de 400 passou-se para 3790.

Alfredina Silva, com um percurso de múltiplos desafios no futebol (conjugado com a função de professora de Educação Física), traz-nos esse olhar transversal sobre uma modalidade que aos poucos se foi desempoeirando. “Em termos de condições, dessa época para agora, há uma diferença nos espaços físicos. Hoje é obrigatório jogar em relvados e isso permitiu uma evolução na qualidade das jogadoras. Alterou-se também o número de jogos por época, com o aparecimento de mais clubes. E o facto de termos várias selecções em actividade proporciona momentos importantes de evolução e de motivação”, elenca.

Essa evolução é também palpável quando olhamos para o lote de convocadas do seleccionador Francisco Neto para o Europeu que se avizinha. Das 25 futebolistas escolhidas, nove jogam fora do país e algumas regressaram recentemente, fruto do investimento que Sporting e Sp. Braga fizeram na modalidade. Um sinal positivo, no entender de Gena, ao qual é preciso dar continuidade.

“Os clubes não apostam muito na formação. Querem logo fazer uma equipa sénior, já formada. Querem formar uma equipa para ganhar no imediato. Se correr bem, o investimento continua, se correr mal, acaba”, aponta a antiga guarda-redes, que viu a carreira atalhada pela ameaça de um coágulo, depois de ter sofrido dois traumatismos cranianos — um dos quais ao serviço de Portugal, frente aos EUA. “Se têm o exemplo do futebol masculino, porque é que não aproveitam?”, questiona.

“Éramos tão criticadas...”

A década de 1980 foi, a todos os títulos, marcante para o futebol feminino. Para além dos primeiros passos da selecção, arrancou em 1984 o campeonato nacional, sob a designação de Taça Nacional. A partir de então, houve sempre quadro competitivo, ainda que abundassem arestas para limar. Algumas de índole cultural, que só o tempo seria capaz de ir aplainando.

“Nós éramos tão criticadas e isso também me aborrecia bastante... Aqueles comentários que ouvíamos dentro de campo, as críticas vindas da assistência, das pessoas que iam aos estádios só para criticar”, aponta Gena. “Havia homens e mulheres que iam ver os jogos por curiosidade e ouvíamos coisas do género: ‘Ide lavar a loiça, ide para casa’. Mas aos poucos fomos notando uma evolução e mais respeito”, confirma Paula Lessa.

Eram dias difíceis, de trabalho duro e currículos desportivos construídos à custa de horas roubadas ao sono. Eram dias em que, na ausência de um técnico de guarda-redes, as atletas ficavam no fim do treino a fazer trabalho extra. “Cheguei a sair dos treinos às 00h, 00h30 e, nessas alturas, era o treinador que ia levar-nos a casa”, conta Gena. Eram dias em que Paula Lessa se levantava às 5h para apanhar três autocarros e entrar ao serviço às 7h, na fábrica. “E os nossos treinos eram depois dos juniores, à noite, o que significa que acabavam quase às 22h. Isso contribuiu um pouco para a minha saturação”, acrescenta.

A própria metodologia do treino também sofreu um upgrade, com a carga física a perder peso na relação que estabelece com a dimensão táctica do jogo. “Hoje temos a componente da táctica a liderar todo o processo e essa é uma grande diferença”, reforça Alfredina, que entre sorrisos acrescenta uma curiosidade de outra natureza: “Lembro-me que tinha muita dificuldade em encontrar chuteiras. As primeiras botas de marca que tive foi quando fui a França jogar e comprei lá”.

Organização vs improviso

Esse é o tipo de obstáculos que nenhuma das actuais jogadoras da selecção enfrenta. Assim como não têm de “fechar os olhos” quando cabeceiam a bola em dias de chuva, um pesadelo nos tempos das bolas de couro, cosidas à mão.

O trabalho de bastidores da Federação Portuguesa de Futebol, hoje um exemplo de organização a vários níveis, contribui para que as atletas se concentrem exclusivamente no treino e na competição e Gena espera que esta oportunidade sirva para impulsionar de vez a modalidade. “Esta geração é bastante razoável e Portugal tem um grupo no Europeu em que pode fazer boa figura [defronta Espanha, Escócia e Inglaterra]. Mas se não aproveitarem a formação, este trabalho cai em saco roto”.

Por todas as razões, há um caudal de expectativas maior a rodear a prestação desta versão da selecção. “Agora já têm mais estágios, fazem um Mundialito, há jogos particulares. No nosso caso, foi quase um improviso e o tempo de preparação foi muito curto”, expõe Paula Lessa, num misto de lamento e saudosismo, que encerra com uma certeza. “Com as oportunidades que elas têm agora, uma pessoa nem olhava para trás”.